Dia de Folga » Opinião com gelo e laranja.

Se o Trato Feito negociasse órgãos…

Publicado em 09/03/2012, em crônicas. Tags:

- Boa tarde.
- Boa tarde, o que a traz aqui?
- É que eu tenho um rim sobrando, não estou precisando dele agora… e tenho algumas contas pra pagar… então, pensei em vender.
- Ainda bem que você quer vender, esse tipo de coisa não dá pra penhorar. E quanto você está querendo nele?
- Bom, eu andei pesquisando e o preço de mercado é 10.000.
- Para o comprador certo, pode ser. Mas eu ainda vou revender, não posso pagar o preço de mercado.
- Eu sei, por isso pensei em pedir 5.000.
- Não, 5.000 não dá pra pagar, muito caro.
- Caro nada, é metade do preço! E meu rim está ótimo, eu sempre bebi muita água, faço exercícios, nunca tive pedra… ele está como novo!
- Eu acredito, mas entenda o meu lado. Eu tenho despesas fixas, a manutenção da loja, os funcionários, e ainda preciso ter o meu lucro.
- …
- Lamento, não posso pagar os 5.000.
- Hum. Então, qual é o seu preço?
- Posso dar 500.
- Mas 500 é muito pouco por esse rim! Ele é um item raro, eu só tenho outro igual, e ele está em ótimo estado! Só estou vendendo porque preciso do dinheiro, senão ficaria com ele pra sempre! Ele é muito bom, mesmo!
- Eu entendo, mas com essa crise, o mercado está fraco, quase parado. As pessoas não estão com dinheiro, sabe? Por outro lado, a oferta está muito grande, por qualquer iPad você consegue um rim novinho.
- Está certo, eu te faço por 2.500, você ainda lucrará muito! Não é qualquer rim, o meu tem procedência, tem certificado de boa saúde, cara.
- Olha, se eu já tivesse comprador pra esse rim, eu poderia pagar 2.500. Acontece que eu não tenho. Vou ter que procurar, anunciar, e até achar alguém eu vou precisar armazenar o rim. Não sei quanto tempo ele vai ficar na vitrine até ser vendido, e vou ter várias despesas com ele até encontrar um interessado. Não é todo dia que entra alguém por aquela porta precisando de um rim.
- Mas eu sou tipo O, sou doadora universal!
- Ainda assim. Há muitos doadores tipo O por aí. Além disso, o rim ser do tipo O não é garantia de conseguir um comprador logo.
- …
- Sinto muito, 500 é minha melhor oferta.
- Por 500, acho que prefiro ficar com ele.
- Ok, a decisão é sua. Fica pra próxima.

(Do lado de fora da loja, para a câmera.)

- Esses caras são uns exploradores! Tenho certeza de que consigo até mais de 10.000 no meu rim, só preciso encontrar o comprador certo. Eu vou encontrar, e depois vou voltar aqui pra esfregar na cara desses otários! Eles vão se arrepender por terem perdido o negócio!

(Inspirada em um bate-papo real. Se você não conhece o Trato Feito, aqui está.)

Seda

Publicado em 08/03/2012, em livros. Tags: , , ,

Seda - capa

Eis um livro perfeitamente definido pelo título. Seda é como o tecido: fluido, suave, leve, quase etéreo.

Hervé Joncour é um francês comum que compra e vende ovos de bichos-da-seda, em meados do século XIX. Quando o comércio com os países próximos entra em crise, a alternativa é trazê-los diretamente do Japão. Tratava-se de empreendimento de risco: o homem precisava deixar seu lar na Europa, submeter-se a uma extenuante viagem e contar com um tanto de sorte para não se deixar sucumbir (ou ao frágil contrabando) por guerras e outros percalços. Trabalho de meses e meses.

O homem faz a viagem. Justamente ele, pacato, tedioso, placidamente casado, encara a missão espinhosa de trazer à sua cidade os bichos-da-seda. Nesta aventura, a vida começa a descortinar-se diante de quem, até então, fora mero espectador; e continua desabrochando a cada nova viagem. O Japão é um mundo desconhecido, mágico. Do encontro entre oriente e ocidente emerge uma forte paixão.

