Vestígios do Dia (livro e filme)

Livro da vez: “Vestígios do Dia”, de Kazuo Ishiguro.

Steven, um velho mordomo inglês recorda seus tempos áureos a serviço de um controvertido lorde no período entre-guerras. As recordações se sucedem durante uma viagem pela Inglaterra para encontrar a governanta com quem trabalhou longamente, e com quem espera voltar a trabalhar.

Steven é como um cão fiel – de guarda, não de companhia. Vive para agradar e mal se dá conta das renúncias que fez ao longo dos anos. São sutis as suas demonstrações de emoção, normalmente percebidas por outros e não por ele próprio. A relação com a Srta. Kenton, a ex-governanta, é central no livro e um dos principais pontos de interesse da leitura; o outro é o pano de fundo histórico.

A escrita é penumbrosa, típica de Ishiguro. O autor tem por hábito cativar o leitor aos poucos e emociona não por meio de grandes episódios, cenas apoteóticas ou frases de efeito, mas pelos detalhes da narrativa.

Vi o filme um dia depois de terminar o livro (não, não tinha visto ainda). A fotografia é muito bonita, a reconstituição da época é excelente, as atuações são impecáveis. Fica faltando, porém, a aura brumosa e meditativa do livro. Falta o lento desvelar da mente de Steven. Tudo é mais óbvio e imediato na tela. Provavelmente isso é inevitável, dadas as diferenças entre as mídias, mas o livro sai ganhando por ser mais sutil.

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas para o livro, 4 estrelas para o filme.

À espera de um milagre

Livro da vez: “À espera de um milagre”, de Stephen King.

Eu lembrava do filme, de ter visto no cinema e de ter chorado. Achava que estava preparada para o livro. Ledo engano.

Stephen King costuma me fazer chorar com as histórias sobre pessoas e não sobre monstros. Nesse livro, a construção dos personagens é excepcional, e só tendo um coração de pedra para não se emocionar com Joe Coffey, com o que ele viveu e com o que é capaz de fazer. Só não tendo coração para não ficar com os olhos cheios de lágrimas lendo as reminiscências de Paul, o antigo guarda da milha verde – a ala dedicada aos prisioneiros condenados à morte – que, velho e retirado em uma casa de idosos, relembra o passado.

Os monstros são muito humanos, o que sempre me desnorteia mais (Supernatural feelings). Os inimigos são o sistema de justiça, o racismo estrutural e a pena de morte.

Aproveitei para rever o filme, que foi muito feliz na adaptação do livro e tem atuações memoráveis. Dessa vez não chorei, porque já tinha esgotado as lágrimas ao longo da leitura.

Livro do projeto #lendoKing, da @soterradaporlivros e da @seguelendo (que continuará em 2021).

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas

Flores Azuis

Resenha de hoje: “Flores Azuis”, de Carola Saavedra.

Duas histórias cruzadas: uma mulher que envia cartas ao ex após o fim abrupto da relação; um homem recém-divorciado que se mudou para o apartamento daquele ex e resolve abrir as cartas.

A mulher, que assina apenas como “A”, indica já nas primeiras linhas que o relacionamento era abusivo, violento. O recém-divorciado, Marcos, não vê sua filha de três anos como uma criança, mas como mais uma mulher manipuladora, em sua vida. Nenhuma das histórias “de amor” narradas no livro é saudável, nenhum dos protagonistas é equilibrado.

A tensão é suavizada pela alternância das narrativas e por ser uma história curta, menos de 160 páginas. A prosa flerta com o fluxo de consciência, mas insere elementos suficientes do mundo externo para facilitar a leitura. É livro para uma manhã ou tarde, com um desfecho que se abre a múltiplas interpretações. A sensação de incômodo perdura além da leitura, pelo infeliz realismo das histórias e por ser impossível gostar dos protagonistas.

Estrelinhas no caderno: 3,5 estrelas

Cisne Negro

Ficha Técnica

  • Título: Black Swan
  • País: Estados Unidos
  • Ano: 2010
  • Gênero: Drama
  • Duração: 1 hora e 48 minutos
  • Direção: Darren Aronofsky
  • Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder, Vincent Cassel.
  • Sinopse: Beth MacIntyre (Winona Ryder), a primeira bailarina de uma companhia, está prestes a se aposentar. O posto fica com Nina (Natalie Portman), mas ela possui sérios conflitos interiores, especialmente com sua mãe (Barbara Hershey). Pressionada por Thomas Leroy (Vincent Cassel), um exigente diretor artístico, ela passa a enxergar uma concorrência desleal vindo de suas colegas, em especial Lilly (Mila Kunis).

