Livro: “A Casa dos Espíritos”

Livro da vez: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende.

A Casa dos Espíritos é o primeiro livro da escritora, lançado em 1982, em plena ditadura chilena. Quem já leu Cem Anos de Solidão perceberá semelhanças, especialmente nos primeiros 20%. As semelhanças até se justificam, já que ambas obras pertencem ao realismo fantástico, mas me incomodaram um pouco. Felizmente, depois desse início a autora encontra voz própria e passa a narrar com segurança e propriedade a saga de uma família, especialmente das suas mulheres cheias de força, Clara, Blanca e Alba.

O tema político permeia toda a história, com reflexões sobre a exploração e o capitalismo (as discussões políticas não são estranhas a Cem Anos, aliás), mas é nos 25% finais que a luta de classes, as manobras políticas e a sangrenta ditadura se tornam protagonistas. O lirismo dos primeiros capítulos cede lugar a sequestros, desaparecimentos e matanças. Algumas passagens são tão fortes que se tornam difíceis de ler.

Recomendo para quem gosta de realismo mágico, de literatura feminista e/ou de história latino-americana. 4 estrelas

Livro: “A Última Missão de Gwendy”

Livro da vez: A Última Missão de Gwendy, de Stephen King e Richard Chizmar.

Adorei o primeiro (A Pequena Caixa de Gwendy), achei o segundo apenas razoável (A Pena Mágica de Gwendy, escrito somente pelo Chizmar, parece um episódio filler de série, daqueles que não acrescentam muito à temporada) e fiquei gratamente surpresa com o terceiro.

Na sua última missão, Gwendy está na casa dos 60 anos, é viúva, senadora e atormentada por uma questão séria de saúde. Novamente visitada por Richard Farris, recebe de novo a caixa de botões e agora tem uma missão bem específica: destruí-la, antes que ela – a caixa – destrua o mundo (ou os mundos).

O mais esquisito foi ver um livro do King ambientado no espaço, mas no fim das contas ele não envereda pela ficção científica, mantendo-se na fantasia e no sobrenatural.

Embora o terceiro livro não tenha a magia do primeiro,  é um fecho à altura para a história de Gwendy, com um final emocionante.

Recomendo para quem leu os dois primeiros, e especialmente para quem leu A Torre Negra (será bem menos interessante para quem não leu). 4 estrelas

Livro: “Os Pilares da Terra”

A sabedoria não surge imediatamente quando alguém assume um cargo monástico – disparou Remigius.
– De fato, não – retrucou o irmão Paulo, devagar. Olhou diretamente para Remigius antes de completar: – Às vezes ela nunca surge.

Incrível, pensou Philip, como um caso claro de injustiça podia parecer equilibrado quando apresentado na corte.

Livro da vez: Os Pilares da Terra, de Ken Follett.

A @soterradaporlivros me deu o empurrão que faltava para finalmente ler esse calhamaço.

A história começa em 1135*, quando Tom Builder, um construtor talentoso que sonha em levantar uma catedral, perde o emprego e precisa sair da sua vila com mulher e filhos em busca da sobrevivência. Follett a acompanhar a história dessa família em meio a intrigas clericais, nobres mesquinhos, batalhas, violência e morte, mas também há espaço para a amizade, a compaixão e, claro, o amor.

A prosa é simples, o que torna a leitura rápida apesar das mais de mil páginas. O que torna o livro interessante são os personagens, seu amadurecimento, desventuras e lutas. Alguns são multifacetados e, claro, esses são os mais cativantes. Outros são verdadeiros vilões, quase caricatos, e desde as primeiras páginas torci por um final bem trágico e doloroso para alguns eles.

O livro termina em 1174, mas Follett escreveu outros dois romances no mesmo cenário, com diferença de séculos entre eles (e um prequel também), então é bem provável que eu revisite a Inglaterra medieval nos próximos anos.

Recomendo para quem curte ambientação medieval, mas já aviso que não é um livro de fantasia.  4 estrelas

*Na verdade, o prólogo narra um enforcamento em 1123.

 

Livro: “Histórias de morte matada contadas feito morte morrida”

Livro da vez: Histórias de morte matada contadas feito morte morrida: a narrativa de feminicídios na imprensa brasileira, de Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues.

Como a imprensa relata o feminicídio? Essa foi a pergunta das autoras, e a resposta é aquela que já percebemos no dia-a-dia: a mídia expõe e julga a mulher vítima de feminicídio, ao tempo em que protege e perdoa seu assassino. O livro condensa, sistematiza e analisa diversas notícias nos últimos quarenta anos, demonstrando essa tendência que é ainda mais forte quando a mulher é pobre, indígena ou negra.

A sistematização feita pelas autoras evidencia a conivência dos veículos de comunicação, em maior ou menor grau, com crimes bárbaros. Essa conivência, ouso acrescentar, nasce da aceitação da sociedade de situações de violência doméstica, sintetizada no velho ditado “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”.

Alguns casos impressionam pela quase cumplicidade dos veículos de comunicação, como o de Eloá Cristina, uma sucessão de erros da polícia e da imprensa, e o de Sandra Gomide, jornalista assassinada por um figurão da mídia.

Um tema que me chamou a atenção foram os órfãos do feminicídio, faceta ainda mais desalentadora desses crimes bárbaros.

Há poucas e honrosas exceções à em geral péssima cobertura da mídia, casos em que a imprensa abordou o feminicídio com assertividade, e o livro as exalta, além de destacar os avanços legislativos. Contudo, ainda há um longo caminho a percorrer nas redações e na sociedade de modo geral.

Leitura dolorosa, mas imprescindível para profissionais da imprensa e necessária para todos. 4 estrelas