Renato Russo no MIS

Adolescentes costumam ter um monte de ídolos, com os correspondentes pôsteres no quarto. Bem, eu tinha pôsteres de Star Trek e queria ser como o Spock quando crescesse. Não exatamente uma adolescente típica.

Apesar disso, eu tinha uma ou outra banda favorita. A partir dos 14 anos, uma se destacou: a Legião Urbana. Dois anos depois, morria Renato Russo. Nunca tinha chorado pela morte de famosos (não, nem pelo Ayrton Senna), mas dessa vez chorei. Renato nunca chegou a ser meu ídolo – felizmente, porque ele odiava receber esse título -, mas sempre me pareceu um artista admirável e várias das suas músicas marcaram momentos da minha vida, ao longo de anos e décadas.

Vai daí que não podia deixar passar a exposição do Renato Russo no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, muito embora já tivesse visto uma exposição excelente no CCBB de Brasília em 2004 (putz, já faz tanto tempo assim?).

A exposição do MIS tem muita coisa em comum com a do CCBB na década passada (ainda estou em choque), mas é maior e mais diversificada. Começa traçando um cenário do Renato criança e adolescente, os boletins, as mudanças de escola e de país, as bandas fictícias – com direito a entrevistas e discografia, tudo minuciosamente anotado em cadernos -, até enfim ter sua primeira banda, o Aborto Elétrico. Também fala da fase do Trovador Solitário, mas o maior enfoque está mesmo no período da Legião. Dentre as centenas de materiais, os que me parecem mais interessantes são os rascunhos de letras que se tornaram hinos. É interessante ver o processo criativo, as primeiras versões, a evolução das letras e como alguns pedaços iam parar em outras canções.

Renato Russo no MIS
Bata usada em shows.

Há vários objetos pessoais, vindos diretamente do apartamento de Renato, na Rua Nascimento Silva, 378, Ipanema. Aliás, a exposição aconteceu porque seu filho, Giuliano Manfredini, viu uma sobre David Bowie no mesmo museu, procurou a organização e propôs uma semelhante sobre o Renato. No processo, franqueou acesso ao apartamento em que Renato passou seus últimos seis anos de vida. Dali vieram objetos de decoração, diários, cartas e tantas outras coisas. Segundo André Sturm, curador da exposição, foram mais de três mil itens transplantados para o MIS. A exposição exibe mil deles, como, por exemplo, algumas camisetas do artista:

Renato Russo no MIS Renato Russo no MIS

A organização da mostra é aparentemente caótica (embora tenha certa lógica interna), talvez numa tentativa de reverberar o pensamento não-linear do retratado. Canções seguem o visitante por todo o percurso. Já ao final, uma grande parede coberta de cartas de fãs, algumas tocantes. A última sala guarda um vídeo em realidade virtual com uma apresentação contemporânea de Tempo Perdido.

Renato Russo no MIS
Planejamento do disco As Quatro Estações.

Dentre as diferenças para a exposição de Brasília está o espaço dado a um dos períodos mais turbulentos da vida de Renato, em 1993, quando ele percebeu que não tinha controle sobre o consumo de álcool e drogas e se internou. Os diários que manteve na época trazem passagens emocionantes. A solidão, a baixa autoestima e o medo do fracasso sempre acompanharam o astro, destoando do seu sucesso público e contrastando com os milhares de fãs que lotavam shows, garantiam as altas vendagens dos discos e professavam seu amor por Renato.

A exposição estreou em setembro de 2017 e fica no MIS até 28 de janeiro de 2018. A entrada custa 30 reais (inteira) e é vendido pelo site Ingresso Rápido (mediante abusiva “taxa de conveniência”) ou diretamente na bilheteria. Pelo site, é possível agendar o horário da visitação.

Vale a visita para os que conhecem pouco ou muito do líder da Legião, banda que indiscutivelmente marcou uma geração e escreveu páginas importantes da história do rock brasileiro.

Serviço

Um ano de Low Carb.

Comento sobre a dieta low carb no twitter com uma certa frequência, e de vez em quando alguém vem me perguntar mais a respeito. Agora que já sigo esse estilo de alimentação há pouco mais de um ano, posso aprofundar um pouquinho o assunto.

Atenção: não tenho formação na área de saúde. O texto que segue deriva das minhas leituras e da minha experiência. Consulte seu médico ou nutricionista (mas escolha um profissional que não se contente com o que diz o senso comum, ou com estudo ultrapassados e sem rigor científico).

O que é a Low Carb?

É comum que a low carb seja confundida com a dieta paleolítica,com a do Dr. Atkins ou com a dieta cetogênica. Embora elas tenham semelhanças e alguns princípios nutricionais em comum, são todas diferentes entre si.

