Coisas Boas de Maio

Livro favorito: a duologia Dreamblood, da deusa N. K. Jemisin (infelizmente sem tradução para o português). Dica da @soterradaporlivros. Fiz resenha no instagram.

Filme favorito: Coringa (sim, só vi agora). Atuação primorosa de Joaquin Phoenix,. Edição excelente, conferindo ao filme um ritmo que permite absorver a trama forte, por vezes perturbadora.

Séries favoritasFleabag Modern Love, ambas disponíveis no Prime VideoFleabag é uma comédia inglesa cheia de ironia e sarcasmo, com a participação especialíssima de Andrew Scott na segunda temporada (provando que o Moriarty fica fantástico mesmo sem coroa). Modern Love adapta histórias românticas publicadas no The New York Times e tem a Big Apple como personagem coadjuvante – além de também contar com Andrew Scott (estou começando a perceber um padrão).

Descoberta: Notion, apresentado pela @fabineves e que se tornou minha obsessão no último terço do mês. Criei um planner fantástico nele, muito melhor que qualquer um que eu tivesse comprado (e de graça, né, Fabi?). Além do benefício direto de ter um planner personalizável e online, colhi o benefício indireto de aprender algo novo, e aprender é uma das minhas coisas favoritas na vida.

Outra descoberta: o canal National Theatre, com a apresentação de uma peça por semana no youtube, na íntegra. Ver Frankenstein nas duas versões (Benedict Cumberbatch e Jonny Lee Miller alternando-se no papel de criador e criatura) foi um privilégio. Tem legendas em inglês.

Bônus: o desenvolvimento de uma ótima rotina de exercícios em casa. Sei não se volto pra academia (se voltar, não será para a que eu frequentava antes, já que não financio fake news).

Gota D’Água

Gota D'Água - edição de 1975.
Edição de 1975.

Há vários anos, vi uma montagem amadora de Gota D’Água. Lembro de ter achado interessante, mas não me senti realmente tocada pela peça. Ler o texto, porém, foi uma experiência completamente diferente. Eu, que não gosto de ler peças teatrais, vi-me presa àquelas páginas, percorrendo a mesma espiral de sofrimento de Joana, a protagonista.

Gota D’Água é trágica desde a sua inspiração: a tragédia grega Medéia, de Eurípedes. Chico Buarque e Paulo Pontes contextualizaram o drama clássico, situando seus personagens num cortiço do Rio de Janeiro, cercados pela pobreza e dotados de uma determinação quase instintiva de continuar seguindo em frente. Jasão é um deles, até o dia em que emplaca um samba na rádio, começa a fazer sucesso e passa a namorar Alma, filha de Creonte, o poderoso dono do cortiço. Encantado por promessas de juventude e riqueza, Jasão abandona Joana (a Medéia contemporânea), quinze anos mais velha que ele, mãe dos seus dois filhos, sem a qual ele provavelmente não teria passado de um joão-ninguém.

Todos os moradores do cortiço são envolvidos no drama amargo de Joana, seja a seu favor ou contra ela – e às vezes mudando de opinião conforme as circunstâncias. No fundo, porém, Joana está sozinha, entregue à própria amargura.  O desfecho dramático é inevitável. Resta ao leitor segurar o fôlego, esperando a morte.

Como Calabar, Gota D’Água é toda escrita em versos, cadenciando a leitura, e tem poucas marcações de palco que a atrapalhem. Seu enredo, porém, é muito mais denso, mais concreto e, portanto, mais emocionante. É difícil ler de um só fôlego uma trama tão sombria.

Ao lado do drama humano, Gota D’Água traz uma crítica social, retratando um cenário em que os ricos ficam cada vez mais ricos às custas dos pobres, que empobrecem um pouco mais a cada dia. A edição que li traz um prefácio um tanto extenso (às vezes tedioso) em que os autores discorrem sobre a desigualdade de classes gerada pela selva de pedra capitalista. Boa parte do que ali está escrito já se encontra superada, seja por novas correntes políticas, seja pela História; contudo, o texto é uma espécie de retrato intelectual do momento pelo qual passava o Brasil nos anos 70 e, sob esse aspecto, é interessante.

A peça, por sua vez, é um retrato atemporal das misérias humanas e mantém sua atualidade ao longo das décadas, como Medéia se mantém atual século após século.

Eis a música que dá título ao livro: Gota D’Água.

Ficha

  • Título original: Gota D’Água
  • Autores: Chico Buarque e Paulo Pontes
  • Editora: Civilização Brasileira
  • Páginas: 168
  • Cotação: 4  estrelas
  • Encontre Gota D’Água.
Este texto faz parte do Desafio Literário 2011, cujo tema em junho é peça teatral. Conheça o Desafio Literário.

Calabar

Calabar - edição de 1975.
Edição de 1975.

Não sou fã de ler peças teatrais. Embora adore ir ao teatro, a leitura das peças sempre me pareceu enfadonha, constantemente interrompida pelas marcações de palco. Foi, portanto, com um certo desânimo que encarei o Desafio Literário de junho. Para animar-me, resolvi vasculhar na estante do Sr. Monte e tive a grata surpresa de encontrar dois livros que habitam a casa dos meus pais desde que me entendo por gente: Calabar e Gota D’Água, peças escritas por Chico Buarque.

Calabar aproveita um acontecimento real: a ocupação de Pernambuco pelos holandeses, durante parte do século XVII. Tendo passado minha adolescência em Recife, estava familiarizada com os personagens históricos, inclusive com aquele que dá título ao livro: o traidor, o vira-casaca que, passando para o lado da Holanda, transmitiu informações decisivas para suas vitórias sobre o exército luso-brasileiro, prolongando a ocupação. Os livros didáticos não aprofundam a participação de Domingos Fernandes Calabar. Não se sabe se ele traiu o império português por mágoa, dinheiro ou idealismo (porque, de fato, a ocupação holandesa resultou num período próspero para Pernambuco, então constantemente deixada de lado pelos próprios portugueses). Provavelmente, nunca saberemos.

Chico Buarque e Ruy Guerra desgarram-se da História oficial em sua peça e dedicam-se mais a Bárbara, suposta esposa de Calabar que, após a morte do amado, entra em cena doída, arrasada, descrente da vida e da justiça. Bárbara defende que Calabar traiu Portugal por ideologia – em última análise, por amor ao Brasil. Esse é o ponto de vista que predomina no livro, que não à toa tem o subtítulo de “o elogio da traição”. Aos olhos de Bárbara, Calabar é um herói, um homem corajoso que morreu por um sonho. Em oposição, os militares luso-brasileiros são soldados cegos guiados por ordens que não questionam, morrendo por verdades alheias. Calabar, portanto, é superior a todos eles.

Bárbara divide a cena com Anna de Amsterdam, prostituta acostumada a perder no jogo do amor, que tenta consolá-la. Aqui, nota-se a grande qualidade de Chico Buarque: colocar os mais belos textos nas bocas das mulheres, como fez em várias de suas canções. É impressionante como o compositor entende a alma feminina.

Um grande mérito da peça é sua estrutura em versos. A prosa poética torna o texto ligeiro, ritmado. As interrupções para marcações de cena, felizmente, são raras. É o tipo de livro que se lê “em uma sentada”.

O ponto fraco é a despreocupação com a continuidade histórica, o que pode confundir o leitor. Ainda assim, é uma boa forma de ter contato com esse período fundamental na história da ex-colônia: é para combater os holandeses (e, finalmente, expulsá-los) que se forma, pela primeira vez, o exército brasileiro.

Para saber mais sobre a ocupação de Pernambuco pelos holandeses, o verbete Invasões holandesas no Brasil é um bom começo.

Três músicas da peça: Bárbara, Tatuagem (minha favorita) e provavelmente a mais famosa desta obra, Não existe pecado ao sul do Equador.

Ficha

  • Título original: Calabar – o elogio da traição.
  • Autores: Chico Buarque e Ruy Guerra
  • Editora: Civilização Brasileira
  • Páginas: 97
  • Cotação: 3  estrelas
  • Encontre Calabar.
Este texto faz parte do Desafio Literário 2011, cujo tema em junho é peça teatral. Conheça o Desafio Literário.

Tom e Vinícius – O Musical

Fui, vi, gostei. Mas, confesso, esperava mais.

Conseguir ingresso em cima da hora (comprei apenas um dia antes da peça) foi um pequeno  milagre. Apenas quarenta reais – de graça para os padrões do Teatro Nacional de Brasília – e com ator famoso (eu nunca tinha ouvido falar dele, mas não sou noveleira, então não posso ser levada em conta), essa é a combinação perfeita para entradas esgotarem-se antes que você saiba que o espetáculo existe. Certo, fiquei na fila Z, mas quem se importa?

O lugar era central, diga-se de passagem, e, justamente pela distância do palco, propiciava uma boa visão de toda a cena – e aí começa o problema. Cadê cenário? Um projetor sem contraste, trazia uma imagem ou outra do Rio, do Carnegie Hall etc. e tal. No tablado, poucos elementos além dos (também poucos) atores. Um piano, eventualmente uma mesa e algumas cadeiras. Tom e Vinícius poderia manter muito bem esse clima no teatro pequeno e seria um espetáculo intimista. Na sala principal do Teatro Nacional, com capacidade pra mais de mil pessoas, a sensação é de que falta algo.

Marcelo Serrado interpreta Tom Jobim e contracena com o Vinícius de Moraes de Thelmo Fernandes. Serrado convence mais. Fernandes está ótimo, mas exagera um tanto nos trejeitos do poetinha. Nenhum dos dois enche o peito para cantar, sendo salvos por seis excelentes cantores. A pequena banda também é de primeira. Mas, pra quem se acostumou com musicais e cortinas líricas compostas por dezenas de artistas, a produção pareceu pobre, insuficiente para a grandeza dos homenageados.

Outro ponto fraco é o tom professoral de algumas passagens, como se houvesse muito a contar em pouco tempo e a única saída fosse declamar lições didáticas.

Nem tudo é defeito, claro – afinal, eu disse lá em cima que gostei do musical. Os cantores são ótimos e seus figurinos de época caem muito bem. A escolha das músicas marca eventos importantes nas carreiras de Tom e Vinícius. O corte que os autores fizeram para contar as suas vidas é preciso, pinçando ótimos momentos. O musical faz rir quando perde o tom didático e chega a emocionar. Sem contar que recordar Tom e Vinícius é recordar um Rio de Janeiro leve e poético como já não se vê.

Não é imperdível mas, se por acaso voltar aos palcos (segundo Serrado, a apresentação de domingo passado em Brasília encerrou a turnê nacional) e se você for fã da dupla que consagrou a bossa nova, vale conferir.

Ficha

  • Texto: Daniela Pereira de Carvalho e Eucanaã Ferraz
  • Direção: Daniel Herz
  • Direção Musical: Josimar Carneiro
  • Figurino: Marcelo Pies
  • Elenco: Marcelo Serrado, Thelmo Fernandes, Guilhermina Guinle, Ricardo Conti, Lilian Valeska, Marcelo Rezende, Luiz Araújo, Pedro Lima, Luiz Nicolau, Ana Ferraz, Carol Bezerra, Julia Gorman, Luciana Bollina, Marilice Cosenza.