Gota D’Água

Gota D'Água - edição de 1975.
Edição de 1975.

Há vários anos, vi uma montagem amadora de Gota D’Água. Lembro de ter achado interessante, mas não me senti realmente tocada pela peça. Ler o texto, porém, foi uma experiência completamente diferente. Eu, que não gosto de ler peças teatrais, vi-me presa àquelas páginas, percorrendo a mesma espiral de sofrimento de Joana, a protagonista.

Gota D’Água é trágica desde a sua inspiração: a tragédia grega Medéia, de Eurípedes. Chico Buarque e Paulo Pontes contextualizaram o drama clássico, situando seus personagens num cortiço do Rio de Janeiro, cercados pela pobreza e dotados de uma determinação quase instintiva de continuar seguindo em frente. Jasão é um deles, até o dia em que emplaca um samba na rádio, começa a fazer sucesso e passa a namorar Alma, filha de Creonte, o poderoso dono do cortiço. Encantado por promessas de juventude e riqueza, Jasão abandona Joana (a Medéia contemporânea), quinze anos mais velha que ele, mãe dos seus dois filhos, sem a qual ele provavelmente não teria passado de um joão-ninguém.

Todos os moradores do cortiço são envolvidos no drama amargo de Joana, seja a seu favor ou contra ela – e às vezes mudando de opinião conforme as circunstâncias. No fundo, porém, Joana está sozinha, entregue à própria amargura.  O desfecho dramático é inevitável. Resta ao leitor segurar o fôlego, esperando a morte.

Como Calabar, Gota D’Água é toda escrita em versos, cadenciando a leitura, e tem poucas marcações de palco que a atrapalhem. Seu enredo, porém, é muito mais denso, mais concreto e, portanto, mais emocionante. É difícil ler de um só fôlego uma trama tão sombria.

Ao lado do drama humano, Gota D’Água traz uma crítica social, retratando um cenário em que os ricos ficam cada vez mais ricos às custas dos pobres, que empobrecem um pouco mais a cada dia. A edição que li traz um prefácio um tanto extenso (às vezes tedioso) em que os autores discorrem sobre a desigualdade de classes gerada pela selva de pedra capitalista. Boa parte do que ali está escrito já se encontra superada, seja por novas correntes políticas, seja pela História; contudo, o texto é uma espécie de retrato intelectual do momento pelo qual passava o Brasil nos anos 70 e, sob esse aspecto, é interessante.

A peça, por sua vez, é um retrato atemporal das misérias humanas e mantém sua atualidade ao longo das décadas, como Medéia se mantém atual século após século.

Eis a música que dá título ao livro: Gota D’Água.

Ficha

  • Título original: Gota D’Água
  • Autores: Chico Buarque e Paulo Pontes
  • Editora: Civilização Brasileira
  • Páginas: 168
  • Cotação: 4  estrelas
  • Encontre Gota D’Água.
Este texto faz parte do Desafio Literário 2011, cujo tema em junho é peça teatral. Conheça o Desafio Literário.

Cisne Negro

Ficha Técnica

  • Título: Black Swan
  • País: Estados Unidos
  • Ano: 2010
  • Gênero: Drama
  • Duração: 1 hora e 48 minutos
  • Direção: Darren Aronofsky
  • Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder, Vincent Cassel.
  • Sinopse: Beth MacIntyre (Winona Ryder), a primeira bailarina de uma companhia, está prestes a se aposentar. O posto fica com Nina (Natalie Portman), mas ela possui sérios conflitos interiores, especialmente com sua mãe (Barbara Hershey). Pressionada por Thomas Leroy (Vincent Cassel), um exigente diretor artístico, ela passa a enxergar uma concorrência desleal vindo de suas colegas, em especial Lilly (Mila Kunis).

Comentários

Cisne NegroSe eu soubesse que Cisne Negro é do mesmo diretor de Réquiem para um Sonho, não teria ido ao cinema. Felizmente, não sabia. Se por um lado Cisne Negro tem a mesma tratativa psicológica de Réquiem, a coisa vertiginosa de entrar na mente da protagonista, por outro é um filme menos angustiante que seu antecessor, e nada depressivo.

