O Aviador – a vida secreta de Howard Hughes

O Aviador - capaDe todos os gêneros literários, o último de que me aproximei foi a biografia. Foi já adulta que li minha primeira. Meu preconceito fazia-me imaginar biografias como um desfile sem fim de nomes e datas que pouco ou nada me dizem, muito entediam e não divertem.

Essa é uma visão simplista do gênero. Nos últimos anos, li biografias bem interessantes, divertidas e inspiradoras. Adorei Quase Tudo (de e sobre Danuza Leão) e recomendo. Tinha algumas aguardando no fundo do armário e, para o Desafio Literário de fevereiro, escolhi O Aviador. Comprei há anos, atraída pelo sucesso do filme ao qual deu origem (e que ainda não vi).

Pois bem. Agradeço aos deuses da leitura por não ter sido esta a primeira biografia que li na vida porque, se fosse, também seria a última. “Chato” descreve.

O biografado é Howard Hughes, um dos homens mais ricos do século XX. O lastro da sua riqueza foi herdado: no início do século passado, seu pai inventou uma broca perfuradora de poços de petróleo que rendeu fortunas. Foi o começo da Hughes Tools, carro-chefe do seu império, de onde vinha a maior parte do dinheiro que financiava suas aventuras.

Ainda novo, Hughes interessou-se pela aviação. Desse interesse nasceu a Hughes Aircraft, que rendeu algumas aeronaves pioneiras bem-sucedidas (e vôos históricos), mas consumiu uma quantidade de recursos absurda, tanto do próprio Hughes quanto dos cidadãos norte-americanos, por meio de parcerias fracasssadas com o governo dos Estados Unidos.

Mais ruinosa ainda foi a sua incursão pelo mundo do cinema. Hughes não tinha verdadeiro amor pela sétima arte, senão pela possibilidade que os filmes lhe davam de exercer fantasias, taras e obsessões. Ele, aliás, dormiu (ou tentou dormir) com quase toda Hollywood. Entre suas conquistas estão Audrey Hepburn, Rita Hayworth e Cary Grant. Elizabeth Taylor foi das poucas estrelas que não caíram nas suas garras. John Wayne foi outro famoso que, embora tenha atuado na produtora de filmes de Huges, a RKO, não dormiu com o biografado.  Era “convictamente heterossexual”, diz o biógrafo.

Ainda na indústria do entretenimento, decidiu estender sua riqueza por Las Vegas e foi dono de diversos hotéis e cassinos na cidade.

Hughes envolveu-se com vários dos principais fatos históricos do século XX: participou da corrida espacial, fornecendo foguetes (de má qualidade) para a NASA; fabricou armamentos para a Guerra do Vietnã; forneceu armas durante a Guerra Fria; articulou invasões mal-sucedidas a Cuba; teve ligações com o ditador Somoza, da Nicarágua; estava implicado no  escândalo Watergate.

Tinha fobia de germes, horror a negros e ódio do comunismo. Era um amante inepto, um parente relapso e um ser humano intragável, autocentrado, egoísta, idiossincrático e socialmente desajustado. Tinha certeza de que poderia comprar quem quisesse, e muitas vezes isso foi verdade.

Portador de uma surdez hereditária e progressiva que contribuía para isolá-lo e, nas últimas décadas de vida, lidando com vários problemas de saúde (alguns, derivados de um sério acidente aéreo; outros, indicativos de um quadro clínico parecido com o da aids), Hughes terminou a vida recluso e cercado por poucos empregados.  Não faltaram testamentos falsos elaborados por gente interesada em se aproveitar do seu império financeiro (que, apesar de todos os desmandos, sobreviveu ao tempo).

Parece uma história interessante? Sim, e é. O problema é que, depois da primeira metade do livro, o autor envereda por uma infinidade de nomes desconhecidos e intrigas enfadonhas, numa monótona sucessão – o tal desfile tedioso que eu imaginava ser toda biografia antes de ler as primeiras. A não ser que você tenha enorme interesse em detalhes da política norte-americana, encontrará pouco com o que se entreter desse ponto em diante.

Uma boa biografia, pra mim, presume um personagem carismático. Talvez por isso O Aviador seja um livro fraco. Embora Hughes exercesse um certo fascínio sobre muita gente, sua personalidade doentia está longe, muito longe de ser carismática.

Ficha

Este texto faz parte do Desafio Literário 2011, cujo tema em fevereiro é biografia ou memórias. Conheça o Desafio Literário.

As aparências enganam

As aparências enganam - Danuza Leão
Razoável, apesar de repetitivo.

Danuza Leão tem dois livros imperdíveis: Na Sala com Danuza e Na Sala com Danuza 2. Ambos deveriam ser leitura obrigatória no ensino médio (no mais tardar). Embora nem tudo escrito ali seja unanimidade ou aplicável na prática, certamente veríamos uma elevação do nível geral de educação (não a educação formal, mas aquela que deveria ser ensinada em casa, pelos pais, e que anda tão negligenciada). Tem, ainda, uma autobiografia invejável. Já suas crônicas… diferentemente de meio mundo, não morro de amores por elas. Certo, deve ser complicado tentar criar tiradas geniais três vezes por semana, para veículos diferentes, com perfis de leitores também diferentes. Mas mesmo assim…

As aparências enganam reúne textos escritos entre 2001 e 2004 para a Folha de São Paulo. O livro decididamente não pertence ao seleto grupo de compilações bem-sucedidas; também não é um fiasco completo, graças a alguns textos francamente excelentes. Outros  são autobiográficos e, por isso mesmo, interessantes. O problema está no punhado de crônicas que parecem feitas mecanicamente, para cumprir prazo e em outras tantas recheadas de clichês e em mais algumas repetitivas.

A coisa vai assim, entre altos e baixos. Embora haja altos suficientes para não entediar, não é um livro memorável. Leia apenas se ele cair nas suas mãos assim, por acaso, como caiu nas minhas.

Trechos

Por mais que se torça para que as pessoas de quem gostamos se apaixonem e sejam muito felizes, quando isso acontece, a tendência é guardar uma certa distância; com o tempo, essa distância vai ficando cada vez maior, pois quem está apaixonado se transforma em outra pessoa, e tão diferente que ninguém reconhece mais. (p. 73)

Ele ainda te leva ao aeroporto quando você vai viajar e vai te buscar quando você volta? Se a resposta for não, é bom começar a pensar na vida. (p. 93)

Quem não cultiva um amigo bem maldito, que diz maldades vis mas sempre divertidas sobre nossos mais caros amigos? Quem nunca se apaixonou por um homem que nos fez passar por momentos atrozes, sempre em sobressalto, com o coração na boca, sofrendo mas morrendo de medo de que ele fosse embora? É elementar saber que esse amigo tão divertido vai, assim que você virar as costas, fazer comentários maldosos- e sempre divertidos – sobre você, que quando souber não vai achar a melhor graça. E que seu namorado, que faz com que você viva no fio da navalha – isso é que é vida, você acha – vai aprontar cada vez mais, muito mais do que você jamais sonhou, até te deixar arrasada – e sozinha. Quando se fazem escolhas erradas se está procurando a dor, e esta é uma procura inútil; supérflua, eu diria. Não é preciso procurar por ela porque mesmo tentando viver da maneira mais certa ela nos encontra na hora em que quer e bem entende. (p. 110)

Nada desorganiza mais a vida do que uma paixão. (p. 287)

Ficha

  • Título: As aparências enganam
  • Autora: Danuza Leão
  • Editora: Publifolha
  • Páginas: 309
  • Cotação: 2 estrelas
  • Encontre As aparências enganam.

Becky Bloom – delírios de consumo na 5ª avenida

Becky Bloom - delíros de consumo na 5ª avenida
Divertido, mas repetitivo.

Depois do excelente Samantha Sweet, executiva do lar, parti para o livro seguinte da minha pilha de chick lit: Becky Bloom – delírios de consumo na 5ª avenida. Talvez eu não ficasse tão desapontada se Samantha Sweet não tivesse sido tão bom, mas o fato é que Delírios de consumo na 5ª avenida deixa a desejar.

Becky Bloom gasta demais; faz dívidas imensas; tem de lidar com problemas na sua vida profissional e amorosa. Parece repetitivo? Pois é.  Neste romance, Sophie Kinsella não repetiu somente a heroína do bom Os delírios de consumo em de Becky Bloom; repetiu praticamente toda a trama, que, embora tenha bons momentos, não escapa da previsibilidade. A tradução do título para o português não ajuda e desfaz o único suspense do primeiro terço do livro, e o que seria a melhor surpresa de todo a história.

Outros personagens também estão de volta, como o namorado Luke, a colega de apartamento Suze e seu primo Tarquin. Neste novo(?) enredo, eles ganham maior destaque e se desenvolvem, mas também acentuam a sensação de déjà vu.

Delírios de consumo na 5ª avenida só se salva porque a autora realmente sabe contar histórias com fluidez. Você verá que as páginas voam e, sim, é possível emocionar-se e rir das aventuras de Becky.  Ainda assim, é um livro fraco, mesmo levando-se em conta que o gênero chick lit não se destaca pela inovação.

Ficha

Budapeste

Única, intacta, intraduzível.
(Frase eternamente repetida por um dos personagens do filme.)

Ficha Técnica

  • Título: Budapeste
  • País: Brasil/Hungria/Portugal
  • Ano: 2009
  • Gênero: Drama
  • Duração: 1 hora e 53 minutos
  • Direção: Walter Carvalho
  • Roteiro: Rita Buzzar, baseado em livro de Chico Buarque
  • Elenco: Leonardo Medeiros, Giovanna Antonelli, Gabriella Hámori, Paola Oliveira, Débora Nascimento, Antonie Kamerling, Ivo Canellas.
  • Sinopse: José Costa é um ghost writer carioca bem-sucedido. Ao conhecer Budapeste, apaixona-se pelo idioma local. No Rio, sua vida torna-se cada vez mais infeliz. Costa passa a escrever autobiografias, na esperança de que a vida de outras pessoas o salve do tédio. Sua esposa acaba se apaixonando por um dos biografados sem saber que o marido é o verdadeiro autor das histórias. Costa divide-se entre o Rio e Budapeste, onde parece ser mais feliz.

Comentários

Budapeste

Certas histórias simplesmente não funcionam no cinema. É o caso de Budapeste, excelente livro de Chico Buarque que perdeu grande parte de sua força ao ser filmada.

O longa mal consegue traduzir a angústia de Costa, o ghost writer que sofre e, ao mesmo tempo, regozija-se no anonimato. Costa não tem nada que o torne memorável ou lhe dê orgulho,  sequer o filho. Por isso mesmo, Budapeste, um lugar completamente estranho, torna-se-lhe tão viável. Budapeste, para ele, é quase um portal para outra dimensão, uma chance de ser feliz.

O filme mastiga tudo isso, mas falha em envolver o espectador na angústia de Costa. Não consegue transmitir sua ambiguidade, a sensação de não pertencimento a lugar algum. A interpretação de Leonardo Medeiros, excessivamente comedida, dilui qualquer empatia que o público pudesse ter com o protagonista.

O roteiro toma rumos equivocados, como a inserção de cenas de sexo que nada acrescentam à trama. Por outro lado, pouca atenção é dada a uma situação tão marcante no livro de Chico: a perda do domínio do próprio idioma por Costa, que se embrenha tanto no húngaro (“a única língua que o diabo respeita”, segundo sua anfitriã e professora Kriska) que lentamente abandona o português. O livro é impregnado de uma vertigem que o filme não é capaz de transmitir.

Budapeste tem o mérito de uma fotografia belíssima com cenas marcantes, como a estátua de Lênin descendo o Rio Danúbio. Também traz um desfecho interessante (com um detalhe a mais que o livro). Infelizmente, porém, o fim demora demais a chegar.

Cotação: 2 estrelas

Serviço

Imagem: divulgação.