Sem Sangue

Escrito originalmente para a Revista Paradoxo, em 04/11/2008.

É apenas para efeito didático que se marca data para começo e fim de uma guerra. As sementes da Segunda Guerra Mundial começaram a germinar muito antes da invasão da Polônia por Hitler em setembro de 1939 – há quem a defina como mais um capítulo da guerra iniciada em 1916. Da mesma maneira, não se imagina que quando o último soldado norte-americano se retirar do Iraque a guerra terá, de fato, chegado ao fim para os sobreviventes. Na vida que se desenrola além dos livros de História, não existem linhas pontilhadas marcando pontualmente o início e o fim de uma guerra para aqueles que sofrem seus efeitos devastadores. Sejam eles classificados formalmente como vitoriosos ou vencidos.

O término oficial de uma guerra é o ponto de partida para o romance Sem Sangue, do italiano Alessandro Baricco. O escritor faz questão de deixar claro que o texto é ficcional e não fornece informações geográficas ou temporais que permitam ao leitor situar a história. Todas as guerras são, afinal, iguais na dor, nas feridas e nos traumas que causam.

No livro, alguns homens vão à caça de um médico. O ronco do Mercedes anuncia a aproximação e o doutor trata de esconder sua filha num buraco, sob a casa de fazenda isolada. Entrega a ela uma arma, conservando outra para si, e prepara-se para o embate. A primeira impressão é a de que os tais homens no carro são os inimigos, os implacáveis vilões – até que se descobre o envolvimento do médico nos horrores da guerra da qual saiu derrotado.

Décadas depois do confronto na casa isolada, ainda há sobreviventes. A guerra, para eles, não havia acabado no dia determinado pelas autoridades passadas; não acabara na casa de fazenda; e não tem fim até o dia em que se encontram. O curto romance apresenta uma história de morte e vingança em que não é possível tomar partido.

Baricco não se apega a descrições, mas suas frases precisas constroem imagens vívidas e mergulham o leitor numa trama que surpreende e atordoa. É livro com cara de filme, de roteiro pronto para pular para as telas. Enquanto Seda (esse sim, transformado em filme em 2007) conquista pelo lirismo, Sem Sangue impressiona pela dureza. Uma dureza poética.

Trechos

Por mais que a gente se esforce para viver uma única vida, os outros verão outras mil dentro dela, e é por essa razão que não conseguimos evitar de nos machucarmos.

Já não se podia voltar atrás, quando as pessoas começam a se matar não se volta mais atrás. Não queríamos chegar àquele ponto, os outros começaram, depois não houve mais nada a fazer.

Ficha

  • Título: Senza Sangue
  • Autor: Alessandro Baricco
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 81
  • Cotação: 5 estrelas
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Jean Charles

Ficha Técnica

  • Título: Jean Charles
  • País: Brasil
  • Ano: 2009
  • Gênero: Drama
  • Duração: 1 hora e 30 minutos
  • Direção: Henrique Goldman
  • Roteiro: Marcelo Starobinas e Henrique Goldman
  • Elenco: Selton Mello, Vanessa Giácomo, Luís Miranda, Patrícia Armani, Maurício Varlotta, Sidney Magal, Daniel de Oliveira, Marcelo Soares, Rogério Dionísio.
  • Sinopse: Jean Charles de Menezes (Selton Mello) é um eletricista mineiro que mora em Londres e ajuda na chegada de sua prima Vivian no país onde já vive com Alex e Patrícia. Muito comunicativo, Jean Charles conhece muita gente se envolve em várias situações. Em 22 de julho de 2005 ele é morto por agentes do serviço secreto britânico no metrô local, confundido com um terrorista. O fato abala a vida dos primos, que precisam reconstruir a vida ao mesmo tempo em que buscam por justiça.

Comentários

Jean Charles

A história todo mundo conhece: o mocinho morre no final. Então, por que assistir a Jean Charles?

Porque é um filme redondo, em que atores e cenografia se complementam para desenvolver um enredo que, embora obviamente previsível, emociona. Ao longo do filme, o espectador se envolve com as aventuras de Jean Charles, um de milhares de mineiros que emigram ilegalmente para tentar ganhar a vida. Jean divide um apartamento pequeno com dois primos e ajuda a trazer mais uma para viver com eles a fim de juntar dinheiro para tratar da mãe que tem diabetes.

