Livro: Movimento 78

Livro da vez: Movimento 78, de Flávio Izhaki.

No fim do século XXI, há dois candidatos à presidência do mundo: uma inteligência artificial chamada Beethoven e o humano Kubo. As pesquisas apontam que a IA é franca favorita. No último debate antes das eleições, Kubo tenta convencer a audiência de que é melhor ser governado por humanos imperfeitos do que por máquinas frias.

Como em Bolo Preto, que resenhei outro dia, a narrativa é fragmentada, mas aqui funciona porque há um fio condutor claro, um propósito. Entre uma pergunta e outra do debate eleitoral, o livro apresenta o passado de Kubo, suas heranças familiares e flashes de como a humanidade chegou ao ponto de cogitar entregar seu futuro a robôs (claramente O Exterminador do Futuro não existe na realidade desse livro).

Movimento 78 é a melhor ficção científica nacional que já li. A escrita é cuidadosa, a língua portuguesa é respeitada (coisa rara em autores contemporâneos nacionais), os personagens são bem construídos e eu me vi interessada não só no destino político da Terra, mas nas histórias pessoais. Boa ficção científica é isso: foco nos personagens e nas suas motivações, não bordões engraçadinhos ou descrições mirabolantes.

Minha única queixa é o pequeno número de páginas. Eu gostaria de mais tempo na companhia de Kubo e sua família.

Indico para quem está à procura de boa literatura nacional contemporânea, gostando ou não de ficção científica.

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas

Livro: Lolita

Livro da vez: Lolita, de Vladimir Nabokov.

Todo mundo conhece a sinopse desse clássico: homem de meia idade seduz menina de doze anos. Eu sabia bem pouco além disso e por anos hesitei por causa do tema. Bobagem. Lolita é um romance excelente, envolvente, com personagens intensos e que em momento algum glorifica a pedofilia.

Ao contrário: Humbert Humbert é um ser abjeto, sabe disso e não tenta suavizar sua monstruosidade ao narrar os anos que passou com Lolita. Um leitor inexperiente talvez acredite no comportamento lascivo que ele atribui à sua “ninfeta” , mas narradores em primeira pessoa não são confiáveis por definição (Machado de Assis que o diga) e, além disso, o próprio Humbert se encarrega de demonizar a si próprio, em meio a comentários irônicos e autodepreciativos.

Como pano de fundo, o autor apresenta as paisagens e a sociedade norte-americana dos anos 40. Humbert vê ambos com olhos de estrangeiro, ora elogiando, ora tecendo críticas. Criador e criatura têm em comum o fato de serem expatriados.

Algumas passagens são chocantes, mas assim é a boa ficção: provocativa, chocante, incômoda. A escrita às vezes se torna rebuscada – Humbert Humbert é um erudito, afinal de contas – e determinados trechos poderiam ser abreviados, mas em momento algum o livro é enfadonho. A força dos personagens e o drama da narrativa não permitem.

Indico para leitores maduros porque, embora seja uma leitura fascinante, evidentemente não é leve.

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas

Filmes favoritos em maio de 2022

Século XXI

O Homem Duplo (2006): adaptação fiel do romance de Philip K. Dick, dirigida por Linklater, com o mesmo visual de Waking Life. Um policial trabalha disfarçado no combate às drogas e aos poucos perde a fronteira entre sua personalidade real e a inventada. Excelente crítica às próprias drogas e aos métodos de combate. O Homem Duplo é a leitura de junho do #LendoSciFi, organizado pela @soterradaporlivros. 4 estrelas

Insônia (2002): um detetive de Los Angeles e seu parceiro são enviados para o Alaska para investigar um assassinato. Além do drama local, terão de lidar com seus próprios fantasmas. Como não gostar de um filme em que Al Pacino faz o policial e Robin Williams faz o bandido? 5 estrelas

Retratos de uma Obsessão (2002): um laboratorista fotográfico solitário se revela mentalmente desequilibrado e um potencial risco para seus clientes. Novamente Robin William como vilão. Esse e o filme anterior foram indicações da @smiletic. 4 estrelas

Direto do Túnel do Tempo

Um País de Anedota (1949): um tesouro da Borgonha é encontrado no meio de Londres e os residentes daquela rua se descobrem borgonheses. Comédia ligeira em que os ingleses riem de si mesmos. 4 estrelas

Tudo que o céu permite (1955): uma viúva se apaixona por um sujeito mais novo e mais pobre e tem que lidar com a rejeição de vizinhos, amigos e família. Triste retrato do que se esperava das mulheres nos anos 50. 4 estrelas

O que terá acontecido a Baby Jane? (1962): uma antiga estrela de cinema atormenta sua irmã paraplégica. Filme pesado e talhado para confundir o espectador. 4 estrelas

Livro: Procurando Jane

Livro da vez: Procurando Jane, de Heather Marshall.

Evelyn, Nancy e Angela estão ligadas por histórias de maternidade que remontam aos anos 60 e chegam até os dias atuais. A autora costura as vivências dessas três mulheres canadenses, desde as horrendas “casas de amparo maternal”, que faziam tudo menos dar amparo, até as tentativas de um casal para conceber um filho, passando pela legalização do aborto no Canadá, em 1988, após muita luta.

O texto por vezes descamba para o melodrama, mas ainda assim – ou justamente por isso – vi-me enredada pelas histórias das protagonistas, por seus anseios, expectativas, sofrimentos e conquistas. Foram vários os capítulos que me fizeram fungar (ou chorar mesmo). Procurando Jane é uma história de ficção, mas construída a partir de experiências bem reais, e é difícil não se emocionar em alguns momentos.

Como diz a autora, Procurando Jane não é sobre aborto, mas “sobre maternidade. Sobre querer ser mãe e não querer ser mãe e todas as áreas cinzentas entre os dois extremos. É sobre até onde as mulheres estão dispostas a ir para dar fim a uma gravidez ou para ficarem grávidas. (…) E o mais importante: é sobre mulheres se apoiando em suas escolhas individuais e sobre as consequências dessas escolhas”. É também sobre amor: amor platônico, romântico, maternal, filial, amor por uma causa. Sendo sobre amor, termina por ser sobre sacrifício.

Foi coincidência ler Procurando Jane semanas antes de vir a lume o movimento norte-americano para revogar o direito das suas cidadãs ao aborto seguro. Não existe lei ou jurisprudência capaz de efetivamente proibir mulheres de abortarem. O que a proibição e o tabu fazem é que algumas podem pagar profissionais decentes, ou viajar para países em que o procedimento é legal, enquanto outras, as pobres, a maioria, caem nas mãos de açougueiros ou charlatães, ou tentam por conta própria, correndo risco de morte ou de sequelas. Proibir o acesso ao aborto é elitista, segregacionista e cruel.

Indico para quem quer desenvolver uma visão compassiva sobre o tema e para quem busca um romance que, embora não seja leve, é fluido e interessante.

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas