Livro: Oliver Twist

Livro da vez: Oliver Twist, de Charles Dickens.

Oliver Twist é um órfão que passa inúmeras privações e violências nas mãos de representantes do Estado e de pessoas inescrupulosas na Londres pobre, suja e violenta do séc. XIX.

O livro destoa de Um Conto de Duas Cidades. Enquanto Um Conto… é objetivo e direto, Oliver Twist é cheio de desvios , longas descrições que lembram o romantismo representado no Brasil por José de Alencar e muito melodrama. O excesso de coincidências torna a história inverossímil. Ainda assim, Dickens compõe personagens fortes e fiquei bastante interessada pelos destinos deles, torcendo pelo sucesso de uns e pelo sofrimento de outros.

A edição da Companhia das Letras traz um texto interessante em que George Orwell estuda a obra de Dickens. Lá, descobri que Um conto de Duas Cidades não é o livro-padrão do autor, mas Oliver Twist sim. Ou seja, o melodrama faz mesmo parte da obra de Charles Dickens.

Indico para quem tem curiosidade pela obra de Dickens e pela Londres vitoriana, mas Um Conto de Natal e Um Conto de Duas Cidades me agradaram mais. 4 estrelas

Livro: Pessoas Normais

Livro da vez: Pessoas Normais, de Sally Rooney.

Romance de formação, Pessoas Normais acompanha os protagonistas Connell e Marianne desde a adolescência até o fim da faculdade. Enquanto tentam descobrir seus lugares no mundo, ambos navegam hesitantes, em meio a mal-entendidos, aproximações e afastamentos.

Interesses amorosos, conflitos familiares, relações com amigos, opiniões políticas, crítica social, mudanças de ideia e de comportamento, dúvidas quanto ao futuro profissional… em menos de 300 páginas, a autora aborda de tudo um pouco. Poderia ser confuso ou vazio, mas a prosa é bem conduzida e acabei me importando com os personagens e torcendo para que fossem felizes.

Recomendo para quem curte o gênero young adult e busca uma história que não seja superficial. 4 estrelas

Livro: O Labirinto da Morte

Livro da vez: O Labirinto da Morte, de Philip K. Dick.

Um grupo de pessoas um tanto frustradas com as próprias vidas é enviado a Delmak-O, um novo assentamento num planeta desconhecido. Logo fica evidente que há algo estranho com todas elas e com a missão. O grupo passa a lutar pela sobrevivência e o final é aterrador e surpreendente ao mesmo tempo.

O Labirinto da Morte traz um elemento religioso interessante, e é isso que as sinopses costumam destacar, mas o foco da história é a interação do estranho grupo de pessoas enquanto lutam pela sobrevivência.  O Caso dos Exploradores de Cavernas vem à mente, mas as semelhanças não duram muito tempo.

Philip K. Dick escreve ficção científica de um jeito que me encanta. Seu interesse está no drama humano e a tecnologia é um mero pretexto para tratar de questões complexas e, ao tempo, comuns. Ele não perde tempo desenvolvendo conceitos mirabolantes ou escrevendo technobabble (William Gibson, estou olhando para você), prefere uma prosa clara, construindo um texto acessível e fluido, sem deixar de intrigar e surpreender o leitor.

Recomendo para quem busca uma história curta (o livro tem menos de 300 páginas) e surpreendente. 5 estrelas

Livro: O Avesso da Pele

Livro da vez: O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório.

Após a morte do pai, Pedro escreve para reconstruir a história da família e a sua própria. Assim conhecemos Henrique, um professor negro que, vivendo em Porto Alegre, conheceu várias faces do racismo. Somo apresentados aos pais de Henrique, avós do narrador, também alvos do racismo. Por fim, há os conflitos do próprio Pedro ao descobrir seu lugar no mundo e perceber o lugar em que pretendem colocá-lo.

Li motivada pela censura que o livro tem sofrido nas escolas e, apesar da via torta, estou contente pela oportunidade de ter contato com essa história. A narrativa é dolorosa. A escrita é primorosa, sofisticada sem ser pedante. O uso da segunda pessoa do discurso, ou seja, o uso do “você” como voz narrativa, me incomoda em qualquer texto, e neste livro achei desnecessário, mas ainda assim a história é tão poderosa e bem contada que superei meu incômodo. Provavelmente é o melhor livro nacional contemporâneo (escrito no séc. XXI) que já li.

Recomendo a quem aprecia literatura brasileira, procura uma narrativa potente e tem coragem de ler verdades duras. 5 estrelas