Filmes: os melhores de março de 2022

Vinte filmes em abril, na tentativa de ver todos os indicados ao Oscar antes da cerimônia. Vai daí que só vi filmes recentes este mês, nada de túnel do tempo dessa vez.

Identidade: esse não foi indicado ao Oscar, mas devia ter sido. Na Nova Iorque do fim dos anos 20, uma negra se passa por branca, mas se reconecta com o passado ao reencontrar uma amiga de sua outra vida. Atuações excelentes. 4 estrelas

Attica: o documentário relata a rebelião de 1971 na penitenciária de Attica. Todas as mortes decorrentes foram pelas mãos dos policiais e nenhum deles foi condenado. Sim, lembra bastante Carandiru, mas em proporções menores – o massacre no Brasil foi muito maior. 4 estrelas

Cyrano: história contada e recontada, mas com uma forte carga dramática nessa versão. Peter Dinklage provavelmente teria sido indicado ao Oscar se o filme não fosse um musical. 4 estrelas

Sem Tempo para Morrer: não botei fé no Daniel Craig quando ele foi escolhido para encarnar o 007 e paguei a língua – seus filmes viraram meus favoritos da saga. A despedida é em grande estilo, com as traquitanas tecnológicas que amamos, pouca objetificação feminina (essa nova fase é muito melhor nesse quesito) e uma dose bem-vinda de drama. 4 estrelas

Belfast: não era meu favorito ao Oscar de melhor filme (era Ataque de Cães), mas é muito bom. Kenneth Branagh mostra, pelos olhos da criança que ele foi, os primeiros momentos do conflito entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte. 5 estrelas

O que será que vem pela frente?

Tem nem graça fazer uma retrospectiva de 2020, né?

Passei o carnaval na fronteira com a Venezuela a trabalho (e por escolha). Nós – eu e minha companheira de aventuras em Pacaraima – só ouvíamos tv no café-da-manhã do hotel, por falta de opção, e começou o papo do tal “novo coronavírus”. Lembro que comentamos uma com a outra “nossa, será que não está acontecendo mais nada no mundo?” e não demos maior atenção.

Corta pra 11 de março, eu e a Simone plenas no cinema em uma pré-estreia lotada (depois de um starbucks também lotado). Ah, a tranquilidade da ignorância… No fim de semana seguinte, eu e uma amiga reservávamos o último hotel de nossa viagem de férias para a África do Sul, que começaria em 5 de abril. Começaria, olha o tempo verbal, porque veio a pandemia e, com ela, o fim da normalidade e dos planos.

Tenho queixas e lamentações como qualquer pessoa (pelo menos qualquer pessoa sensata), mas também preciso reconhecer: em um nível pessoal, 2020 não foi ruim para mim.

Claro, planos foram por água abaixo, tive momentos de ansiedade, preocupação e até desespero, uma quantidade avassaladora de trabalho e chorei a morte de pessoas (famosas e anônimas). Tive minhas neuroses e paranoias. E quem não teve? Se você não teve, sinto informar que você não é normal.

No frigir dos ovos, porém, foi o seguinte: não perdi o emprego, não perdi ninguém da minha família próxima, não perdi a saúde física nem mental. Essa sucessão de “nãos”, ante o que aconteceu com tanta gente, me faz acrescentar mais um “não”: não posso reclamar.

Quero dizer, posso. Todos podemos. Claro que podemos, foi um ano dos infernos.

Mas… não posso reclamar, sabe? Não de verdade.

Li muitos livros (85), vi muitos filmes (100), vi exposições (antes da pandemia) e muitas peças (National Theatre, eu te amo), guardei dinheiro (mais do que eu planejava, já que não viajei), aprendi um tanto de coisas (sobre cinema, sobre sorvete, sobre café, sobre a vida, o universo e tudo mais).

Enfrentei desafios e saí do outro lado. Encomendei minhas primeiras lentes multifocais (ainda me sinto uma câmera tentando ajustar o foco automático) e serviram na armação que escolhi e comprei antes, imprudentemente. Comprei roupas que não sei quando vou usar e um chromecast que uso quase todos os dias. Descobri que não preciso de academia de ginástica e nunca me senti tão forte fisicamente.

Tive perdas, sim, mas podia ter sido pior, muito pior.

Planos para 2021? Não trabalhamos. Sei que não vou turistar (e sabe-se lá quando poderei), sei que vou ler muito e ver muitos filmes. Sei que vou melhorar na ioga, um tiquinho por dia. Quero retomar o lettering, o desenho e a aquarela, e já estou nesse rumo – nada como um pouco de arte por dia para manter a sanidade. Preciso colocar barreiras entre a rotina profissional e o restante da minha vida, e estou aprendendo.

Um dia de cada vez, um passo a cada dia, rumo a 2022.

Coisas Boas de Dezembro

A melhor coisa de dezembro foi que 2020 terminou – tudo bem que parece que estamos vivendo o segundo tempo de 2020, mas vamos em frente.

