Dia de Folga » Opinião com gelo e laranja.

É Tudo Tão Simples

Publicado em 02/04/2012, em livros. Tags: , , ,

É Tudo Tão Simples - capaDos livros da Danuza, meus favoritos são Quase Tudo (sua autobiografia, nada menos que fascinante) e Na Sala com Danuza, uma revolução no tocante ao ensino de boas maneiras (e que deveria ser leitura obrigatória nas escolas). Os outros todos são apenas mais ou menos. Gosto de uma crônica ou outra, adoro quando ela usa de ironia ou escreve sobre os gatos e, no restante do tempo, só acho legalzinho. É Tudo Tão Simples segue esse caminho.

Várias amigas me disseram que eu tinha que ler o livro, que é a minha cara. Realmente, Danuza começa falando em passar adiante tudo aquilo que está sem uso, entupindo armários: prataria, cristais, porcelanas. Admite, no entanto, que tem mais roupas do que precisa e não consegue se livrar delas. Até aí, tudo bem. É logo nesse início que ela escreve uma das melhores frases do livro: “Andei pensando nessa história de simplificar, e vejo que passei a primeira metade da minha vida querendo ter as coisas – todas as coisas – e estou passando a segunda metade querendo me desfazer das coisas, e ficar apenas com o essencial”. Bacana, não é?

Só que essa vontade toda de simplificar não aparece em boa parte do livro, que contém listas e listas do que pode e não pode, deve e não deve, do que é essencial numa viagem etc. e tal. Além disso, há um certo choque diante da tecnologia, e também dos novos modelos familiares, que me soaram estranhos vindo de quem tem uma vivência tão grande, andou pelo mundo inteiro, conhece tanta gente diferente. Bom, pode ser só pra fazer graça.

Tem também a contradição. Lá pelas tantas, ela diz: “Se me oferecessem uma volta ao mundo em hotéis trinta estrelas, tudo de graça, mas que eu não pudesse comprar rigorosamente nada, eu não iria”. Sério?! Será que isso é simplificar? Eu iria, Danuza! Se te oferecerem, pode aceitar e passar pro meu nome, tá?

E será que mulher ainda precisa de homem pra viver bem e feliz, como ela quer fazer crer? Será que não existe diferença entre comer carne e usar um casaco de pele? Será que a gente precisa se preocupar tanto com as aparências? Será que a gente precisa mesmo ter tantas coisas no armário (jeans desbotado, dois jeans brancos, muitas bolsas, um all star, um blackberry, um ipad etc.)? Será que não dá pra sair com mães e conversar de outra coisa que não sejam seus filhos?

A minha implicância principal é com a ideia errada que o título e as primeiras páginas passam. O livro tem pouco a ver com simplificação, com levar uma vida mais leve (outra passagem em que ele tem a ver com tudo isso é quando ela trata dos saltos altos e da tortura que podem representar). Mais precisamente, ele é um esboço do mundo de hoje, com todos os seus apelos ao consumo, os milhares de gadgets – e as pessoas incapazes de se conectarem com outros seres humanos a não ser por meio dessas telinhas tecnológicas -, a dificuldade que é organizar um jantar em família, as obrigações sociais e os modos de fugirmos delas… A vida atual é, realmente, bem complicada. Se não soubermos administrar nosso tempo e fazer valer nossa vontade, ela nos engole. Danuza admite e trata disso mas, exceto por um ou outro insight, ela parece ter bem pouca vontade de simplificar.

Apesar de tudo isso, o livro vale pelo olhar crítico e pelas boas risadas que proporciona. E, claro, pelas dicas de boa educação – com o uso do celular, por exemplo -, artigo cada vez mais raro.

Trechos

Andei pensando nessa história de simplificar, e vejo que passei a primeira metade da minha vida querendo ter as coisas – todas as coisas – e estou passando a segunda metade querendo me desfazer das coisas, e ficar apenas com o essencial. Bem curiosa, a vida. (p. 16)

E por falar em lição, aí vai outra, de autoria de Ingrid Bergman: “Para ser feliz, é preciso ter uma boa saúde e uma péssima memória.” (p. 34)

Na hora de comprar, esteja segura; na dúvida, não compre, e tendo certeza, ainda assim, duvide. O grande segredo é conhecer seus limites. (p. 35)

