1808

1808 - capa do livroHistória era minha matéria favorita na escola. De fato, até quis ser historiadora por um tempo (e depois, arqueóloga; depois, socióloga – mas essa já é outra história). Assim, é claro que não poderia deixar passar 1808, livro que despertou apenas elogios quando foi lançado. Quando vi que se enquadra como livro-reportagem (segundo o próprio autor, na página 24), percebi que era a chance perfeita de finalmente lê-lo, dentro do Desafio Literário; e digo que não só li, mas devorei suas páginas.

1808 é um livro fácil, despretensioso, ligeiro e interessantíssimo. Laurentino Gomes não construiu um texto propriamente linear, mas estruturado em capítulos curtos, cada qual dedicado a um tema: ora volta-se para a colônia, ora retorna ao Reino de Portugal sitiado pelos franceses, depois descreve Carlota Joaquina, ou D. João VI, ou outros nomes desconhecidos dos livros didáticos de história (como o Padre Perereca), para então tratar da queda de Napoleão, e assim por diante. O resultado é um livro cheio de personagens instigantes e fatos curiosos, todos bem situados na história, mas que nem por isso se tornam uma sucessão enfadonha de genealogias e datas. Seria formidável se os adolescentes pudessem estudar História do Brasil e Geral em livros desse tipo (apesar de adorar História, lembro bem da chateação que era a decoreba exigida por alguns professores), embora entenda que essa ideia é um tanto utópica.

Em linhas gerais, todos conhecem o tema: a família real portuguesa foi acuada pelo império napoleônico, fugiu para sua principal colônia e iniciou um período de prosperidade para o Brasil, simbolizado principalmente pela abertura dos portos (ainda que a única beneficiária, de início, tenha sido a Inglaterra). São os detalhes que importam: as crônicas de costumes, as observações dos estrangeiros que para cá vieram, os hábitos e vícios dos colonos e dos colonizadores. A corte real portuguesa era antiquada, praticamente medieval, carola e sem sofisticação(como, de resto, era o povo que governava); numerosa e tendo saído às pressas da Europa, precisava de tudo ao chegar à colônia. Os brasileiros eram vulgares, sem modos, sujos (com suas casas e ruas, mas muito dedicados ao asseio do próprio corpo), incivilizados e incultos. Tiveram inúmeras propriedades confiscadas para atender aos interesses da família real, o que poderia ter desencadeado uma revolta, mas já ali mostravam sua tendência a levar tudo na piada, fazendo graça de suas próprias desgraças. Se eram explorados pelo colonizador, também levavam vantagem aumentando preços e angariando títulos de nobreza, numa toma-lá-dá-cá que é bem conhecido ainda nos dias de hoje. Não ganharam refinamento de uma hora para a outra, mas um polimento superficial foi dado aos costumes e à cidade do Rio de Janeiro, com alargamento de vias, cuidados com lixo e esgoto e iluminação pública. Afinal, a sede de um império europeu não podia continuar tão desmazelada.

Particularmente chocante é o capítulo que trata da escravidão: os maus-tratos, a grande taxa de mortalidade e os castigos brutais sofridos pelos negros trazidos da África não são desconhecidos de quem estudou História, mas são apresentados em riqueza de cores e exemplos em 1808, dando forma aos relatos frios dos livros tradicionais e às placas em museus que ainda hoje guardam instrumentos de tortura.

É justo dizer que brasileiros e portugueses se viam com recíproca desconfiança, mas acabaram aliando-se, ajudando-se mutuamente e beneficiando-se dos treze anos em que a corte portuguesa esteve no Rio de Janeiro. Apesar dos desmandos, da parasitagem e da corrupção (ah, os problemas que até hoje perduram), apesar da volta atabalhoada a Portugal ter custado o erário brasileiro, apesar de toda a exploração, o estabelecimento do governo de D. João VI no Brasil promoveu uma unidade à colônia que talvez não fosse conquistada de outra forma. Como destaca Laurentino Gomes, aí começou a formação da identidade brasileira.

Para o bem e para o mal.

Ficha

  • Título original: 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil.
  • Autor: Laurentino Gomes
  • Editora: Planeta
  • Páginas: 414
  • Cotação: 5  estrelas
  • Encontre 1808.
Este texto faz parte do Desafio Literário 2011, cujo tema em maio é livro-reportagem. Conheça o Desafio Literário.

Os melhores projetos de que participei [Desafio das Listas #12]

Fico aqui na minha, quietinha… e acabo não participando de muita coisa. Falta tempo (não vivo de blogs) e também falta organização por aqui, pra fazer tudo de que eu gostaria.

Mesmo assim, graças ao Dia de Folga participei de projetos muito bacanas:

1. O Deusario, coletivo da queridíssima Nosphie. Demorei pra encontrar meu tema por lá, mas adoroo que encontrei e os textos que já produzi. Preciso escrever mais!