O texto é lírico como foram as viagens para o protagonista. É necessário lê-lo com esse mesmo lirismo, apreciando a prosa como se fosse poesia, sem a pretensão de desvendar cada metáfora, cada descrição. Como num sonho, a história vai-se revelando mais ao coração que ao intelecto.

Prefiro, do mesmo autor, Sem Sangue, preciso como Seda, porém bruto; mas Seda é, sem dúvida, um livro fascinante. O romance deu origem ao filme Silk em 2007, traduzido no Brasil como Paixão Proibida, com Keira Knightley no elenco.

Trechos

Era, além disso, um daqueles homens que amam observar a própria vida, julgando imprópria qualquer ambição de vivê-la. Deve-se registrar que esses homens observam seu próprio destino da maneira como os outros, mais numerosos, costumam observar um dia de chuva. (p. 11-12)

- A primeira vez que vi Hara Kei, ele vestia uma túnica escura, estava sentado com as pernas cruzadas, imóvel, num canto do cômodo. Estendida ao lado dele, com a cabeça apoiada em seu colo, havia uma mulher. Seus olhos não tinham o corte oriental, e o rosto era o de uma menina.
Baldabiou continuou a escutar, em silêncio, até o fim, até o trem de Eberfeld.
Não pensava em nada.
Escutava.
Fez-lhe mal ouvir, no fim, Hervé Joncour dizer devagar
- Nunca mais ouvi nem ao menos sua voz.
E pouco depois:
- É uma dor estranha.
Devagar.
- Morrer de saudade de algo que nunca voltará. (p. 99-100)

Ficha

  • Título original: Seta
  • Autor: Alessandro Baricco
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 121
  • Cotação: 4 estrelas
  • Encontre Seda ou o filme Paixão Proibida.

Você planeja seu orçamento doméstico?

Publicado em 28/02/2012, em consumo. Tags:

Eu não planejo há quase 10 anos.

Isso não chega a ser um problema porque sempre me sobra algum dinheiro no fim do mês (na verdade, parei de fazer orçamento doméstico exatamente quando o dinheiro começou a sobrar). Por outro lado, dia desses peguei-me pensando: quanto preciso para viver, de fato? Se acontecer uma catástrofe ou se eu quiser pôr em prática um Plano B, qual é o mínimo necessário para pagar as minhas contas?

A resposta a essa pergunta foi ridícula: não sei.

Sei que preciso de menos do que eu ganho, mas quanto é esse “menos”?

Não sei.

Viciada em organização como sou, tive de admitir que minha organização financeira não é boa, mesmo que minha saúde financeira seja.

Então, criei vergonha na cara e comecei a testar planilhas eletrônicas de orçamento doméstico. Claro que eu poderia começar uma do zero, completamente personalizada, mas não tenho a menor paciência para montar uma planilha do nada. Também poderia simplesmente usar um caderninho, mas o apelo de uma planilha eletrônica que me poupasse dos cálculos chatos era mais forte.

Aí, entrou uma outra questão. Uso diariamente dois computadores diferentes. Eventualmente, ainda uso um terceiro (um netbook). Se a planilha estivesse apenas em um dos dispositivos, fatalmente eu esqueceria de anotar um gasto ou outro; se estivesse nos três, teria um trabalho extra para mantê-las sincronizadas (usá-la num pendrive também se caracteriza como “trabalho extra”).

A melhor solução seria usar uma planilha que pudesse ser atualizada de qualquer computador com internet, estando sempre sincronizada. E que lugar melhor para isso que o Google Documents?

Só que nem toda planilha funciona bem no Google Docs – algumas perdem fórmulas, outras perdem formatação. Felizmente, isso também não é problema: existem centenas de templates para o Google Docs e entre eles estão vários modelos de planilhas para orçamento doméstico, com total compatibilidade com o Docs.

