Filmes: os melhores de fevereiro de 2022

Sigo no ritmo do Oscar 2022.

Recentes

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (netflix): meu longa de animação favorito dessa temporada. Uma adolescente consegue entrar para a faculdade dos sonhos e finalmente encontrará pessoas como ela, mas antes deverá salvar o mundo e, de quebra, entender-se com sua família. Referências a Exterminador do Futuro” e “Eu, Robô”, entre outras. 4 estrelas

Coda – no ritmo do coração (amazon prime): uma adolescente é a única ouvinte de sua família e é apaixonada por música. Termina por ficar dividida entre seguir sua paixão ou continuar a ajudar a família de pescadores, que depende dela. Filme fofo, excelentes atuações, belas canções. A diretora teve uns insights bacanas ao alienar os espectadores ouvintes em algumas cenas, demonstrando como se sentem os surdos na maioria do tempo. 5 estrelas

Four Good Days (google play): após dez anos de vício, uma mulher implora pela ajuda da mãe para se livrar da heroína. Inicialmente a mãe recusa ajuda, em uma atitude tão fria que chega a ser chocante, até que percebemos que essa história é muito longa. Seguir-se-ão quatro dias de convivência e luta. O filme aproveita para criticar o sistema médico norte-americano. 5 estrelas

Mães Paralelas (netflix): parece que o tema do Oscar 2022 é família em geral e maternidade em particular. Duas mulheres se conhecem na enfermaria de uma maternidade enquanto dão à luz, e seus destinos ficarão atados. Em segundo plano, há uma tentativa de recuperar os restos mortais de desaparecidos durante a guerra civil espanhola. Almodóvar em excelente forma – minha única ressalva é o melodrama da cena final. 4 estrelas

Direto do túnel do tempo

Nanook (1922, youtube): considerado por muitos o filme que inaugurou o gênero dos documentários. O diretor acompanha por meses uma família esquimó em sua batalha pela sobrevivência. A narrativa não é cem por cento espontânea, algumas cenas foram “posadas”, mas isso não retira a força dramática daquela realidade inóspita. 5 estrelas

As minas do rei Salomão

Livro da vez: “As minas do rei Salomão”, de Henry Rider Haggard.

Allan Quatermain lidera Henry Curtis e o Capitão Good em uma aventura na África com pouco mais que um mapa feito a mão. Os objetivos: encontrar a lendária mina de diamantes do rei Salomão e o irmão de Sir Curtis, perdido há anos. Logo se junta ao grupo o nativo Umbopa. A expedição enfrentará deserto, neve e até uma guerra na tentativa de cumprir suas missões.

A introdução já avisa que é um livro “para meninos” – porque provavelmente o que se esperava das meninas em 1885 era que aprendessem a cozinhar e bordar, jamais exercitando a imaginação ou sonhando com aventuras.

Dito isso, é preciso lembrar que ninguém escapa inteiramente ao seu tempo e essa colherada de machismo não deve espantar. Por outro lado, considerando-se a época e o contexto social do autor, ele foi muito progressista. Os negros não são tratados como coitadinhos que precisam ser salvos pelos brancos, nem como bestas de carga. Ao contrário, são personagens fortes, e o narrador em diversos momentos elogia sua inteligência e organização social. São admirados. Há até um romance interracial, e dá pra imaginar como isso deve ter chocado a sociedade vitoriana.

“As minas do rei Salomão” foi o último livro do #projetoexploradores e foi um dos meus favoritos. O projeto durou um ano e foi uma oportunidade incrível de revisitar Júlio Verne (o primeiro autor de ficção científica que li) e conhecer obras que, embora famosas, nunca tinham me interessado muito. Jack London foi um presente, um autor de quem mal tinha ouvido falar e que me encantou (lemos dois livros dele, “O lobo do mar” e “Caninos Brancos”, e ambos são meus favoritos do projeto). Saí da minha zona de conforto e explorei mundos incríveis na companhia dos demais exploradores literários.

Obrigada às organizadoras por terem proporcionado essas viagens: @soterradaporlivros@tinyowl.reads@chimarraoelivros e @fronteirasliterarias!

Estrelinhas no caderno:
Para o livro do mês: 4 estrelas
Para o projeto: 5 estrelas

As Viagens de Gulliver

Livro da vez: “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift, leitura coletiva do #projetoexploradores, organizado por @soterradaporlivros@tinyowl.reads@chimarraoelivros e @fronteirasliterarias.

Esperava um livro infantil e, considerando que foi lançado em 1726, cheio de descrições maçantes. Fui surpreendida com um livro interessantíssimo – e para adultos.