A low carb ganhou projeção nos Estados Unidos com o livro Por que engordamos e o que fazer para evitarEm síntese, o autor relata como os americanos têm sido manipulados pela indústria alimentícia desde os anos 60, graças à propaganda que foca em calorias, demoniza as gorduras e incentiva o consumo de carboidratos de baixa qualidade (muito rentáveis para essa mesma indústria). As orientações nutricionais norte-americanas pregam uma pirâmide alimentar cuja base é composta de carboidratos e o topo permite umas gotinhas de azeite. O bacon, a manteiga e os ovos viraram inimigos mortais. O americano nunca consumiu tantos produtos (industrializados, claro) light.

Apesar disso, os americanos nunca estiveram tão gordos.

Sim, o livro trata da realidade dos Estados Unidos, mas aplica-se perfeitamente à realidade brasileira. Afinal, também aqui seguimos a malfadada pirâmide alimentar. Também no Brasil a indústria de produtos light cresce a cada ano, junto com os índices de obesidade. Também recebemos, ao longo de décadas, uma série de informações sobre alimentação que, para dizer o mínimo, são imprecisas, e chegam até a ser fraudulentas.

Então, se a obesidade só aumenta, apesar de comermos cada vez menos gordura… talvez o problema não esteja nas gorduras, não é? Talvez o problema esteja, quem sabe, nas comidas empacotadas, processadas, industrializadas, semi-mastigadas.

Nos últimos anos, aliás, bacon, manteiga e ovos têm sido lentamente redimidos. Por outro lado, cada vez mais gente critica o fast food e a indústria de alimentos processados. Cada vez mais gente fala em favor da comida de verdade.

Pois bem. Adotar um estilo de alimentação low carb nada mais é que comer comida de verdade. Comida sem aditivos, sem conservantes, sem ingredientes com nomes tão esquisitos que mal são pronunciáveis. Comida sem rótulos.

Numa abordagem um pouco mais detalhada, significa cortar o açúcar em todas as suas inúmeras variações. No fim das contas, “carboidrato” nada mais é que outra palavra para açúcar. Produtos ricos em amido (como a batata) viram açúcar. Farinha de trigo vira açúcar. Molhos prontos e comidas congeladas estão cheios de açúcar, mesmo sendo salgado o sabor. Leite é rico em lactose, ou seja, açúcar. Sucos de frutas, por mais “naturais” que sejam, têm colheradas de frutose, que é apenas outro tipo de açúcar. As próprias frutas in natura são riquíssimas em frutose, graças a décadas de manipulação genética de modo a selecionar as variedades mais doces, e deveriam ser consumidas como uma guloseima esporádica, não com a abundância que se prega. (Todos os micronutrientes das frutas podem ser encontrados em vegetais pobres em frutose.)

Outra coisa que a low carb elimina é o óleo de soja/canola/girassol/algodão/amendoim/whatever. Pesquisas indicam que óleos extraídos de semente aumentam o risco de doenças cardíacas (e certamente aumentam o diâmetro da cintura). Margarina também fica de fora.

“Mas o que sobra pra comer?”, você me pergunta, já em pânico.

Olha, sobra coisa pra caramba: todas as carnes, a maioria dos produtos de origem vegetal, cogumelos, queijos (quanto mais amarelos, menos lactose têm), iogurtes (feitos em casa), creme de leite, ovos, azeite de oliva, banha de porco (sim!), bacon (sim!!), chocolate amargo (70% cacau no mínimo, de preferência mais), frutas vermelhas, abacate, limão, vinho, bebidas destiladas… ufa.

Dá uma olhada em algumas refeições que fiz recentemente:

Alimentação low carb. Alimentação low carb. Alimentação low carb. Alimentação low carb.

O que a Low Carb NÃO é?

low carb não é um salvo-conduto pra se entupir de gorduras. A ideia principal da low carb é que você não precisa temer a gordura natural dos alimentos. Não precisa tirar a pele do frango, não precisa ter medo da picanha de fim-de-semana, pode comer a gema do ovo. Você também pode adicionar gorduras aos alimentos, com moderação, de modo a suprir as necessidades energéticas do seu corpo. Isso não significa comer pilhas de bacon todos os dias (mas bacon de vez em quanto pode, sim!).

low carb não é “modinha”. Embora seja chamada de dieta, essa palavra deveria ser entendida não como uma privação temporária de certos alimentos, mas como um conjunto de novos hábitos alimentares, mais saudáveis e sustentáveis a longo prazo. A low carb reverte/controla tantos problemas de saúde – indo muito além do peso – e proporciona uma qualidade alimentar tão boa que é recomendável como estilo de vida. Sim, pra sempre.

É verdade que a perda de peso é impressionante no início da mudança de hábitos, o que faz a low carb queridinha de muita gente atualmente. Mas retomar os péssimos hábitos anteriores levará – adivinha? – a recuperar tudo que foi perdido.

Mas então, que vantagem a low carb leva?

Por que aderir à low carb e não a qualquer outra dieta?

Simples: porque na low carb você não passa fome. Você come alimentos nutricionalmente ricos e, além de tudo, saborosos. Nada de pão de forma diet, nada de requeijão light sem gosto, nada de leite desnatado aguado, nada de barrinha de cereal de 20 gramas entre as refeições, que não mata a fome causada pelo almoço insosso e não sustenta até o jantar sem graça.

Além disso, você não precisa contar calorias. No início da nova rotina, recomenda-se “contar” carboidratos, mas rapidinho você aprende a identificar o que é rico ou não em carboidratos.

Você também não precisa comer de três em três horas. Como você passará a comer comida de verdade, seu corpo se manterá saciado por horas e horas. Quanto mais tempo você seguir a low carb, mais tempo poderá ficar sem comer, porque seu corpo aprenderá a transformar gordura em energia. Quando a fome finalmente chegar, não virá com aquela sensação de fraqueza e mente enevoada, mas como um alerta saudável de que é hora de comer de novo. Sem desespero.

“Mas quem come na rua não consegue fazer low carb.” Caro que consegue. Basta aproveitar as saladas, legumes, e carnes do self service. A maioria também tem algum ovo, e às vezes até rola um queijo na chapa.

“Mas eu vou deixar de ter vida social.” Todo boteco tem porção de queijo, de carne ou de frango a passarinho. Todo restaurante tem um prato de carne com legumes. Das fotos acima, a última foi feita em um restaurante. Cerveja não pode, mas vinho e vodca sim. Você provavelmente passará a beber menos e beber melhor.

Desvantagens da low carb

low carb não é a coisa mais barata do mundo, mas não é tão cara quanto parece. Barato mesmo é comida industrializada – e só isso já deveria indicar claramente que sua qualidade é péssima, que um nugget congelado tem “pedaços de aves” que incluem até bico, que molho de tomate enlatado inclui pelo de rato (além de muito açúcar).

Se você deixa de comer carboidratos, obviamente precisará colocar algo no lugar: gorduras e proteínas. Ou seja, carne, que pode ser cara. Mas nem tudo está perdido: o brasileiro esquece que cortes de segunda são muito saudáveis e saborosos, basta prepará-los corretamente. Porco e frango são mais baratos que carne vermelha. A coxa do frango é mais barata e nutritiva que o peito sem pele. Além de tudo isso, você comerá menos porque não viverá com fome, então no fim das contas provavelmente não gastará tanto quanto está imaginando.

Farinhas de amêndoas, berinjela, frango, caju etc. etc. etc. são caras mesmo. Use-as para fazer receitas especiais. Não tente substituir o pãozinho francês; aprenda a viver sem ele. Juro que é possível. Palavra de quem passou um ano comendo o maravilhoso pão na chapa paulistano quase todos os dias, engordou pra caramba e parou de uma hora pra outra.

“Eu nunca mais vou comer um pãozinho francês?”. Vai, sim. Mas vai aprender a comer pão (e risoto, pizza, doces, massas, batata frita etc.) de vez em quando, sem fazer disso a base da sua alimentação diária. É uma mudança de hábitos.

É difícil seguir a low carb sendo vegetariano, mas não é impossível e há blogs por aí que abordam o tema. É basicamente impossível sendo vegano, a não ser que você apele pra muita, muita suplementação (algo que parece não incomodar os veganos em geral). Nesse caso, quem sai ganhando é a indústria farmacêutica.

Minha experiência com a low carb

As primeiras duas semanas foram horríveis, não vou mentir. O corpo demora a aceitar que não terá mais carboidratos e que precisará aprender a usar gordura como fonte de energia, como fazia antes que a sociedade moderna começasse a se entupir de açúcar em suas mais diversas formas.

Eu sonhava com pão na chapa. Sério.

Dá fraqueza, cansaço. É um saco. Parece gripe (em inglês, fala-se da keto flu, ou low carb flu).

Mas passa. Eu garanto. Em alguns casos, passa em três ou quatro dias. Pra mim levou duas semanas, pode levar até um mês.

Quando a “gripe” passa, chegam as vantagens: energia de sobra, falta de fome, raciocínio claro, sono profundo, exames de sangue melhores.