Provavelmente o que torna Cisne Negro mais ameno que Réquiem é sua obviedade. O tema central é clichê (como é clichê o próprio Lago dos Cisnes): a dicotomia em várias formas, bem/mal, claro/escuro,  infantilidade/amadurecimento. O diretor recheia o filme de metáforas, mas faz questão de explicá-las todas; com isso, não chega a entediar (aliás, o filme não entedia em momento algum), mas subestima o expectador. Se bem que, ainda assim, vi gente sair do cinema dizendo que não tinha entendido o filme.

Essa tendência a explicar tudo nos míííínimos detalhes dá uma folga quando o assunto é o mundo interior de Nina, a protagonista. Os conflitos diários da moça acabam se convertendo em violentas alucinações e, em alguns momentos, fica difícil para a platéia distinguir delírio de realidade, como é difícil para a própria Nina. Ainda agora, pergunto-me se algumas cenas (e até personagens) realmente existiram (dentro do universo do filme, é claro) ou se não passaram da imaginação de Nina.

Sim, há cenas de sexo e masturbação no filme, como já foi comentado ad nauseam pela imprensa. Todas, contudo, servem a um propósito. Nada está deslocado, nada é “nojento” ou “sujo”, como li em uma crítica tão virulenta que me faz pensar que o tal crítico tem sérios problemas para lidar com a sexualidade feminina.

Um dos grandes méritos do filme é a edição envolvente, com um movimento das câmeras que faz um excelente trabalho em capturar as sensações da dança. Boa parte do ambiente tenso, perturbador mesmo, é criada pela excelente montagem. Outro ponto forte são as interpretações, todas ótimas – a de Natalie Portman, irretocável (ou “perfeita”, como diria sua personagem). Talvez, ainda assim, não seja filme para Oscar. A uma, pelas obviedades já mencionadas. A duas (e, de certa forma, numa crítica correlacionada), pelo mau uso de computação gráfica em diversos momentos, chegando a “quebrar o clima” do filme e desviar a atenção do trabalho magistral de Natalie Portman.

Aliás, se pode haver dúvidas quanto ao merecimento do Oscar de melhor filme, tem-se a certeza absoluta de que Natalie Portman merece o Oscar de melhor atriz principal. A moça faz um papel excepcional após o outro desde os onze anos, já foi indicada por Closer e dessa vez excede qualquer expectativa. Se não levar a estatueta, será pura injustiça.

Cotação: 4 estrelas

Curiosidades

  • Natalie Portman, que sempre foi mignon, emagreceu dez quilos para o papel. Em alguns ângulos a magreza é tão intensa que chega a dar agonia. Diz-se que, a certa altura da filmagem, o diretor implorava que ela comesse alguma coisa.
  • A atriz fez balé clássico dos 4 aos 12 anos. Para interpretar o papel, submeteu-se a um treinamento de quase um ano, com direito a dores intensas. Durante as filmagens, deslocou uma costela (e continuou gravando). Ainda assim, foi usada uma dublê (a bailarina profissional Sarah Lane) para as acrobacias mais complexas e os close-ups abaixo da cintura.
  • Mila Kunis (Lilly) também emagreceu cerca de dez quilos para o papel, chegando a absurdos 43 quilos. Treinou intensamente por quatro meses, sofreu várias lesões e deu declarações dizendo que nunca mais quer dançar. Também foi usada uma dublê para as cenas mais elaboradas.
  • O orçamento do filme foi de míseros 13 milhões de dólares – tão baixo que, quando Natalie Portman deslocou a costela e precisou de tratamento médico, teve de abrir mão do seu trailer para obtê-lo.

Serviço

Imagem: divulgação.