Escolhida a ferramenta, chegou a hora de testar alguns desses templates até achar o que me fosse mais satisfatório. E o vencedor foi… o Best Personal Budget Planner. Esse modelo é completo, cheio de gráficos que ajudam a identificar os maiores gastos, fácil de atualizar e, ainda por cima, bonito! Nada pior que trabalhar em um arquivo feio, bagunçado, apertado ou com letras brancas sobre fundo preto.

Guia do planejamento doméstico mensal.

Planejamento doméstico mensal do Best Budget Planner.

O passo seguinte foi salvar o Best Personal Budget Planner com outro nome e adequá-lo ao meu uso, mudando os nomes de algumas categorias e seguindo as regras de uso da última aba (a planilha tem sete abas, a última dedicada exclusivamente a instruções).

Estou usando a planilha há pouco mais de uma semana e continuo encantada com os seus recursos. Ela é tão completa que pode intimidar no começo, mas rapidinho você pega o jeito – e a eficiência do sistema compensa qualquer dificuldade inicial de uso.

Se você ainda não faz um planejamento do orçamento doméstico, considere o seguinte:

  1. Que ferramenta é mais fácil pra você? Caderno? Planilha eletrônica? Um serviço online de planejamento doméstico, como o Mint? Um app para iPhone? Escolha.
  2. Feita a escolha, teste diferentes modelos, sistemas e aplicativos que se apliquem a ela. Analise sua facilidade de uso e, por que não, sua beleza. Dê-se algumas semanas para fazer um teste completo.
  3. Aqui pode ser o momento de rever a escolha feita no primeiro item.
  4. Ferramenta em mãos, coloque-a em uso. O melhor momento é no dia do seu próximo pagamento.

Se também quer usar o Best Personal Budget Planner, observe essas dicas:

  1. Sim, a planilha está toda em inglês, mas na verdade são poucas palavras e textos curtos – mesmo que você não domine o idioma, vale gastar uns minutinhos no tradutor do google para superar essa barreira. Estou traduzindo-a aos poucos, conforme preencho os valores diários e/ou planejados para cada categoria de gastos.
  2. É essencial ler a aba SETUP (a última guia) para configurar a planilha e tirar o melhor proveito dela.
  3. Você deve escolher entre usar a aba Quick Budget ou a Budget by Month. Elas são excludentes. Preferi a segunda, por ser bem mais completa.
  4. Depois de escolher uma dessas duas abas, lance nela os valores previstos para o mês em cada categoria – tanto os valores a receber quanto os pagamentos a fazer. Veja bem: esses são os valores previstos para o mês, não os efetivamente realizados.
  5. Na guia Tracking, você deve lançar os valores efetivamente recebidos e os gastos efetivamente realizados.
  6. Na aba Comparison, você tem automaticamente a comparação dos valores previstos com os realizados, e pode se ajustar durante o mês, ou pensar num planejamento melhor para o mês seguinte.
  7. A aba Daily Spendings é o “pulo do gato”, a melhor parte dessa planilha. Nela, você anota as despesas e as entradas diariamente – assim não corre o risco de esquecer nada. Ela não é interligada a nenhum das outras abas, o que quer dizer que você precisa copiar as somas mensais para o Tracking. Meu conselho é o seguinte: preencha os gastos diariamente e copie as somas de cada categoria (que a planilha faz automaticamente, na última coluna) para o Tracking uma vez por semana, para ter uma análise constante dos seus gastos – não deixe para o último dia do mês, ou pode ter uma surpresa desagradável.
  8. Siga as instruções acima dos gráficos para configurá-los adequadamente.

Garanto que é mais fácil do que parece. ;)

Você faz algum tipo de controle do orçamento doméstico? Que ferramenta prefere? Compartilhe!