Jean não é um modelo de cidadão. Dá o perdido nos funcionários da imigração no aeroporto de Londres, enrola o próprio chefe (também brasileiro), encarna o típico malandro – não daqueles que habitam o Congresso Nacional, bem entendido, mas daqueles que fazem trambiques pra levar o dia-a-dia. É bem-humorado, esperto, divertido e disposto a ajudar os amigos, embora nem sempre as coisas corram da forma desejável.

Esse é um dos méritos do filme, aliás: não querer santificar Jean Charles. Ele era apenas um brasileiro como tantos outros. O que o diferencia é o assassinato estúpido de que foi vítima pelas mãos da polícia londrina, paranóica com o terrorismo. Outro mérito da produção é, justamente, resgatar uma história que ainda não teve fim, visto que ninguém foi responsabilizado pela morte de Jean Charles. Mas a tragédia e o que seguiu-se a ela ocupa pouco mais de um quarto do filme. O foco está mesmo na luta pela sobrevivência do grupo de brasileiros ilegais ao qual pertence Jean. Por isso mesmo o filme captura a atenção e emociona, mesmo conhecendo-se o desfecho.

Cotação: 3 estrelas

Curiosidades

Sidney Magal especializou-se em pontas. Lá está ele, como ele mesmo, durante uma festa para brasileiros em Londres. (A festa até aconteceu, mas o cantor na ocasião foi Zeca Pagodinho).

Jean Charles é a primeira coprodução Brasil/Inglaterra.

Patrícia Armani é realmente prima de Jean Charles, interpretando a si mesma no filme.

Não contente com a morte absurda de Jean Charles, o sujeito que chefiava a polícia londrina na época do incidente, Ian Blair, tenta reescrever a história em autobiografia a ser lançada em breve. Segundo ele, se Jean Charles fosse o terrorista procurado, os agentes mereceriam uma medalha de honra. Bem, se aqui nevasse todo mundo usava esqui.

Em 23 de novembro de 2009, foi paga uma indenização de cem mil libras para a família de Jean Charles, a título de acordo. O valor corresponde a cerca de um terço do que os advogados da família pediram e, segundo o jornal Daily Mail, seria maior se Jean Charles viesse de família rica.

O tal Ian Blair recebeu 400 mil libras ao renunciar ao cargo de chefe da polícia metropolitana de Londres.

Até hoje, nenhum policial foi responsabilizado pela morte de Jean Charles.

Serviço

Imagem: divulgação.

Paraíso Perdido

Escrito originalmente para a Revista Paradoxo, em 06/08/2008.

Há livros que, mesmo em prosa, transbordam poesia. Assim é Paraíso Perdido, de Cees Nooteboom, escritor holandês de destaque e um dos convidados da FLIP 2008. Não por acaso, ele empresta o título do poema épico do inglês John Milton ao livro, referenciado em diversos momentos da história.

A protagonista da história de Nooteboom é Alma, uma paulistana que embarca após sofrer um estupro para a Austrália em busca de um mundo mitológico. Sonhadora, ela idealiza os aborígenes, habitantes ancestrais da região, elevando-os à categoria de anjos – mais um grupo na narrativa que exerce fascínio.

A primeira parte do livro é narrada sob o ponto de vista de Alma e o leitor é tragado por seus pensamentos e sonhos líricos. A amiga Almut, que a acompanha na aventura, é sua única ligação com a realidade. É ela quem se ocupa das questões pragmáticas, como por exemplo a logística da viagem e as formas de se conseguir dinheiro. O que prevalece, no entanto, é sempre o devaneio, somado pelo mergulho de Alma em si mesma e numa cultura em que, afinal, não corresponde ao seu idealismo. Não que uma mudança não se transcorra: ela se torna um anjo aos olhos de outros.

Nooteboom muda o tom e o fluxo da escrita várias vezes. Da primeira para a terceira pessoa; do presente ao passado e novamente ao presente; de uma ponta do planeta à outra; da concretude à subjetividade. As alterações estruturais enriquecem e tornam o texto mais envolvente, transmitindo com maior precisão o sentimento que o permeia: a vida é imprevisível, feita de desencontros, caminhos errados e mal-entendidos. Nada se molda às nossas expectativas – ao contrário, as crenças precisam ser refeitas a partir do que vamos encontrando a cada curva. Clichês têm validade limitada e cedem frente à realidade crua.