Depois da separação, é importante que haja uma quarentena para que os novos solteiros voltem a se mostrar em público, já com seus novos amores. Apenas uma questão de delicadeza. (p. 48)

As famílias gastam uma nota, às vezes acima de suas posses, mas querem tudo a que têm direito, e ouvi falar de um [casamento], recentemente, que custou quinhentos mil, e depois o casal foi morar num apartamento alugado. (p. 53)

Como as mulheres mais elegantes que existiram no mundo – Audrey Hepburn, Jacqueline Kennedy, a duquesa de Windsor – jamais usaram salto altíssimo, sempre salto pequeno, isso me anistia a nunca mais tentar usar salto alto, que faz de mim a mais infeliz das criaturas. (p. 54)

Ao contrário do que se diz, amigos existem na hora em que a vida está péssima. Mas se ficar tudo maravilhoso, prepare-se para momentos de grande solidão. Costuma ser difícil suportar o sucesso dos outros. (p. 65)

Se ligar para o celular de alguém, a primeira coisa que deve perguntar é: “Você pode falar?” (p. 71)

Meus amigos já sabem: quando estão comigo desligam o celular, e se algum esquece, eu reclamo, reclamo mesmo, e até acho que perdi alguns (amigos, não celulares) por isso. E tem alguma coisa pior do que achar que está com uma pessoa, e ela estar conversando com outra? É a maior solidão do mundo, mas tem pior, sim: outro dia eu estava na casa de uma amiga, éramos seis pessoas. Pois acredite: cada uma delas estava com uma maquininha na mão. Uma tuitava, a outra mexia no iPad, outra mandava uma mensagem, e depois soube: tinha um que se comunicava com outro que estava na mesma sala, dá para acreditar? Pois eu estava lá, vi, e me senti mais só do que se estivesse perdida no deserto do Saara. (p. 72)

Está meio na moda achar que é elitismo falar de maneira correta, comer de maneira correta, que é preconceituoso achar que cortar o bife com os dentes é feio. Não é; isso se fazia na Idade da Pedra, mas fomos nos civilizando e aprendemos a conviver mais educadamente. A boa educação não é artigo de luxo, mas de primeira necessidade, e não é preciso ser rico para ser educado. (p. 77)

Palitos, ah, os palitos. Só no banheiro, sozinha, de luz apagada. (p. 82)

Se me oferecessem uma volta ao mundo em hotéis trinta estrelas, tudo de graça, mas que eu não pudesse comprar rigorosamente nada, eu não iria. (p. 103)

Cada vez que eu viajo penso que pode ser a última, então não deixo de fazer nada; e se tiver sido mesmo? E não esqueça a regra de ouro: quanto mais pobre o lugar para onde você vai, melhor deve ser o hotel – e vice-versa. (p. 106)

Passaporte, dinheiro, passagem de volta, cada um fica com os seus, mesmo viajando com o marido, com quem é casada há trinta anos. E se brigarem? (p. 108)

Volte uns quatro dias antes de recomeçar o trabalho, para se refazer das férias. (p. 108)

E tem aquela história de um conhecido banqueiro, fóbico: Ao ser perguntado “Mas o sr. não sente saudades de viajar?”. Ele respondeu: “Meu filho, depois do advento do Google, isso tudo está superado.” (p. 112)

Aos 15 anos muitas delas [das crianças] já conhecem o mundo tudo, mas não sabem de nada; ok, aprenderam a comer escargots, mas isso é pouco, do ponto de vista cultural, mesmo que se esteja falando de cultura gastronômica. (p. 112-113)

Depois dos quarenta, não dá para tomar café da manhã, almoçar e jantar, nem em viagem, nem nunca. (p. 118)

Segundo Chanel, se você tiver até 1,60m de altura, não deve nunca usar saltos altíssimos, porque não adianta; vai continuar pequena, e a perna vai ficar do tamanho do salto, em total desproporção. (p. 135)

Prepare-se para receber dos seus queridos filhos telefonemas do carro – e só do carro -, quando estão indo do trabalho para casa. Do escritório não podem, pois estão muito ocupados, e de casa não podem, para não roubar um minuto do tempo dos cônjuges, que vida. (p. 170)

Pense bem antes de tomar certas decisões, tipo morar sozinha e ser livre, pois todas as decisões implicam riscos. Um deles é você se acostumar, e nunca mais querer morar com ninguém. (p. 179)

Nenhuma mulher, com um mínimo de brio, fica com um homem que não a ame apaixonadamente. (p. 186)

“A humanidade está três drinques atrasada”, disse Humphrey Bogart em 1950, e continuou: “Se Stalin e Truman tomassem três drinques agora, o mundo não precisaria da ONU.” (p. 191)

Ficha

  • Título: É Tudo tão Simples
  • Autor: Danuza Leão
  • Editora: Agir
  • Páginas: 192
  • Cotação: 3 estrelas
  • Encontre É Tudo Tão Simples.