Livro favorito: foi um mês de ótimas leituras e fiz algumas resenhas no instagram. Dos livros 5 estrelas, destaco 2001 – Uma Odisseia no Espaço porque é espantosamente melhor que o filme! Do filme eu só curto mesmo o HAL. O livro de Clarke não é pretensioso como a direção de Kubrick, tem uma boa base científica, fornece explicações e faz tudo isso sem ser tedioso.

Filme favorito: vou ficar com O Discurso do Rei pela excelente atuação de Colin Firfh e pelo panorama histórico.

Série favorita: estou adorando o retorno de Grey’s Anatomy.

Bônus: 2020 acabou, quer bônus melhor que esse? Eu e as pessoas que amo estamos saudáveis, não tive perda de renda como tantas outras pessoas, tenho conseguido driblar o stress e a ansiedade de forma satisfatória. Tenho do que reclamar, claro (quem não tem, está morando debaixo de uma pedra), mas podia ser pior, tem sido pior pra inúmeras famílias, e por não ser esse o caso por aqui já fico contente.

Agora começa a contagem regressiva para a vacina…

Quarentenando

O último dia “normal” por aqui foi 17 de março. De lá pra cá, saí de casa seis vezes.

Amo ficar em casa, mas estava acostumada a sair pelo menos cinco vezes por semana, entre trabalho e academia. Estava acostumada a descer pro mercado em frente sempre que dava na telha e a sentir o sol na pele quase todos os dias (impossível dentro de casa nessa época do ano). Estava acostumada a viajar nos feriados e férias, tinha uma viagem internacional em abril com uma amiga e planejava uma viagem nacional este mês (passaria o São João em São Luís e conheceria os lençóis maranhenses).

Aí veio o coronavírus e – planos, o que são essas coisas? São de comer ou de passar no cabelo?

Meio que rolaram as fases do luto por aqui.

Março foi de negação. Fui ao cinema com a Simone no dia 12, só parei de ir pra academia quando ela fechou (no dia 17), só cancelei a viagem quando a empresa aérea cancelou o vôo (no dia 18).

Logo depois veio a raiva pelos planos desfeitos, pelo prejuízo financeiro e pelas férias do ano todo arruinadas (quem vai ter coragem de fazer turismo em 2020?). Uma frase martelou aqui dentro constantemente: “Eu não queria que isso estivesse acontecendo durante a minha vida”.

Lembrei-me do que minha geração sofreu com a AIDS: o medo, a falta de informações, os ídolos morrendo – alguns definhando em praça pública -, a promessa de sexo livre (criada pela geração anterior) roubada ou, pelo menos, mutilada. Parecia que já tínhamos passado pelo suficiente.

Claro que isso não é verdade. Não há “suficiente”, não há uma “quota” destinada a cada geração. Muitas passaram por coisas muito piores. Dentro da minha geração, muita gente passou e passa por coisas piores. (E vidas negras importam, sim!)

A ficha caiu quando vi uma citação de O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel que, além de retratar meu pensamento, dava uma resposta à altura:

“I wish it need not have happened in my time”, said Frodo.

“So do I”, said Gandalf, “and so do all who live to see such times. But that is not for them to decide. All we have to decide is what to do with the time that is given us”.

——

– Gostaria que isso não tivesse acontecido na minha época – disse Frodo.

– Eu também – disse Gandalf. – Como todos os que vivem nestes tempos. Mas a decisão não é nossa. Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado.

Aí começou a fase da barganha, do “vou aproveitar essa fase para fazer tais e quais coisas, pra desengavetar esse e aquele projeto”. Essa fase rendeu frutos, com um boom de produtividade inicial, a conclusão do primeiro rascunho de um romance (que detestei) e um surto de leituras/filmes/séries. Durou pouco, porque bateu o cansaço – claro – e porque meu trabalho aumentou.

Era inevitável que viesse a fase da depressão. Tive uns quinze dias de inércia quase absoluta, com o abandono total ou quase de hábitos dos quais preciso para manter a saúde física e mental. Foi curta porque não foi clínica e porque mais de quarenta anos me deram mecanismos para reconhecer as sombras e lançar-lhes luz.

Pra ser honesta, a tristeza continua por aqui. Não poderia ser de outro jeito, dado o período que estamos vivendo, a COVID, as mortes, as pessoas que conheço que foram afetadas, o que vejo no meu trabalho todos os dias, as notícias, o descalabro desse governo. Difícil seria não sentir tristeza.

O que me leva à fase de aceitação.

Aceitação de que a vida mudou, de que vivemos tempos difíceis, incertos, inseguros, de que há perigos à espreita – e não só o vírus. Aceitar permite reagir, criar novas rotinas, buscar novos mecanismos de superação (e resgatar os antigos). Permite olhar além do próprio umbigo, também, especialmente porque tenho a sorte de ter um trabalho e um salário, de ter saúde, de ter meus pais com saúde, de ter amigos com saúde e de ter sofrido poucas perdas, quando as comparo com as de outras pessoas. Tenho a sorte de ser resiliente e de ter uma boa capacidade de deixar o passado no passado e seguir olhando em frente.

Algumas coisas ainda doem.

Dói muito ouvir as notícias.

Mas vai ficar tudo bem.