As Crônicas de Nárnia

As Crônicas de Nárnia - volume único

Da série para o cinema, só vi o primeiro, O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. Lembro-me de ter gostado do filme, mas não o suficiente para ver os seguintes. Ouvia falar que a obra original era muito mais interessante que a filmagem. Agora, após ler o volume único das Crônicas de Nárnia (o primeiro filme para o cinema é, na verdade, a segunda história, na cronologia estabelecida pelo autor), entendo bem por que: o filme é apenas uma sombra do mundo criado por C. S. Lewis. Uma bela sombra, cheia de contornos cativantes, mas pálida diante do texto – bem como acontece aos mundos contidos dentro dos mundos de Nárnia.

Talvez esse seja o destino inescapável de todos os livros de fantasia. Já ouvi muitas vezes que os livros que formam O Senhor dos Anéis são bem mais impactantes que os filmes (terei a chance de verificar isso daqui a uns meses). A saga de Harry Potter foi muito bem filmada, mas os livros são tremendamente mais envolventes.  Se todas as adaptações de textos tendem a perder conteúdo quando reduzidas a pouco mais de duas horas de imagens, o fenômeno é ainda mais cruel com histórias de fantasia. A imaginação permite infinitas dimensões e camadas aos mundos fantasiosos, enquanto o cinema as mastiga, sintetiza e apresenta uma única versão.

Nárnia é, sim, um livro para crianças. Encontra-se de tudo um pouco nas suas páginas: heróis, vilões, animais falantes (como nas antigas fábulas), feiticeiras, capa-e-espada, aventuras por mar e terra, contos de fadas. Não é, no entanto, um livro condescendente. Exige que as crianças imaginem, completando as lacunas que felizmente existem nas descrições; e impõe perdas, despedidas e mortes. Presume que o leitor-mirim tenha inteligência para aproveitar ao máximo suas páginas. Aliás, pergunto-me se as crianças que estão por aí lêem as Crônicas – e, principalmente, se gostam. Terão paciência para um livro longo? Terão foco, imaginação, curiosidade? Conseguirão se interessar por uma diversão tão arcaica quando comparada ao jogos eletrônicos?

Claro, há lições de moral nas páginas de Nárnia, como cabe aos bons livros infantis. A traição, a ganância e a covardia são censuradas. A coragem e a lealdade sempre são recompensadas. O moralismo está longe de ser sutil, mas não estraga a fantasia. Está, aliás, muito bem colocado e seria realmente ótimo que as crianças de hoje crescessem com lições de moral passadas de forma lúdica (tenho a impressão que poucos pais se preocupam em ensinar “educação” ou “bom comportamento”). O livro traz, também, uma forte tendência mística, religiosa mesmo. Quando esse viés ameaçava incomodar-me, fixava-me nas aventuras nos valores universais por elas enaltecidos, que são anteriores e superiores a qualquer crença: honra, amizade, compaixão, perdão. (O curioso é que, embora o livro tenha forte tendência cristã, seu autor recebeu fortes críticas de grupos cristãos que consideram o texto herege por citar temas bíblicos misturados a elementos da “mitologia pagã”.)

Escrito nos anos 50 (na mesma época do Senhor dos Anéis), os sete livros que compõem o volume único não escapam totalmente ao seu tempo: há uma conotação sexista, uma tendência a ver a mulher como frágil demais, menos capaz que o homem, um tanto boba. O próprio autor parece lutar contra esse estereótipo em algumas passagens e é bem verdade que se esforça por colocar homens e mulheres numa situação que seus contemporâneos julgariam igualitária (e, provavelmente, o criticariam por isso). Dada a pouca importância atribuída às mulheres na época em que os livros foram escritos, As Crônicas de Nárnia podem ser perdoadas por seus deslizes e merecem ser valorizadas pelas tentativas de igualdade de gêneros.

Está aí uma excelente sugestão de leitura para quem gosta de viajar por outros, independentemente da idade.