Guacamole

Publicado em 28/03/2012, em comes e bebes, entradas, saladas e guarnições. Tags: , , ,

Detesto abacate doce. Odeio vitamina de abacate, abacate amassado com açúcar e qualquer dessas variações.

Vai daí que demorei anos para dar uma chance à guacamole, essa espécie de antepasto de abacate muito comum no México (onde comê-lo com açúcar é heresia). Quando finalmente me arrisquei, virei fã! Fazer em casa é das coisas mais simples do mundo, rende horrores e faz sucesso em reuniões entre amigos.

Ingredientes

Guacamole

Os ingredientes.

  • 1 abacate maduro
  • 1 tomate maduro, mas firme
  • 1/2 cebola pequena
  • umas duas colheres (sopa) de suco de limão
  • sal a gosto
  • pimenta a gosto

Você também precisará de

  • vasilha grande para misturar tudo
  • vasilha simpática para servir a guacamole

Preparo

Pique a cebola bem miudinho. Tire as sementes do tomate (pode deixar a pele) e pique-o também.

Abra o abacate no sentido do comprimento, jogue fora o caroço e, passando uma colher rente à casca,  retire a polpa. Numa vasilha, amasse com um garfo. Ele deve ficar com pedacinhos, nada de transformá-lo numa papa.

Despeje o suco de limão enquanto amassa. Junte o tomate e a cebola e misture. Acrescente sal e pimenta a gosto.

Sirva com totopos (doritos), torradinhas ou monte uma bela salada com folhas verdes (endívias são ótimas pra isso). Uma cervejinha acompanhando cai muito bem.

Dicas e Complementos

Guacamole

Com torradas.

A guacamole original leva coentro picado. Eu não curto e, quando fiz para fotografar pro post, esqueci de comprar salsinha pra substituir. Ficou uma delícia mesmo assim.

A única dificuldade de fazer guacamole está em encontrar um bom abacate. Prefiro os “de rua”, menores e de casca mais escura, porque a polpa é mais saborosa e resistente, o que evita que a guacamole vire um mingau. Só que, no fim das contas, acabo recorrendo ao abacate de quitanda, mesmo…

Não use azeite na guacamole, o abacate já tem gordura suficiente.

Nem pense em eliminar o limão. Ele é fundamental pro abacate não escurecer em contato com o ar, o que deixaria a guacamole um tanto repulsiva.

Embora seja um prato tipicamente mexicano, a ideia da guacamole não é ser apimentada, mas refrescante. Mesmo assim, acrescentei duas pimentas dedo-de-moça (chili) sem sementes e bem picadinhas à receita. Recomendo.

A guacamole dura uns 3 dias na geladeira, daí pra menos. O ideal é consumir imediatamente.

  • Tempo de preparo: 20 minutos
  • Grau de dificuldade: fácil
  • Rendimento: enorme – uns 400 gramas, o suficiente pra pilhas e pilhas de totopos.

O Rei das Fraudes

Publicado em 26/03/2012, em livros. Tags: , , , ,

O Rei das Fraudes - capaMais um livro “de tribunal” de John Grisham – ou quase. Na verdade, dessa vez é um livro de advogado, mas não de tribunal.

Clay Carter II seguiu a carreira jurídica movido pelo sucesso do pai. Aos 30 anos, contudo, trabalha na Defensoria Pública, ganha pouco, não vê grandes perspectivas profissionais e, para completar, seu namoro vai de mal a pior.

