Livro: a saga A Torre Negra

Livro da vez: a saga A Torre Negra, de Stephen King.

Roland Deschain é o último pistoleiro em um mundo desolado. Uma única coisa o move: encontrar a Torre Negra, custe o que custar. À frente segue sua nêmesis, o Homem de Preto. O pistoleiro é solitário e deseja manter-se assim, mas outras pessoas aparecerão e Roland terá que fazer escolhas de vida e morte. Enquanto isso, a Torre fica cada vez mais longe… ou mais perto… o tempo e a distância já não fazem sentido nesse mundo que seguiu adiante. E o ka é uma roda.

Se me dissessem que O Pistoleiro foi escrito por uma pessoa e o restante da saga por outra, eu acreditaria, porque de certa forma foi mesmo: Stephen King escreveu o primeiro livro com 22 anos e evidentemente seu estilo evoluiu bastante ao longo dos 33 anos que levou para escrever esse épico (o que me faz pensar que há esperança para Game of Thrones).

A Torre Negra é inconstante, como costumam ser as sagas. O Pistoleiro é um bom livro e deve ser lido como um prólogo – ao fim dele não há respostas, só muitas perguntas para incitar a imaginação. A Escolha dos Três é ótimo. Aí vem As Terras Devastadas, para mim o mais fraco, seguido por Mago e Vidro, excelente, e Lobos de Calla, maravilhoso. Canção de Susannah é bizarro até para os padrões do autor. O último livro, A Torre Negra, faz tudo valer a pena e é um dos melhores trabalhos do King. Lenços são imprescindíveis.

Indico para quem gosta de épicos e de fantasia mais focada nos personagens que no enredo.

Estrelinhas no caderno: 4 estrelas

Livro: Nós Somos a Cidade

Livro da vez: Nós Somos a Cidade, de N. K. Jemisin. Livro de fevereiro do projeto #lendoscifi (que já está no seu quarto ano e, se você quiser participar, é só falar com a @soterradaporlivros ).

Cidades nascem. Não, não estou falando de conjuntos de casas ou povoados que eventualmente crescem, ganham uma prefeitura e recebem o status de cidade. É mais que isso. As cidades, quando estão maduras, assumem a consciência da própria força e despertam, tornando-se uma entidade viva, pulsante.

Durante o processo de nascimento, a cidade recruta pessoas para ajudá-la e protegê-la, pois é justamente quando se põe mais vulnerável e pode ser atacada – e morta. Nova Iorque está nascendo. Grande e diversa como é, não tem apenas uma pessoa para ajudá-la, mas uma para cada distrito. E um Inimigo à espreita, que fará tudo para impedir esse nascimento.

O livro é o primeiro de uma duologia e começou com um conto que, a bem da verdade, não me agradou, mas a premissa foi bem desenvolvida no livro e a história terminou por me envolver e me emocionar. Vindo da Jemisin, claro que não é só uma história de fantasia, mas uma oportunidade para refletir sobre temas cruciais como racismo, xenofobia e preconceitos de modo geral.

Adorei o livro, adorei andar por Nova Iorque, uma personagem em si mesma e mal posso esperar pela parte final. Dito isso, não é meu favorito da Jemisin. Esse título ainda fica com a trilogia “A Terra Partida”.

Indico para quem curte fantasia urbana e não quer um livro raso, mas provocador. Gostar/conhecer Nova Iorque é um bônus (mas nem de longe é essencial para apreciar a história).

Estrelinhas no caderno: 4 estrelas

A Terra Partida

Livro da vez: “A Terra Partida”, trilogia de N. K. Jemisin.

Descobri Jemisin em 2019, começando por “A Quinta Estação”, primeiro livro da trilogia “A Terra Partida”. Só em 2020 li os outros dois. No meio do caminho, li dela “How Long ‘til Black Future Month?” e a duologia Dreamblood, que já resenhei aqui, ambos sem tradução. “A Terra Partida”, por outro lado, está todinha traduzida, então você não tem desculpas para não conhecer o trabalho fantástico dessa autora.

Em um mundo que parece a Terra, os orogenes são responsáveis por manter a integridade da superfície, preservando-a de abalos sísmicos devastadores. Por essa habilidade ímpar, são respeitados mas, acima de tudo, temidos e em alguns casos caçados, escravizados e mortos.

No primeiro livro, acompanhamos três orogenes, três mulheres em diferentes fases da vida e com diferentes domínios sobre seus poderes: Damaya, Syenite e Essun. Aos poucos vamos conhecendo esse mundo tão estranho e ao mesmo tempo tão familiar em seu caráter fragmentário, preconceituoso e racista. No fim de “A Quinta Estação”, Syen é provocada a embarcar em uma missão, e o leitor embarca com ela ao longo dos dois livros seguintes, “O Portão do Obelisco” e “O Céu de Pedra”.

A construção de mundos (worldbuilding) é o ponto forte da escrita de Jemisin. Nunca li nada parecido, o que evidentemente causou uma enorme sensação de estranhamento no começo. Essa sensação vai se dissipando graças ao segundo ponto forte da escritora: a criação de personagens complexos e apaixonantes. Você vai amar alguns, vai odiar outros e vai mudar de ideia ao longo da trilogia, mas não vai ficar indiferente às suas histórias. Mundo e personagens se entrelaçam de forma orgânica para contar uma história emocionante, uma das melhores tramas de fantasia que já li.

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas

Alice no País das Maravilhas

Livro da vez: “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll. Livro/filme do bimestre do projeto #quemteviuquemteleu, da @soterradaporlivros@tinyowl.reads e @seguelendo.

Foi minha terceira leitura e a cada vez minhas reações foram diferentes. Quando criança, adorei o livro. Reli há uns oito anos e achei chatíssimo. Dessa vez, gostei (mas não adorei) e notei como a tradução faz toda a diferença nessa obra. Recomendo muito a tradução da Zahar (mas há outras boas também).

Alice cai em um mundo de sonho em que as coisas são absurdas, nada faz sentido e o imprevisível é a regra. No debate, comentamos sobre a forma como as crianças eram vistas, e ainda são, em muitos casos: sem direito a opinar, sem voz, sem autonomia. Alice é curiosa e inquisitiva, e os personagens com quem se encontra – os adultos – tentam matar essas qualidades os simplesmente a ignoram, com a exceção do Gato de Cheshire.

E falando no Gato, ele é um dos grandes legados de Carroll, juntamente com o Coelho Branco, a Rainha de Copas e o Chapeleiro Maluco. As metáforas e os símbolos que inspiraram os personagens se perderam (ou quase), mas a força deles se mantém por si só, cheia de novos simbolismos. A obra de Carroll acabou se revelando atemporal.

Sobre os filmes, prefiro a animação da Disney, mais fiel ao livro e à própria Alice. O filme de Tim Burton conta uma história completamente diferente e a protagonista é tão sonsa que irrita.

Quanto às polêmicas sobre o autor, vale dizer que não há provas ou relatos das pessoas envolvidas que confirmem as acusações. Carroll tinha uma personalidade forte, um tanto misteriosa e algo controvertida – o restante, eu coloco na conta dos fofoqueiros ingleses e das estranhezas da era vitoriana.

O próximo bimestre será dedicado a 1984 e mal posso esperar para reler a obra e para ver o filme pela primeira vez. Quer vir com a gente? Fale com uma das organizadoras!

Estrelinhas no caderno: 3 estrelas