Trechos

Oh, Filhos de Adão, com que esperteza vocês se defendem daquilo que lhes pode fazer o bem! (p. 91)

– O punhal é para a sua defesa, em caso de extrema necessidade. Porque você também não deve entrar na luta.
– Por que não, meu senhor? – disse Lúcia. – Acho que… bem, não sei… mas acho que eu era capaz de não ter medo!
– O problema não é esse. É que as batalhas são mais feias quando as mulheres tomam parte nelas.” (p. 151)

O coração de Shasta quase parou ao ouvir essas palavras, pois já não lhe restavam reservas de força. Por dentro rebelava-se contra o que lhe parecia a crueldade da missão. Ainda não aprendera que a recompensa de uma boa ação é geralmente ter de fazer uma outra boa ação, mais difícil e melhor. (p. 255)

Minha filha: já vivi cento e nove invernos e jamais encontrei uma coisa chamada sorte. (p. 256)

O rei obedece às leis, pois as leis o fizeram rei. (p. 287)

Depois disso, os amigos da diretora perceberam que ela não prestava para diretora, e nomearam-na inspetora-geral. Quando viram que ela não era também grande coisa como inspetora-geral, conseguiram elegê-la para a Câmara dos Deputados, onde ela viveu para sempre feliz. (p. 625)

Ficha

Este texto faz parte do Desafio Literário 2011, cujo tema em janeiro é literatura infanto-juvenil. Conheça o Desafio Literário.

House a a Filosofia – todo mundo mente

House e a Filosofia - todo mundo mente.
E nunca é lúpus.

Para quem curte cultura pop e filosofia, a coleção organizada por William Irwin é um achado. Li alguns volumes (os mais antigos), tenho outros na lista de espera e este ano, embora não devesse comprar livro algum antes de esgotar a pilha monstruosa que habita meu armário, não resisti e encomendei House e a Filosofia.

Como os outros volumes da coleção, este é uma coletânea de ensaios. Cada texto aborda um tema diferente do seriado House por uma perspectiva filosófica. Alguns artigos cuidam de episódios específicos, outros dão uma visão geral; uns enxergam aspectos utilitaristas, outros kantianos, alguns discutem temas como o amor e por aí afora. Tem até ensaísta que conseguiu enxergar, imagine só, filosofia zen em House. É, também fiquei surpresa.

A maioria dos ensaios é bem interessante. O que trata de filosofia zen pareceu-me forçação de barra e não me agradou – mas, quando isso acontece, resta o consolo de que os textos são curtos. Por outro, o artigo House e Sartre: “O Inferno são os outros” é tão bacana que me interessaria ler um livro inteiro sobre o tema (possivelmente porque sempre gostei do existencialismo e o ensaio analisa meu episódio favorito, One Day, One Room).

É, sem dúvida, livro para fãs do seriado.  Gostar de filosofia ajuda, mas essa coleção tem o mérito de contextualizar os filósofos e usar linguagem acessível, sendo um ótimo primeiro contato para quem acha que a filosofia é abstrata demais ou difícil demais.

Trechos

Toda espécie de amor envolve uma capacidade de confiar, uma abertura para se magoar e uma vulnerabilidade em relação a outra pessoa. É por isso que House tem dificuldade não só para amar uma mulher, mas também para ter amigos. Mesmo com Wilson, seu único amigo, ele está sempre na defensiva. A amizade dos dois baseia-se apenas na habilidade de Wilson em mantê-la vida, em sua capacidade para perdoar House e ser paciente. Sem dúvida, House afeiçoa-se a Wilson, mas faz tudo para dominá-lo. Isso pode funcionar em um relacionamento entre amigos, que é menos rígido e exclusivo que um relacionamento romântico. Mas sua luta para controlar tudo não pode dar certo no contexto de eros, para o qual uma espécie peculiar de intimidade confiável é fundamental. (p. 169)

House nos fascina, em parte, porque ele é bom demais em seu trabalho e muito ruim em todo o resto, e esses dois fatos parecem relacionados. Queremos que House seja uma pessoa melhor? Não, se estivermos sofrendo de alguma doença misteriosa. Nesse caso, não nos importaríamos de tolerar sua rudeza, desonestidade e propensão a burlar a lei. (p. 190)

Ficha

  • Título original: Dewey – the small-town librery cat who touched the world
  • Coordenação de William Irwin
  • Editora: Madras
  • Páginas: 208
  • Cotação: 4 estrelas
  • Encontre House e a Filosofia: todo mundo mente.