Quanto ao emagrecimento, perdi cerca de 20% do meu peso em menos de um ano. Como não parei de praticar exercícios, ganhei massa muscular, o que quer dizer uma perda de gordura maior do que a balança indica. No começo, perdia um quilo por semana. Depois, a perda se tornou mais lenta, mas contínua. Acredito que já atingi o peso definitivo.

Fiz dois exames de sangue nesse período, ambos lindos. No últimos anos, os triglicerídeos vinham subindo lentamente; agora estão num patamar baixo, longe do teto, o que é um ótimo sinal.

Nos dois primeiros meses, basicamente zerei açúcares. Depois, voltei ao chocolate (quase sempre amargo), ao starbucks, aos sorvetes. Sempre com moderação, nunca todos os dias. Não passei fome em momento algum. Passei vontade, sim, e ainda passo às vezes (quem nunca?), mas cada vez menos. Aprendi a comer outros cortes de carne, outros vegetais, passei a cozinhar mais. Nunca tive uma alimentação tão saudável e nunca me senti tão bem.

Para aprofundar o tema

Descobri a low carb quando pesquisava por alimentação saudável na internet. Claro que pensei que era mais uma dieta maluca, mas li o primeiro texto, o segundo… aí, seguindo meu padrão ligeiramente obsessivo quando me deparo com alguma novidade, passei três semanas lendo tudo que encontrava pela frente. Só depois me convenci e comecei a experimentar em mim (se bem me lembro, em 26 de setembro de 2016), e não parei de ler sobre o assunto.

Leituras que recomendo (nessa ordem):

Ciência Low Carb: quem escreve é o Dr. Souto, grande responsável pela difusão da low carb no Brasil. Trata-se de um médico que descobriu a dieta, testou nele mesmo e desde então (já se vão uns sete anos, acho) desmistifica o senso comum sobre alimentação e, com forte base científica, divulga a low carb. Li o blog inteirinho dele e recomendo, mas você pode se contentar com os posts linkados na barra lateral, fundamentais para entender a low carb.

Por que engordamos e o que fazer para evitar: o livro que inspirou o Dr. Souto a começar o blog. Não é um livro pedante ou difícil, não é grande, é possível ler em poucos dias. Simplifica a ciência por trás da low carb e desacredita as fraudes da indústria alimentícia. Leitura obrigatória para quem se interessa por nutrição.

Paleo Diário: muita informação sobre a low carb, mas o que considero mais interessante no blog são os textos de especialistas traduzidos.

Nutri das Panelas: receitas low carb simples e gostosas, por uma nutricionista.

Senhor Tanquinho: receitas low carb e explicações em linguagem bastante acessível sobre a low carb e outras dietas com restrição de carboidratos.

Fat Secret: site/app muito útil no início do novo estilo de alimentação, porque ajuda a controlar a proporção diária de carboidratos, gorduras e proteínas.

Cartagena das Índias

Fui a Cartagena em junho de 2016, numa viagem combinada com Bogotá. Cartagena é quinta maior cidade da Colômbia, mas nem parece, já que os turistas ficam “confinados” à região da cidade amuralhada – e isso não é ruim. A cidade é mais famosa por suas praias – e isso, sim, é ruim. As praias de Cartagena não são grande coisa e nem parece que você está no Caribe. O Nordeste brasileiro tem dezenas de praias infinitamente mais bonitas. Isso me decepcionou um pouco, mas encontrei outros atrativos na cidade e, de modo geral, recomendo a visita.

O que vale mesmo a pena em Cartagena são a arquitetura peculiar e a história da cidade, que foi sede do governo espanhol nas Américas durante o período colonial. Em 1984, o centro histórico (também chamado de cidade antiga ou cidade amuralhada/fortificada/murada) foi declarado patrimônio mundial pela Unesco.

Anoitecer em Cartagena.
Ruas charmosas e balcões floridos compõem Cartagena.

No frigir dos ovos, Cartagena me lembrou demais Salvador, com suas qualidades e defeitos.

Vamos aos detalhes.

Hospedagem

Não queria pagar o preço que os hotéis da cidade amuralhada cobram, então fiquei a uns dez minutos de caminhada, no bairro de Getsemaní. Acabou sendo uma ótima escolha para evitar o barulho da parte mais turística da cidade.

Fiquei no Zana, supostamente um hotel “boutique”. Na prática, era pouco mais que uma pousada e decepcionou. O quarto era minúsculo (para duas pessoas seria claustrofóbico, já que sequer tinha janela), a anunciada piscina é pouco mais que uma banheira grande e o chuveiro estava queimado, permanecendo assim todos os dias em que lá estive. O conserto estava marcado para dois dias depois da minha partida. Tudo bem que Cartagena é muito quente, mas mesmo assim não acho nada agradável tomar banho gelado logo ao acordar.