O próprio ato da escrita e suas decorrências são objeto de análise de Nooteboom. Como a crítica literária, profissão a que se dedica Erik Zondag, personagem da segunda metade do livro.

Paraíso Perdido consegue ser leve e melancólico a um só tempo. Ao leitor, cabe fugir à tentação de racionalizar os meandros da história – melhor é senti-la, perdendo-se na sua fluidez.

Trechos

Tornei-me inabordável, soberana. Se fosse um instrumento musical, produziria a mais bela das músicas. Sei que não posso dizer nada dessas coisas a quem quer que seja, mas juro que é verdade. Pela primeira vez na vida entendi o que queriam dizer na Idade Média quando falavam da harmonia das esferas. Estou fora, e não apenas vejo as estrelas, também as ouço.

Nesse mundo tudo se dá ao mesmo tempo: poesia, a maneira integral como vivem; é muito sedutor para as pessoas que vêm de algum lugar onde quase tudo está errado. A conseqüência é que tudo, ou quase tudo, se aniquila. Não é isso o que todo mundo vem buscando desde sempre, o paraíso perdido?

Ficha

  • Título original: Lost Paradise
  • Autor: Cees Nooteboom
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 153
  • Cotação:  estrelas
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Romance

Ficha Técnica

  • Título: Romance
  • País: Brasil
  • Ano: 2008
  • Gênero: Drama
  • Duração: 1 hora e 40 minutos
  • Direção: Guel Arraes
  • Roteiro: Guel Arraes e Jorge Furtado
  • Elenco: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Vladimir Brichta, José Wilker, Marco Nanini, Edmilson Barros, Bruno Garcia, Tonico Pereira.
  • Sinopse: Pedro (Wagner Moura) é um ator e diretor de teatro, que se apaixona por Ana (Letícia Sabatella), também atriz, ao contracenarem na peça “Tristão e Isolda”. O namoro é afetado pelo posterior sucesso dela na TV, impulsionado pela empresária Fernanda (Andréa Beltrão). Além disto, ao gravar um especial de TV, Ana conhece Orlando (Vladimir Brichta), um ator por quem se apaixona.

Comentários

Romance

Romance é um desses grandes filmes que, por razões que a própria razão desconhece, passou batido pelo grande público.

A história acontece em dois tempos: o primeiro começa no teatro e marca o encontro e a paixão de Pedro e Ana enquanto ensaiam a clássica montagem Tristão e Isolda. É Pedro quem discorre sobre a importância dessa trama do século XII para a literatura mundial, pois a partir dela tornou-se frequente o tema do amor impossível. Esse primeiro arco rende belas homenagens à literatura e ao teatro. Embora haja a marca de Guel Arraes nessa primeira etapa, com os duelos de palavras por exemplo, ela é suave, com espaço para pausas, olhares e simbolismos

No segundo tempo da história, tem-se nítida a verve de Guel Arraes. Os diálogos se aceleram e as piadas são mais frequentes. Nesse segundo momento o filme faz referência à televisão – chamar de “homenagem” seria exagero, já que há uma boa dose de ironia, não faltando críticas à pasteurização das produções televisivas e ao culto à celebridade. Estão presentes nessa segunda metade a ambientação no Nordeste (traço frequente em Guel Arraes) e o indefectível Marco Nanini (excelente, como sempre).

O roteiro passeia por outras histórias de amor consagradas, como a de Otelo e Cyrano de Bergerac – todas inspiradas no mito de Tristão e Isolda, na infelicidade dos amantes. O amor nunca realizado ou efêmero, esse amor que tanto inspira os artistas, é o grande reverenciado em Romance.

O elenco é de tirar o chapéu. Wagner Moura está particularmente fantástico, destacando-se pela extrema versatilidade – não só comparando-se este trabalho aos anteriores, mas também dentro do próprio filme, conduzindo as idas e vindas de seu personagem com maestria. O restante do elenco, maravilhoso, e a direção musical de Caetano Veloso fazem deste um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos.

Cotação: 4 estrelas

Serviço

Imagem: divulgação.