2. O LuluzinhaCamp, com sua filial aqui em Brasília, que me deu a chance de conhecer tanta gente bacana.

3. O Porto Cai Na Rede, projeto para divulgar o turismo em Porto de Galinhas que me deu quatro dias fantásticos em excelente companhia.

Este texto faz parte do Desafio das Listas.

As melhores ideias que já tive para o blog [Desafio das Listas #11]

Será que sai um Top 5 dessa vez? Tenho lá minhas dúvidas. Como sempre digo, sou ótima para executar, mas péssima para ter ideias. Sem mais delongas…

  • Ir ao primeiro BlogCamp, em 2007. Não foi algo que diretamente tenha contribuído para o Dia de Folga, mas indiretamente trouxe muitas coisas boas. Conheci pessoalmente um monte de gente legal, estreitei laços e aprendi horrores.
  • O slogan, “opinião com gelo e laranja”, que serviu de inspiração para o logo. Deu trabalho, foram dias tentando sair com algo decente… e gostei do resultado.
  • A pesquisa do perfil dos leitores (se você ainda não respondeu, pode mandar bala!)
  • Passar a bola, ou melhor, o layout, pra quem entende das coisas: o Rodrigo Ghedin e o Thiago Nascimento fizeram um trabalho fantástico.
  • Parar de me preocupar com monetização, SEO e afins. Era uma canseira e um tédio. O ddf aceita publicidade e tem um midiakit, mas não quero gastar o tempo que eu poderia usar para escrever preocupando-me com estatísticas.

É, até saiu um Top 5. 🙂

Este texto faz parte do Desafio das Listas.

Como lido com as críticas [Desafio das Listas #10]

Críticas vêm por comentários e emails.Dentro do espírito do Desafio, a pergunta de hoje é: como lido com as críticas que recebo nos blogs?

Tendo-se em conta que a maioria delas chega via comentários, isso também é um resumo de como lido com eles aqui no Dia de Folga e no Cadê o Atum?. Basicamente, são três as reações possíveis.

Ignorar

Em 2007, fiz um texto relacionando os 10 melhores seriados de todos os tempos, na minha opinião.  Até hoje, é um dos artigos mais comentados do ddf e, como o povo não se dá ao trabalho de ler, recebo xingamentos de gente dizendo que a lista está errada, é absurda, eu sou maluca… e por aí afora. Cacilda, deixa eu repetir: é a minha opinião. Você não tem que concordar. Nem eu concordo mais, diga-se de passagem. Se quiser dar a sua opinião, faça-o educadamente.

Isso pra não mencionar os sujeitos que citam séries que nem existiam quando fiz a lista.

O sujeito que parte para a agressão (a mim ou a outros comentaristas) também é ignorado e, de quebra, tem seu comentário sumariamente apagado. Perdeu o tempo dele, achando que isso aqui é a casa da mãe joana.

Quem resolve dar sua própria opinião e o faz com civilidade fica lá, com o comentário aprovado (mesmo que mencione séries que nem existiam em 2007). Eu ignoro, ou seja, não bato boca, porque opinião é como aquilo que você pensou: cada um tem o seu.

Essa, aliás, é a minha postura geral: não bato boca em comentários. Eu dei a minha opinião ao escrever, você discordou e morre aí o assunto.

Corrigir

Quando escrevo algo errado, ou que não ficou claro, e um leitor me chama a atenção, faço a correção e, ato contínuo, agradeço ao comentarista. Se a correção me chega por email, o agradecimento também segue por email.

Já quando o comentarista fala algo errado, dou-me ao trabalho de corrigi-lo se acredito que isso vá agregar informação aos futuros leitores. Caso contrário, entro no modo Ignorar e apago o comentário pelo bem da nação.

Essas correções que faço aos comentaristas são mais comuns no Cadê, porque lá procuro informar sobre gatos e dissipar mal-entendidos e preconceitos. No Dia de Folga, o caráter é opinativo, então essas correções são mais escassas, mas existem – no caso da marula, deixei um comentário esclarecendo que não, ela não é a mesma coisa que pequi.

De todo modo, evito que a coisa caia para o bate-boca. Se o sujeito quer continuar espalhando desinformação, preconceitos ou mentiras, que vá fazê-lo em outro canto – seus comentários passam a ser apagados.

Refletir

Vez por outra, recebo críticas que demandam uma pausa para análise. Às vezes são sobre a forma dos blogs, às vezes sobre a frequência das postagens, mais raramente sobre o conteúdo. De vez em quando, chegam também sugestões de temas. Nesses casos, penso sobre o que disse o leitor e, mais à frente, essa opinião pode trazer-me uma mudança de comportamento, um novo texto ou até uma reestruturação no blog.

Essas são as críticas mais construtivas e também as mais raras.

Este texto faz parte do Desafio das Listas.

Imagem: lizerixt, royalty free.