Por outro lado, o café da manhã era gostoso (servido em porções individuais, como costuma ser na América do Sul, não ao estilo continental) e a dona do hotel era muito prestativa, dando várias informações e reservando um táxi para a minha partida, no meio da madrugada (Só não foi prestativa para consertar o chuveiro, né.) O ar condicionado do quarto era excelente e a cama era ótima. Roupas de cama muito boas (mas toalhas muito ruins).

Café da manhã no Zana Hotel. (com fisális!) Café da manhã no Zana Hotel.

Tecnicamente, pode-se dizer (e o hotel diz) que Getsemaní está dentro da cidade amuralhada, porque há duas muralhas: uma interna (contramuralha), que a cidade antiga e a região turística por excelência, e outra externa, da qual sobram apenas poucos trechos. Getsemaní está entre as duas. É um bairro considerado boêmio, embora apenas algumas ruas o sejam (eu estava nessa área). O bairro é grande e a maioria dele é suja, pobre e pouco amigável. Getsemaní era a região onde viviam os pobres e miseráveis na era colonial, enquanto na cidade antiga vivia a elite.

Arte de rua no bairro Getsemaní.
Arte de rua no bairro Getsemaní.

Dito tudo isso, eu ficaria lá de novo, com as expectativas devidamente reduzidas. O Zana estava em reforma exatamente durante a minha estada, então talvez tenha melhorado. Ah, quase me esqueço: peça um quarto nos fundos se quiser mais silêncio.

Portal de las Reinas
Numa calçada na cidade antiga, as fotos das Misses Colômbia.

Onde comer

A gastronomia de Cartagena é para todos os gostos e todos os bolsos. O atendimento é sofrível na maioria dos lugares (eis uma das razões pelas quais a cidade me lembrou Salvador), mas há honrosas exceções.

Logo na primeira caminhada, descobri o Stefano’s Bistrô (Calle 31, em frente ao Parque Centenario que, por sua vez, fica em frente à Torre del Reloj, marco da entrada para a cidade antiga). Um achado! Preço justo, atendimento impecável, comida excelente, wifi e, maravilha das maravilhas, ar condicionado no talo. Comi camarões excelentes com arroz de coco e patacones. Patacones são plátanos (um tipo de banana comum por lá, muito semelhante à banana-da-terra, próprio para fritar) fritos e arroz de coco é… arroz feito com coco. É típico de Cartagena e uma das formas mais deliciosas de comer arroz. Em outra visita, comi tres leches, sobremesa típica dos nossos hermanos sulamericanos (não é exclusividade da Colômbia). Estava ótimo. O café preto, excelente.

Camarões, arroz de coco, patacones e guacamole, Stefano's Bistrô. Stefano's Bistrô

Um lugar badaladinho por lá é a Casa de la Cerveza, sobre a muralha externa. O espaço é enorme e quase todo ao ar livre. A brisa ajuda a aliviar o calor. As cervejas (na verdade, chopes) são muito boas, mas peça o copo pequeno pra não esquentar. A comida é razoável, o preço é caro e o atendimento é passável. Lugar bacana para encerrar o dia com petiscos e bebidas, mas não para jantar.

Casa de la Cerveza, sobre a muralha externa.
A Cartagena contemporânea ao fundo.

Outra dica fora da cidade antiga é a Laguna Azul, na entrada do Centro Comercial Getsemaní. O lugar é pouco mais que um boteco e a má vontade com turistas é flagrante (acabei ajudando uns holandeses que não falavam espanhol e eram solenemente ignorados). As mesmas pessoas que preparam a comida atendem as (poucas) mesas. O lugar tem horários de funcionamento aleatórios. Dito tudo isso, serve o melhor ceviche que já comi na vida, e por um preço excelente. Não é um lugar turístico (o que explica a má vontade), foi uma dica da dona da pousada e olha, que dica! Comi lá três ou quatro vezes. Dica: o boteco não tem banheiro, mas dentro do centro comercial há banheiros muito limpos (paga-se 700 pesos colombianos, uns 80 centavos de real).

Ceviche no Laguna Azul.
Ceviche no Laguna Azul.

A maioria dos bons restaurantes está dentro da cidade antiga.

Na cidade amuralhada, recomendo o El Baron Café, com chopes da BBC, excelente cervejaria artesanal colombiana. Comi uma entrada de champignon com crisp de presunto que não estava boa. O atendimento é bacana e o preço é puxado, mas vale pelo lugar muito agradável (tem wifi).

Falando em cervejas, por lá se vende uma chamada Club Colômbia, bem melhor que as brahmas daqui. A roja (vermelha) é bastante amarga, a rubia (loira) é mais leve (e a rubia long neck é mais leve que a mesma cerveja em lata).