Gulliver é um médico muito louco que se mete em muitas aventuras. Não sossega nem depois que casa e tem filhos. Conhece um país de pessoas em miniatura (o famoso Lilliput), outro de gigantes, um cuja capital é uma ilha voadora pronta a esmagar os súditos e, finalmente, um país em que os cavalos são os seres racionais.

A cada viagem, sua crença inicial nas virtudes superiores da Inglaterra é mais e mais abalada. O autor abusa da ironia em críticas mordazes ao parlamento, ao sistema de classes, ao direito, às ciências, à arrogância típica dos ingleses. Considerando a época em que o livro foi escrito, é bastante progressista ao criticar preconceitos e defender que as mulheres tenham a mesma educação formal dos homens.

No Brasil, a maioria das edições é adaptada para crianças e tem apenas as duas primeiras viagens. Na Amazon você pode baixar gratuitamente uma edição com as quatro viagens e um português bastante agradável (boa tradução, sem ser rebuscada nem simplista).

Fico pensando o quanto uma criança de oito ou dez anos – a quem supostamente o livro se destina – é capaz de entender da obra. Se você leu na infância, leia de novo. Se nunca leu, afaste o preconceito e viaje nessas aventuras.

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

Ficha Técnica

  • Título original: Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull
  • País de origem: EUA
  • Ano: 2008
  • Gênero: Aventura
  • Duração: 124 minutos
  • Direção: Steven Spielberg
  • Roteiro: David Koepp, baseado em estória de George Lucas e Jeff Nathanson e nos personagens criados por George Lucas e Philip Kaufman.
  • Elenco: Harrison Ford, Shia LaBeouf, Cate Blanchett, Karen Allen, John Hurt, Ray Winstone e Jim Broadbent.
  • Sinopse: em 1957, Indiana Jones está à beira de ser demitido da Universidade Marshall, devido a ações que despertaram suspeitas no governo. O arqueólogo conhece Mutt Williams (Shia LaBeouf), um jovem que pede sua ajuda numa missão que pode resultar no encontro da Caveira de Cristal de Akator – que também está sendo procurada por agentes soviéticos, liderados por Irina Spalko (Cate Blanchett).

Comentários

Indiana Jones e o Reino da Caveira de CristalA saga de Indiana Jones[bb] foi o fantástico resultado da parceria entre George Lucas (cujo único feito notável é Guerra nas Estrelas[bb] – mas não dá pra dizer que isso é pouco) e Steven Spielberg, um dos maiores cineastas de todos os tempos, responsável por Tubarão[bb], Contatos Imediatos de Terceiro Grau[bb] e outros clássicos inesquecíveis (sem mencionar seus filmes “sérios”). A série virou definição de filme de aventura – por mais que boas produções do gênero tenham surgido desde então, Indiana Jones é referência e, para muitos, o melhor dos melhores, capo di tutti capi.

A trilogia do mais famoso arqueólogo contraria o senso comum que dita que seqüências são sempre piores que o original. Indiana Jones melhorou a cada filme e O Reino da Caveira de Cristal continua o movimento “para o alto e avante”. Sim, o quarto filme é, na minha opinião, o melhor deles.

Indiana Jones 4 (apelido inevitável diante de um título gigante) é daqueles poucos filmes em que cada elemento do cinema está em seu auge. Se fosse uma escola de samba, ganharia 10 em todos os quesitos. Do roteiro às interpretações, passando pela fotografia (alguém diria que o diretor de fotografia não é o mesmo que dirigiu os outros filmes?), tudo foi pensado para proporcionar as 2 melhores horas de cinema em muito tempo. Some-se a isso o fato de ter sido meu primeiro Indiana Jones no cinema e dá pra entender porque o considero o melhor da série.

Meus olhos brilharam aos primeiros acordes do clássico tema de John Williams, logo no início da sessão. A música entra suavemente, você vê o chapéu inconfundível e, logo em seguida… Indiana, o bom e velho (sim!) Indy, interpretado como nunca por Harrison Ford. Meus olhos continuaram brilhando até os créditos finais. Poucas vezes ir ao cinema foi tão gratificante.

Um dos méritos do filme é que ele não entretém apenas os fãs. Quem adora a trilogia acha bacana reencontrar Marion, a primeira Indy Girl, e ri ao lembrar-se do pavor que o Dr. Jones sente de cobras. Também é legal ver que o tempo passou na ficção tanto quanto na vida real: Indiana envelheceu, os inimigos são os soviéticos e não mais os nazistas e o encontro com o garoto Mutt Williams (numa interpretação excelente de Shia LaBeouf) fecha um ciclo. Por outro lado, quem nunca viu nenhuma aventura anterior (alguém?) diverte-se igualmente com as peripécias de Indy e seu séquito.

É claro que o filme tem inconsistências. Na vida real, granadas não têm pólvora dentro delas, projéteis não são recheados de chumbinhos e dardos de zarabatana não são envenenados na parte traseira. Arqueólogos não são tão cool (eu ia escrever “descolados”, mas você diria que essa palavra é velha demais) e andar de cipó só funciona para o Tarzan. E quem se importa? Lamento por quem não consegue dar o salto de fé necessário para se divertir com filmes-pipoca, de verdade (assino embaixo do texto do Cardoso a respeito).

Das centenas de vezes que já fui ao cinema, algumas geraram memórias inesquecíveis (caberia um Top 5 sobre isso). A melhor de todas, que nunca-jamais-em-tempo-algum será igualada, foi ver Star Trek[bb] na telona pela primeira vez, num cinema enorme, na sessão de pré-estréia, cercada por uma legião de trekkers. Não é à toa que considero esse o melhor filme da franquia (eu e a torcida do Corinthians, diga-se de passagem).

Da mesma forma, para mim, Indiana Jones 4 é a melhor história de Indy jamais contada. Aquela primeira cena ocupará, para sempre, um lugar todo especial nas minhas lembranças, logo abaixo de Star Trek VI.

Cotação: 5 estrelas

Curiosidades

Harrison Ford afirmou, em entrevistas, que não usou dublês. Será? De qualquer modo, a BBC sublinha que o ator informou que “as cenas não são exatamente o que parecem”.

Os soldados russos são de verdade – ou melhor, os atores eram russos, para garantir o sotaque.

Sean Connery foi convidado a reviver seu papel, mas recusou. Preferiu continuar aposentado.

O diretor de fotografia Douglas Slocombe, responsável pelos 3 primeiros filmes, também está aposentado. Foi substituído por Janusz Kaminski, que tem trabalhado com Spielberg desde A Lista de Schindler.

O orçamento de Indiana Jones 4 foi de cerca de 185 milhões de dólares, pouco se comparado a outros filmes de aventura. Na primeira semana de exibição, a bilheteria mundial ultrapassou os 300 milhões de dólares. Nada mal, hein?

Além da Tela

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal se passa em 1957, em pleno macartismo, nome dado à política inspirada pelo senador norte-americano Joseph McCarthy caracterizada por uma “caça às bruxas” (expressão muitas vezes usada para designar esse mesmo período) anticomunista. O macartismo teve início após a Segunda Guerra Mundial e arrastou-se pelos anos 50. Professores, artistas, comunicadores e sindicalistas foram alvos preferenciais da perseguição. É a política macartista que ameaça o emprego de Indy na universidade em que leciona há décadas.

A paranóia contra a União Soviética justificou uma série de reduções nos direitos individuais, usualmente tão valorizados pelos norte-americanos. Um excelente filme sobre essa época é Boa Noite e Boa Sorte[bb] (que por algum esquecimento imperdoável deixei de comentar no DF) . As medidas antiterroristas implantadas por George W. Bush após o atentado de 11 de setembro de 2001 foram comparadas ao macartismo.

O galpão militar mostrado logo no começo do filme fica – na trama, claro – na famosa Área 51, conhecida dos fãs de ficção científica e dos ufólogos pela sua fama de guardar provas da existência de extraterrestres e das visitinhas que eles teriam nos feito. A Área 51 existe: trata-se de uma base área situada numa região desértica do estado de Nevada, Estados Unidos. O resto é história.

A caveira de cristal do filme foi inspirada em duas caveiras de cristal “de verdade”, supostamente confeccionadas no período pré-colombiano. Uma delas está no Museu Britânico, a outra encontra-se no Instituto Smithsonian. A origem das caveiras nunca foi bem estabelecida e, recentemente, chegou-se à conclusão de que não passam de fraudes: seriam do século XIX ou XX, provavelmente fabricadas por um comerciante de antigüidades espertinho.

O Eldorado (ou, em maia, Akakor, ou Akator) é uma cidade mitológica toda feita de ouro maciço. A lenda tem origem do século XVI e foi inspirada pelo chefe de uma tribo sul-americana que teria o hábito de se cobrir de pó de ouro (daí o nome Eldorado, ou “O Dourado”), indicando a abundância desse metal e despertando a cobiça dos colonizadores espanhóis.

Serviço

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