Comentários

Cisne NegroSe eu soubesse que Cisne Negro é do mesmo diretor de Réquiem para um Sonho, não teria ido ao cinema. Felizmente, não sabia. Se por um lado Cisne Negro tem a mesma tratativa psicológica de Réquiem, a coisa vertiginosa de entrar na mente da protagonista, por outro é um filme menos angustiante que seu antecessor, e nada depressivo.

Provavelmente o que torna Cisne Negro mais ameno que Réquiem é sua obviedade. O tema central é clichê (como é clichê o próprio Lago dos Cisnes): a dicotomia em várias formas, bem/mal, claro/escuro,  infantilidade/amadurecimento. O diretor recheia o filme de metáforas, mas faz questão de explicá-las todas; com isso, não chega a entediar (aliás, o filme não entedia em momento algum), mas subestima o expectador. Se bem que, ainda assim, vi gente sair do cinema dizendo que não tinha entendido o filme.

Essa tendência a explicar tudo nos míííínimos detalhes dá uma folga quando o assunto é o mundo interior de Nina, a protagonista. Os conflitos diários da moça acabam se convertendo em violentas alucinações e, em alguns momentos, fica difícil para a platéia distinguir delírio de realidade, como é difícil para a própria Nina. Ainda agora, pergunto-me se algumas cenas (e até personagens) realmente existiram (dentro do universo do filme, é claro) ou se não passaram da imaginação de Nina.

Sim, há cenas de sexo e masturbação no filme, como já foi comentado ad nauseam pela imprensa. Todas, contudo, servem a um propósito. Nada está deslocado, nada é “nojento” ou “sujo”, como li em uma crítica tão virulenta que me faz pensar que o tal crítico tem sérios problemas para lidar com a sexualidade feminina.

Um dos grandes méritos do filme é a edição envolvente, com um movimento das câmeras que faz um excelente trabalho em capturar as sensações da dança. Boa parte do ambiente tenso, perturbador mesmo, é criada pela excelente montagem. Outro ponto forte são as interpretações, todas ótimas – a de Natalie Portman, irretocável (ou “perfeita”, como diria sua personagem). Talvez, ainda assim, não seja filme para Oscar. A uma, pelas obviedades já mencionadas. A duas (e, de certa forma, numa crítica correlacionada), pelo mau uso de computação gráfica em diversos momentos, chegando a “quebrar o clima” do filme e desviar a atenção do trabalho magistral de Natalie Portman.

Aliás, se pode haver dúvidas quanto ao merecimento do Oscar de melhor filme, tem-se a certeza absoluta de que Natalie Portman merece o Oscar de melhor atriz principal. A moça faz um papel excepcional após o outro desde os onze anos, já foi indicada por Closer e dessa vez excede qualquer expectativa. Se não levar a estatueta, será pura injustiça.

Cotação: 4 estrelas

Curiosidades

  • Natalie Portman, que sempre foi mignon, emagreceu dez quilos para o papel. Em alguns ângulos a magreza é tão intensa que chega a dar agonia. Diz-se que, a certa altura da filmagem, o diretor implorava que ela comesse alguma coisa.
  • A atriz fez balé clássico dos 4 aos 12 anos. Para interpretar o papel, submeteu-se a um treinamento de quase um ano, com direito a dores intensas. Durante as filmagens, deslocou uma costela (e continuou gravando). Ainda assim, foi usada uma dublê (a bailarina profissional Sarah Lane) para as acrobacias mais complexas e os close-ups abaixo da cintura.
  • Mila Kunis (Lilly) também emagreceu cerca de dez quilos para o papel, chegando a absurdos 43 quilos. Treinou intensamente por quatro meses, sofreu várias lesões e deu declarações dizendo que nunca mais quer dançar. Também foi usada uma dublê para as cenas mais elaboradas.
  • O orçamento do filme foi de míseros 13 milhões de dólares – tão baixo que, quando Natalie Portman deslocou a costela e precisou de tratamento médico, teve de abrir mão do seu trailer para obtê-lo.

Serviço

Imagem: divulgação.