Provavelmente o lugar que mais visitei em Cartagena foi a Gelateria Tramonti, com sorvetes artesanais (há outras sorveterias ditas artesanais pela cidade, mas essa é a única que recomendo). Preço justo por um sorvete de qualidade e matador no calor eterno da cidade. Todos os sabores são ótimos, mas recomendo especialmente o de breva (figo) por ser inusitado.

Há uma franquia da Crepes & Waffles (rede  de fast food onipresente em Bogotá) na cidade antiga. Opção para um lanche rápido e barato. Sem wifi.

Finalmente, o restaurante caro da vez. Em toda viagem tento fazer ao menos uma refeição mais elaborada, e o escolhido da vez foi o restaurante El Santísimo. Optei por um “pacote” de 145.000 pesos colombianos (algo em torno de 150 reais) que inclui entrada, prato principal e sobremesa, além de duas horas de bebidas. Nem todas as bebidas do cardápio estão disponíveis nesse menu especial, mas havia um bom Álamo Chardonnay, que foi a minha escolha. A entrada foi um carpaccio de polvo, o plato fuerte foi Salmon Vikingo (salmão assado com molho de mostarda, cebola caramelizada, aspargos e batatas rústicas) e a sobremesa foi La Lujuria (todas têm nomes de pecados capitais), um crepe de café com sorvete de creme e licor de menta. Tudo delicioso. O menu ainda incluiu água à vontade, café (excelente, como se espera na Colômbia) e licor (Bailey’s com gelo foi minha escolha). O restaurante é grande, com um visual elegante (não chega a ser sofisticado), e o atendimento foi primoroso, levando-me até a tomar mais vinho que o planejado. Recomendo muitíssimo.

Salmon Vikingo, Restaurante El Santísimo. Restaurante El Santísimo.

Não recomendo:

  • o badalado Café del Mar – caro e com atendimento sofrível, o que caiu muito bem, porque me levantei e fui embora. Fica sobre a muralha e é o “point” para assistir ao belo pôr-do-sol da cidade. Assista ao pôr-do-sol por ali, aproveite a música que o bar coloca para completar o momento, e vá embora.
  • La Cocina de Pepita, no Getsemaní. Super famoso, barato, comida supostamente boa, mas sempre lotado. Fiquei 20 minutos esperando mesa, vagaram duas ao mesmo tempo e o garçom queria me colocar numa minúscula, quase na porta e que estava vaga desde o início (fui embora, claro).

Queria ter ido ao Mar de las Antillas, no Getsemaní, que me foi muito bem recomendado, mas não tinha mesas disponíveis na área climatizada e não quis esperar.

Pôr-do-sol sobre a muralha externa, ao lado do Café del Mar.
Pôr-do-sol sobre a muralha externa, ao lado do Café del Mar.

Meios de transporte

A área turística é pequena e faz-se tudo a pé. Não vale a pena alugar carro ou andar de táxi pela cidade antiga – as ruas são apertadas e os pedestres têm preferência. Usei táxi apenas do aeroporto pro hotel e do hotel pro aeroporto.

Torre del Reloj. Bastante iluminada nesse dia por causa de um show na frente dela.
Torre del Reloj, a entrada para a cidade antiga. Mais iluminada que o normal nesse dia por causa de um evento.

Ao chegar no aeroporto de Cartagena, dirija-se ao guichê e diga para onde quer ir. Você saberá quanto terá que pagar ao taxista. Tenha dinheiro trocado, ou ele dirá que não tem troco e a corrida ficará um pouco mais cara.

Do aeroporto ao Getsemaní paguei 13.000 pesos colombianos; dará mais ou menos o mesmo até a cidade antiga. Na volta, foram 15.000, o que se justifica porque eram quatro da manhã. A dona do hotel contratou o táxi antecipadamente para que eu não corresse o risco de não encontrar nenhum.

Quanto tempo ficar

Quatro noites são suficientes. Eu fiquei seis e foi tempo demais, especialmente porque não curto praia.

Cartagena à noite.
Cartagena à noite.

O que fazer

Meus dias em Cartagena se passaram entre museus e caminhadas pela cidade antiga. É muito fácil perder-se e achar-se pelas ruas estreitas, e muito gostoso caminhar a esmo, admirando a arquitetura. Como o calor é intenso, deixava essas caminhadas para o fim da tarde (a noite é agitadíssima por lá e as lojas ficam abertas até pelo menos dez da noite – a maioria vai além desse horário).

Claustro de la Merced. O busto guarda as cinzas de Gabriel García Marquez desde maio de 2016.
Claustro de la Merced. O busto guarda as cinzas de Gabriel García Marquez desde maio de 2016.

