Algumas releituras de 2021

Até 2019, raramente relia algum livro, mas aos grupos de leituras coletivas têm me feito revisitar obras e, em geral, a experiência é ótima. Sempre há coisas novas a descobrir e, dependendo do humor e do momento na vida, a relação com a história pode até mudar totalmente.

Eis algumas das releituras de 2021.

“Saco de Osso”, Stephen King: o livro começa muito bem, o protagonista (um escritor, que surpresa) é carismático, uma das personagens é uma criança fofa e a história é de assombração e tem ótimo desenvolvimento… até a parte final. Da primeira vez, honestamente, detestei o fim; dessa vez, continuo achando anticlimático, mas o livro é tão interessante que ainda assim vale a pena. 4 estrelas

“Os elefantes não esquecem”, Agatha Christie: provavelmente o primeiro livro adulto que li, lá pelos oito anos de idade. Não lembrava de nada, obviamente. Poirot é convocado pela amiga escritora Ariadne (que aprendi a amar muito recentemente, lendo os livros em ordem cronológica) para resolver um mistério ocorrido doze anos antes. Um dos meus favoritos da autora. 4 estrelas

“Não me abandone jamais”, Kazuo Ishiguro: esse é um dos meus favoritos da vida. Kathy está prestes a encerrar sua carreira como cuidadora e aproveita para rememorar sua vida, desde a infância no internato Hailsham. Ishiguro tem uma escrita que envolve lentamente, aprofunda mistérios e, ao mesmo tempo, dá pistas ao leitor atento. Recomendo ler sem saber nada da história, sem sequer ler a sinopse. 5 estrelas

“Contato”, Carl Sagan: Ellie faz parte de um projeto que investiga o espaço profundo em busca de sinais de vida inteligente extraterrestre. Uma mensagem subitamente é recebida, mais complexa do que se imaginaria. Os extraterrestres querem contato, mas o preço pode ser alto. As melhores partes do livro são as discussões envolvendo ciência e religião. Nessa releitura, percebi o tema do feminismo, que me passou batido nas anteriores. Fascinante. 5 estrelas

Depois

Livro da vez: “Depois”, livro mais recente de Stephen King.

Jamie Conklin é um garoto de seis anos que vê gente morta, mas não exatamente como em “O Sexto Sentido”. Com ele, o morto aparece por pouco tempo, fala por menos tempo ainda e nem sempre está onde se esperaria. A única certeza de Jamie é que, depois de morta, a pessoa não consegue mentir.

Passa o tempo e o Jamie adolescente vê-se obrigado a ajudar Liz Dutton a resolver um crime. Liz é uma policial à beira de perder o emprego que conhece desde pequeno e sabe do seu poder. Essa ajuda trará desdobramentos e Jamie questionará se o que sabe sobre os mortos é mesmo verdade.

O livro é escrito por um Jamie mais velho, de 22 anos, que consegue dar sentido a coisas que não entendia antes e faz questão de lembrar: essa é uma história de terror. Terror, sim, mas em “Depois” King também lança mão do thriller e faz isso muito bem.

As primeiras páginas me soaram estranhas, como se nem tivessem sido escritas pelo King. A narrativa em primeira pessoa e um tanto imatura me incomodou no início, mas a estranheza passou logo, e o estilo é justificado pelo jovem narrador. O ponto de vista de Jamie é o que torna a história emocionante, no fim das contas.

Nem todos os livros de Stephen King são excelentes e uns poucos me desagradaram mesmo, mas “Depois” é maravilhoso, perfeito e sem defeitos.

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas

Trocas Macabras

Livro da vez: “Trocas Macabras”, de Stephen King. Leitura de março do projeto #lendoKing, da @soterradaporlivros e da @seguelendo. O debate será no próximo sábado, 27/03 (se quiser participar, fale com uma das organizadoras).

Na pacata(?) cidade de Castle Rock, estado do Maine, uma loja nova é aberta: “Artigos Indispensáveis”. O gentil Sr. Leland Gaunt é o dono, vendedor e estoquista. Cada morador consegue encontrar na lojinha, quase que por milagre, seu maior objeto de desejo e os preços são quase irrisórios – ou assim parece. Não demora muito pra gente perceber que o Sr. Gaunt chegou pra botar fogo no parquinho.

O xerife Alan Pangborn está de volta, ao lado de uma pletora de personagens. Aliás, esse pra mim é o único defeito do livro: personagens demais, histórias paralelas demais. De qualquer modo, o leitor percebe logo quais são as mais importantes e pode escolher focar nelas.

O tom da história é sobrenatural sem adentrar a fantasia. O tema é recorrente nos livros do King: o Mal em sua missão de corromper as almas humanas. O desenvolvimento da história é ágil e há personagens cativantes, mas lembre-se de não se apegar muito.

Ler King em ordem cronológica é muito recompensador. Em “Trocas Macabras” o kingverso já está bem estabelecido. Castle Rock não é só uma cidade, mas um personagem. Há referências a Zona Morta, Cujo e A Metade Sombria.

E, claro, sempre há uma referência a Star Trek.

Estrelinhas do caderno: 4,5 estrelas

Rose Madder

Resenha do dia: “Rose Madder”, o livro de outubro do projeto #lendoKing, organizado pela @soterradaporlivros e pela @seguelendo.

Rosie se casou ainda jovem com Norman – e sofre abusos físicos e emocionais há 14 anos. De forma inesperada até para ela própria, reúne coragem e foge para a cidade mais distante que consegue. Lá começa a reconstruir sua vida.

Um dia, vagando por uma rua ainda pouco familiar, Rosie entra em uma loja de penhores e encontra três coisas que mudarão seu destino: uma pintura, um homem bondoso e um trabalho. Mas nada será fácil, porque Norman parte atrás dela, não por amor, mas por vingança.

Nesse livro, King mistura terror e fantasia em partes iguais, o que é bem inusitado – os livros que já li sempre pendem para um lado ou outro. A fantasia me incomodou no começo, mas acostumei. Quanto ao terror, é do tipo que mais dá medo: o tipo realista. As cenas de abuso são gráficas. É um livro muito tenso. Norman está entre os vilões mais assustadores do mestre do horror.

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas