Flores Azuis

Resenha de hoje: “Flores Azuis”, de Carola Saavedra.

Duas histórias cruzadas: uma mulher que envia cartas ao ex após o fim abrupto da relação; um homem recém-divorciado que se mudou para o apartamento daquele ex e resolve abrir as cartas.

A mulher, que assina apenas como “A”, indica já nas primeiras linhas que o relacionamento era abusivo, violento. O recém-divorciado, Marcos, não vê sua filha de três anos como uma criança, mas como mais uma mulher manipuladora, em sua vida. Nenhuma das histórias “de amor” narradas no livro é saudável, nenhum dos protagonistas é equilibrado.

A tensão é suavizada pela alternância das narrativas e por ser uma história curta, menos de 160 páginas. A prosa flerta com o fluxo de consciência, mas insere elementos suficientes do mundo externo para facilitar a leitura. É livro para uma manhã ou tarde, com um desfecho que se abre a múltiplas interpretações. A sensação de incômodo perdura além da leitura, pelo infeliz realismo das histórias e por ser impossível gostar dos protagonistas.

Estrelinhas no caderno: 3,5 estrelas

To be taught, if fortunate

“To be taught, if fortunate”, é minha segunda leitura da Becky Chambers. Nele, a autora guia o leitor pela exploração de quatro planetas muito, muito distantes – 14 anos-luz distantes da Terra. Foi minha quarta leitura para a maratona #JornadaLendoSciFi, da @soterradaporlivros.

Chambers não perde tempo com technobabble e isso é um dos pontos fortes da sua escrita. Em “To be taught”, ela conta o necessário para entendermos em que pé está a exploração espacial e introduz um conceito fascinante: somaforming, um jeito de adequar o corpo do explorador ao planeta que vai visitar, em vez da velha conhecida terraformação.

Não demora para que o leitor se veja imerso em novos planetas, descritos com precisão e ritmo. A tripulação é pequena, apenas quatro membros, e a história é narrada por Ariadne, a líder da expedição. O livro também é pequeno, cerca de 140 páginas, mas há tempo para a construção de relacionamentos, que é o que Chambers faz de melhor.

Amei o primeiro livro que li da autora, “A longa viagem a um pequeno planeta hostil”, e esperava ter amado “To be taught”, mas não foi bem assim. Gostei do livro, não entenda mal, mas pra mim ele tem dois problemas. O primeiro é que, lá pelas tantas, Ariadne toma uma atitude pouco condizente com a personagem e, se Chambers realmente quisesse aquela cena, poderia ter entregado a outro personagem, com ganho para a trama. O segundo é o final. Detestei o final. Mas veja, eu detestei, você pode curtir. Não é objetivamente ruim. Então, sim, recomendo a leitura.

Estrelinhas no caderno: 3 estrelas

Parque dos Dinossauros

A semana passada foi temática: dinossauros em “The Last World” e em “O Parque dos Dinossauros”. O livro de Michael Crichton foi leitura do #lendoscifi e também do #JornadaLendoSciFi, ambos projetos da @soterradaporlivros.

“Parque” foi releitura, mas como li há mais de vinte anos havia pouca coisa que eu lembrava. A premissa, porém, é inesquecível graças ao filme: um sujeito milionário acha que clonar criaturas pré-históricas e criar um parque temático com elas é uma boa ideia. O que pode dar errado, não é mesmo?

Há várias diferenças entre o filme e o livro, e a mais marcante é que o livro dedica mais espaço às explicações científicas em geral e à filosofia de Ian Malcom em particular (meu personagem favorito). A primeira metade é cheia dessas explicações, espionagem industrial e outros backgrounds, e é minha parte preferida.

Quando o livro entra nas cenas de ação, fica devendo. Michael Crichton não é tão hábil em escrevê-las quanto é na parte teórica, e a ação acaba sendo confusa, desinteressante ou simplesmente desnecessária em alguns casos.

O desfecho tem diferenças em relação ao filme (e uma delas é imperdoável). Os personagens também guardam certas diferenças. No geral, é um raro caso de o-filme-é-melhor-que-o-livro. Ainda assim, é recomendado para quem está nostálgico do filme e/ou quer se aprofundar nas especulações científicas da história.

Estrelinhas no caderno: 3 estrelas

O Mundo Perdido

Ontem terminei dois livros da maratona #JornadaLendoSciFi, organizada pela minha amiga @soterradaporlivros e o primeiro foi “The Lost World” de Arthur Conan Doyle.

No meio da Amazônia, animais pré-históricos ainda vivem, diz o Professor Challenger. Para provar as suas alegações, uma expedição é organizada e nela está Malone, um jornalista movido pela esperança de impressionar a mulher que ama – ele será o narrador das aventuras. Malone é uma espécie de Watson, funcionando como o ponto de ligação entre o leitor e os personagens cientistas.

O livro tem os problemas típicos da literatura europeia do séc. XIX e começo do XX: machismo, menosprezo por outras culturas, civilizações e etnias, imperialismo e arrogância. Mas… tem dinossauros! E tem personagens divertidos! Ri muito do Professor Challenger e passei boa parte do livro comparando-o ao Tio Patinhas em meio a uma missão dos Duck Tales. O final reservou cenas surpreendentes.

Acabei me divertindo muito – inclusive achei melhor que os romances de Sherlock (talvez empate com O Cão dos Baskerville). Foi uma das minhas leituras favoritas do #projetoexploradores.

Estrelinhas no caderno: 3 estrelas