Além disso, há as praias, claro, mas, como eu disse lá em cima, me decepcionaram.

Lá vai a lista de passeios que fiz.

Free Walking Tour

Busco free walking tours em toda cidade pra onde viajo desde que os descobri. Nada mais são que um passeio a pé (que varia entre uma hora e meia a três horas, dependendo da cidade) com um guia local e “gratuito” – o pagamento pelo trabalho fica a critério do turista. É aceitável qualquer coisa entre 5 e 10 dólares (independentemente da moeda local). Caminhar é a melhor forma de conhecer qualquer cidade, e com um guia local a experiência é muito rica.

Ricardo Carmona.
Uma das várias esculturas de Ricardo Carmona.

O passeio pela cidade antiga dura quase duas horas, durante as quais aprende-se sobre a formação da cidade que veio a se tornar o maior entreposto de escravos das Américas. Sendo uma cidade riquíssima, atraiu inúmeros piratas franceses e ingleses, e para afastá-los foram construídas a muralha externa e a interna (contramuralha). Depois da construção das muralhas, os ataques passaram a ser em mar aberto, a fim de tentar capturar os navios que transportavam pedras preciosas, ouro e escravos. Há inúmeros naufrágios na região, com destaque para o Galeão San José, afundado em 1708, hoje um sítio arqueológico e patrimonial. Estima-se que esse galeão abriga um tesouro de milhões e milhões de dólares.

O guia falou sobre as aldravas que adornam as portas das construções na cidade antiga, cada decoração simbolizando uma determinada elite (religiosa, militar, marinha mercante). Também contou sobre a Índia Catalina, que aprendeu os costumes espanhóis e tornou-se uma espécie de “pocahontas” e falou de Pedro Claver, jesuíta, o único religioso que cuidava dos negros feridos, canonizado por Leão XIII. Contou, ainda, dos autos de fé da época da Inquisição, e deu uma miríade de outras informações.

Botero na cidade antiga.
Botero na cidade antiga.

O site com horários e ponto de encontro é freetourcartagena.com.co. Recomendo e, se possível, faça logo no primeiro dia, para aprender logo a se localizar na cidade antiga.

Praia

Cartagena é uma cidade portuária, logo as praias ao redor da cidade são feias. É necessário afastar-se um pouco para chegar a praias razoáveis. Digo “razoáveis” porque, como deixei claro no início, elas são bem fraquinhas.

O passeio mais comum – e barato – é para Playa Blanca, uma praia pública à qual se chega de barco (45.000 pesos) ou ônibus (30.000 pesos). Problema: vendedores ambulantes assediam os turistas o tempo todo, é impossível ter um minuto de paz.

Sabendo disso, descartei o passeio e optei pela Isla del Ecanto, uma das praias privadas. Chega-se de lancha rápida e a viagem dura uma hora. Dica: vá na frente para se molhar menos e evitar o barulho do motor (mas na frente há mais impacto quando se chega ao mar aberto).

A Isla del Encanto é de propriedade de um hotel. Os turistas de Cartagena ficam com a “praia dos fundos”. A areia é branca e a água é uma delícia, quentinha, mas há pouco espaço para nadar, demarcado por bóias para evitar acidentes com embarcações. O passeio inclui um almoço simples, mas gostoso (pontos extras para o arroz de coco). O bar vende drinks ótimos a 22.000 pesos (mais 8% de impostos e 10% de serviço), o lugar em que vi drinks mais baratos na Colômbia. Os visitantes podem contar com camas deliciosas para espreguiçar em frente ao mar. Podem pagar por serviços de spa e mergulho com cilindro. Importante: cartões não são aceitos! Leve dinheiro (pesos colombianos – dólares também não são aceitos).

Isla del Encanto
Camas para relaxar com um bom mojito por perto.

A saída para Isla del Encanto é às nove da manhã e o retorno é às três da tarde. Os passeios saem do muelle (pier) à direita da Torre del Reloj (uns dez minutos de caminhada). É bom comprar com antecedência. Todos os passeios são vendidos em lojinhas no muelle e o preço entre uma e outra não varia muito.

Museus

Museo Histórico: pequeno, mas interessante. Foca na história da Inquisição em Cartagena, que não foi bolinho. Nos vários autos de fé ali realizados, ninguém foi absolvido e cinco foram condenados à morte por fogo. Na entrada do museu, oferecem-se áudio-guia e pessoa-guia, ambos desnecessários. Não lembro o valor do ingresso, mas foi barato.

Museo Naval del Caribe: museologia antiquada, com muito texto e poucos dioramas interessantes. Não guarda peças antigas. Seria bem sem graça, se não fosse por ter uma réplica de submarino no andar de cima, com luzes, sons, painéis, cadeiras, tudo em escala! Fiquei como criança lá dentro. Vale a visita pelo submarino. Ingresso: 8.000 pesos.