Ao pegar um caso de assassinato, sua sorte muda. Clay é procurado por um sujeito misterioso que lhe apresenta o Tarvan, um medicamento que parece ter sido o responsável pelo crime cometido por seu cliente. A partir daí, Clay adentra o fascinante mundo das indenizações milionárias: processos iniciados contra grandes companhias que lançaram um produto defeituoso no mercado e prejudicaram milhares de pessoas. Os processos representam publicidade negativa para as empresas que, portanto, preferem fechar acordos extrajudiciais – e uma boa porcentagem do dinheiro desses acordos vai para o bolso dos advogados na forma de honorários.

Receoso no início, Clay logo deixa de lado seus pudores e preocupações, motivado pelos milhões de dólares prestes a entrar na sua conta corrente. Sua vida dá um salto. Outros casos aparecem – mais dinheiro relativamente fácil, sem sequer ter de pisar num tribunal.

Claro que esse mar de rosas não dura para sempre, ou não haveria história a ser contada.

Grisham vai fundo no ramo das indenizações coletivas, tão populares nos Estados Unidos (e uma das principais razões para advogados serem tão odiados por lá). Aliás, o título foi mal traduzido: algo como “O Rei dos Danos” ou “O Rei das Indenizações” seria mais apropriado.

Embora não esteja entre os livros mais envolventes do autor,  O Rei das Fraudes consegue prender a atenção e fazer o leitor torcer pelo personagem principal, um anti-herói que até tem boas intenções. Pelo menos, torce para que nada de muito ruim aconteça com ele.

Ficha

  • Título original: The King of Torts
  • Autor: John Grisham
  • Editora: Rocco
  • Páginas: 372
  • Cotação: 3 estrelas
  • Encontre O Rei das Fraudes.

Listas, listas e mais listas.

Publicado em 23/03/2012, em consumo. Tags: , ,

ChecklistNo texto de fevereiro sobre o ano sem comprar, comentei da listinha que estou fazendo das coisas que pretendo comprar ano que vem. A Karla comentou sobre o amor que ela tem por listas e, devo confessar, partilho o sentimento.

Faço listas de tudo:

  • filmes que vi a cada ano
  • livros lidos, também por ano
  • filmes que quero ver
  • livros que quero ler
  • musicais que quero assistir
  • sonhos de consumo
  • posts que quero escrever
  • coisas que quero ver quando visito alguma cidade
  • listas em sites de compra, como Submarino e Amazon
  • listas de listas, como esta
  • etc. etc. etc.

Já fiz lista de roupas que precisava comprar, de resoluções de ano novo (que não faço mais há anos), de coisas para arrumar nos blogs (essa está zerada há muitos meses)… Faço lista de compras de supermercado. Tenho as mais diversas listas publicadas no Dia de Folga. Listo prós e contras para tomar decisões (hábito aprendido com a Rory).

Mantenho a maioria delas no evernote e também jogo lá anotações que sozinhas formam uma lista, como a pasta das receitas que quero testar. Alguns painéis do meu pinterest também funcionam como listas. O Delicious é uma lista de links. Há uma infinidade de serviços online para a criação de listas e já usei alguns deles. Tem também o Wishlistr, o Wishlist.com

Ao contrário do que você possa pensar, não faço tantas listas pensando em aumentar a produtividade, ou só para ser mais organizada. Faço listas porque gosto, porque me dão prazer, porque me divirto ao escrevê-las e ao riscar itens cumpridos. A organização é um bônus.

Semana passada, li uma proposta interessante: listar as coisas que eu não preciso comprar. Às vezes, quando gostamos muito de algum item específico, compramos mais do que damos conta de usar. Já fui assim com itens de papelaria, maquiagem, livros, chás… Desde 2010, estou bem controlada – e mais ainda agora, com o ano sem compras.

Você pode aproveitar a ideia: passe por cada cômodo da sua casa, abra das gavetas e armários e descubra quais são as coisa que você não precisa comprar. Talvez você tenha um estoque enorme de hidratantes ou sabonetes, talvez tenha mais tipos de macarrão do que dará conta de comer nos próximos meses, ou a quantidade de camisas brancas no armário seja excessiva. Vá reparando e preenchendo sua lista das não-necessidades. Esse é um exercício bem interessante para ver pra onde estão indo o dinheiro e o espaço da casa.

Você também gosta de listas? Tem o hábito de fazê-las? Como as anota? Caderninho, agenda, serviços online?

Imagem: Fanginhoon, royalty free.

Lu MonteA autora mora em Brasília e atende por Lu (de Luciana). Ou Lu Monte, já que há um monte de Lus. Mais?

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