Livro: O Avesso da Pele

Livro da vez: O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório.

Após a morte do pai, Pedro escreve para reconstruir a história da família e a sua própria. Assim conhecemos Henrique, um professor negro que, vivendo em Porto Alegre, conheceu várias faces do racismo. Somo apresentados aos pais de Henrique, avós do narrador, também alvos do racismo. Por fim, há os conflitos do próprio Pedro ao descobrir seu lugar no mundo e perceber o lugar em que pretendem colocá-lo.

Li motivada pela censura que o livro tem sofrido nas escolas e, apesar da via torta, estou contente pela oportunidade de ter contato com essa história. A narrativa é dolorosa. A escrita é primorosa, sofisticada sem ser pedante. O uso da segunda pessoa do discurso, ou seja, o uso do “você” como voz narrativa, me incomoda em qualquer texto, e neste livro achei desnecessário, mas ainda assim a história é tão poderosa e bem contada que superei meu incômodo. Provavelmente é o melhor livro nacional contemporâneo (escrito no séc. XXI) que já li.

Recomendo a quem aprecia literatura brasileira, procura uma narrativa potente e tem coragem de ler verdades duras. 5 estrelas

Livro: “Cupim”

Livro da vez: Cupim, de Layla Martínez.

Uma casa guarda as memórias de seus habitantes, mas a casa das narradoras de Cupim (avó e neta) guarda mais que isso: guarda mortos e fantasmas, além de receber a visita de santas. A história se passa em um povoado espanhol e trata das memórias de quatro gerações de mulheres oprimidas e assombradas por homens, pela riqueza alheia e por preconceitos.

A premissa é interessante, a execução é razoável. Trabalhar com narradores distintos é sempre um desafio e a autora escolheu um caminho fácil, marcando a fala de uma das narradoras por palavrões e ausência de pontuação. Além disso, senti falta de uma voz própria. Percebi influências de Saramago, Isabel Allende e Gabriel García Márquez combinadas, talvez usadas com certo exagero. As partes mais interessantes do livro são as que transmitem raiva – talvez essa seja a voz da autora? Não sei.

Um bom livro, especialmente considerando-se que é um romance de estreia.

Recomendo para quem curte histórias de terror e realismo mágico. 3 estrelas

Livro: “Submundo – Cadernos de um Penitenciário”

Livro da vez: Submundo – Cadernos de um Penitenciário, de Abdias Nascimento.

Em 1943, Abdias Nascimento era cabo do exército e foi julgado à revelia por não obedecer a uma ordem. Preso no Carandiru, que era razoavelmente novo e tido como prisão-modelo, passa a relatar o interior da penitenciária e a entrevistar seus colegas. Registro interessantíssimo que demonstra como o preconceito e o racismo sempre permearam o sistema criminal. A linguagem algo antiga e cerimoniosa de vez em quando me fez dispersar, mas ainda assim o relato vale a pena.

Abdias Nascimento ficou preso de 1943 a 1944. As causas da prisão são um tanto incertas, talvez houvesse mais por trás dela do que insubordinação – racismo e perseguição política, provavelmente. Além do livro (publicado postumamente por sua esposa, Elizabeth Larkin), escreveu peças e fundou o Teatro do Sentenciado. Foi ativista de direitos humanos. Foi um dos fundadores do PDT, elegeu-se deputador federal e depois senador – eleito em 1997, foi o primeiro senador negro do Brasil. Eu nunca tinha ouvido falar dele e ter descoberto esse interessante personagem foi um bônus da leitura.

Recomendo para quem se interessa por criminologia, execução penal e/ou história. 4 estrelas

Livro: “Chuva de Papel”

Livro da vez: Chuva de Papel, de Martha Batalha.

Joel é um jornalista septuagenário aposentador, amargurado, conservador e misógino que se revela incapaz de tirar a própria vida. Como ninguém o tolera, acaba precisando contar com a caridade da tia idosa de um antigo pupilo, e sequer consegue ser grato no início.

O cara é insuportável e eu não estava interessada na vida dele, mas aos poucos essa senhora idosa, a Glória, começa a ganhar espaço na história, junto com sua vizinha Aracy. As reminiscências dos protagonistas se misturam ao tempo presente, o cotidiano mesquinho se entrelaça com grandes tragédias e essa colcha de retalhos se torna mais interessante a cada página.

Martha Batalha sabe narrar com maestria as vidas da classe média e, embora seus livros se situem no subúrbio do Rio de Janeiro (ao menos os dois que já li), os dramas são mais amplos que a geografia.

Recomendo para quem gostou de A vida invisível de Eurídice Gusmão ou para quem busca uma escritora brasileira contemporânea e madura. 4 estrelas