Submarino do Museu Naval do Caribe.
Réplica de submarino no Museu Naval do Caribe.

Museo de Arte Moderno: caro pelo pouco que oferece (8.000 pesos), mas eu tinha tempo e havia uma exposição bacana com desenhos que ilustravam passagens de Cem Anos de Solidão. Também havia obras bonitas de artistas colombianos, com destaque para as de Cecilia Porras e Enrique Grao.

Castillo de San Felipe de Barajas: nesse vale a pena contratar um guia, porque não há explicações escritas e alguns lugares só podem ser visitados com guia, particularmente os túneis onde dormiam os guardas do forte. Um desses túneis tem 120 metros de comprimento e 27 metros de profundidade. É muito bacana entrar nos túneis, mas nada recomendado a quem tenha claustrofobia. O castillo fica na muralha externa e tem sete baterias, cada qual construída numa época. A entrada é 25.000 pesos e a companhia do guia custa 10.000 pesos. É um passeio caro, mas achei que valeu a pena.

Castillo de San Felipe de Barajas
Castillo de San Felipe de Barajas.

Dicas Finais

Sendo uma cidade muito turística, Cartagena é obviamente mais cara que Bogotá, e o câmbio é pior. Se puder, troque seus dólares (não reais, nunca reais, que têm uma cotação muito ruim) em Bogotá, que até no aeroporto terá cotação melhor que em Cartagena. Quando fui, o câmbio no aeroporto de Bogotá era 1 dólar por 2.810 pesos. Em Cartagena, 1 por 2.800. Em Bogotá, oscilava entre 2.830 e 2.870.

Os preços nos cardápios dos restaurantes não incluem 8% de impostos. A taxa de serviço recomendada é de 10%.

Não sei se uber e outros aplicativos funcionam em Cartagena porque andei a pé o tempo todo. Em Bogotá, uber era proibido em 2016 e o motorista flagrado tinha o carro guinchado.

Artesanato é mais barato em Bogotá que em Cartagena (mas a diferença não é tão grande). Exceto as esmeraldas. Há uma infinidade de lojas que vendem brincos, colares, anéis etc. com esmeraldas, por um leque de preços igualmente infinitos. Comprei um par de brincos numa loja chamada Arteralda, que não tem cara de joalheria, tem preços bacanas e oferece certificado de autenticidade. Endereço: #32-12 Local 3. E sim, os endereços são bizarros na Colômbia, mas você pega logo o jeito. Basicamente, a lojinha fica entre os números 12 e 32 da Rua 3.

Fim de tarde em Cartagena.
Fim de tarde em Cartagena.

Flores para os Refugiados

Semana passada, ouvi na CBN a história de Kety e Gabriela. Mãe e filha passaram 45 dias na Grécia, ajudando na recepção dos refugiados que chegam às centenas todos os dias à ilha de Lesbos. Ambas voltaram ao Brasil, mas Gabriela, com apenas 16 anos, decidiu retornar à Grécia e continuar o trabalho como voluntária. Para possibilitar a viagem e a manutenção da filha, Kety abandonou seu trabalho como jornalista e começou a fazer e vender arranjos de flores. Nasceu aí o projeto Flores para os Refugiados.

Flores para os Refugiados

Ontem, na feira de arte e artesanato de refugiados que aconteceu no Shopping Center 3 tive o prazer de conhecer Kety e sua irmã, Karim. A mãe delas, avó de Gabriela, também ajuda no projeto. A decisão da menina mudou a vida da família e está tornado menos pesada as vidas de crianças, jovens, homens e mulheres que chegam à Grécia na esperança de sobreviver.

A guerra na Síria acaba de completar seis anos e tem como resultado uma das maiores crises humanitárias já vistas. Mais de quatro milhões de sírios são refugiados e outros seis milhões são deslocados internos, gente que teve que abandonar seus lares e buscar abrigo em casas de parentes ou nos campos que bordeiam a fronteira com a Turquia. Somados, correspondem a metade da população da Síria.

A Grécia é a porta de entrada para os refugiados que chegam por mar. Centenas de voluntários estrangeiros atuam na recepção dessas pessoas. Organismos internacionais também estão presentes.

A venda dos arranjos permite que Gabriela continue a ajudar os refugiados. 40% do preço cobre os custos de produção, e o restante mantém Gabriela. O arranjo da foto custou 30 reais. Há também a venda de flores por quilo. Você pode acompanhar a página Flores para os refugiados no facebook para saber onde comprá-las e pra conhecer melhor o projeto.