Um Ano Sem Comprar – Janeiro

Publicado em 24/02/2012, em consumo. Tags: ,

Apenas essa semana ocorreu-me compartilhar mês a mês minha experiência de um ano sem compras. Deixei um comentário no blog da Marina dizendo que os textos dela são uma inspiração e acabei me lembrando de algumas pessoas que me falaram o mesmo quando comecei o desafio… então, nada mais justo que dividir como tem sido esse caminho, não é? Assim, uma vez por mês vou fazer uma atualização do desafio por aqui.

Mal tinha começado o desafio, e quase deslizei – e pior, inconscientemente! Estava no supermercado quando vi uma colher de servir sorvete fofa, laranja (adoro a cor!), por menos de 20 reais. Sem nem pensar, pus no carrinho. Minha sorte foi que, antes de passar no caixa, eu me toquei do vacilo: “ei, ano sem compras, não posso levar esse supérfluo!”. Diga-se de passagem que já tenho uma colher de sorvete, teoricamente ótima, mas nunca me entendi muito bem com ela.

Minimalismo - Saber Viver

Clique para ler a reportagem.

Enfim. Deixei a colher. No mesmo supermercado, tinha visto um conjunto de petisqueiras de cerâmica lindo por uns 20 reais e quase morri de paixão. Nesse dia, acabei me dando conta de que o mais difícil, durante o ano, não será abrir mão de comprar maquiagem, roupas, sapatos, nada disso – porque, a bem da verdade, desde 2010 eu tenho diminuído os gastos com esses itens. O mais difícil será deixar de comprar coisinhas para a minha casa. Sei não, mas acho que eu comprava mimos para a casa numa base quase semanal, sem sequer dar-me conta.

Poucos dias depois dessa constatação, fui entrevistada para uma matéria sobre minimalismo pro Correio Braziliense. O Max achou meu blog, sugeriu a entrevista e, de quebra, indiquei duas amigas que me servem de exemplo nessa revisão de hábitos de consumo: a Karla (arquiteta que está encarregada do projeto do meu futuro lar, doce lar) e a Vanessa (ex-dona de um Ka rosa – foi por causa dele que nos conhecemos! -, gateira e viajante de carteirinha). Elas também foram entrevistadas e a matéria ficou bem bacana – se você não leu, é só clicar na foto ao lado (se um plugin for solicitado, ignore e clique no link “baixar” que estará à direita – é um pdf). Quando o jornalista me perguntou qual era a parte mais difícil da brincadeira, respondi que era justamente abandonar as comprinhas para a casa.

(Uma correção: onde se lê “Quanto mais ‘destralho’ na casa, mais leve fica o meu dia a dia”, leia-se “Quanto mais destralho a casa, mais leve fica o meu dia a dia” – “destralho”, aqui, é conjugação do verbo “destralhar” ;) )

Outra coisa que não é muito fácil é passear no shopping. Não tem jeito, aquele treco é feito para o consumo e é impossível sair sem vontade de alguma coisa. E as benditas faixas anunciando as liquidações de janeiro?! Vontade de provar tudo… mas provar pra quê, se não compraria nada? Se não preciso de nada?

Por fim, teve uma visitinha a um brechó com uma amiga. Vi um vestido roxo (uma das minhas cores favoritas para roupas), com saia evasé (amo!), de tricô (perfeito para o inverno…) e baratinho, 50 reais. Ai! Nem experimentei. Talvez devesse ter provado para, vendo-o no corpo, julgá-lo horrível, mas vai que ele ficasse perfeito, né?

Depois desse dia, decidi que posso até entrar em lojas para acompanhar amigas durante esse ano, mas sem tocar em nada. De preferência, com as mãos amarradas para trás e uma venda sobre os olhos.

Apesar de tudo isso, devo admitir que janeiro foi mais tranquilo do que eu imaginava. Achava que a tortura das liquidações seria maior, achava que o primeiro mês seria pior, mas tudo ficou dentro do razoável. Será que vai ficar mais difícil com o passar do tempo?

Lu MonteA autora mora em Brasília e atende por Lu (de Luciana). Ou Lu Monte, já que há um monte de Lus. Mais?

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