O Manifesto Holstee e uma dica para você fazer seu próprio manifesto.

Ainda terei um desses em casa:

Holstee Manifesto

O Manifesto Holstee foi criado por dois irmãos norte-americanos que em 2009, no meio da crise econômica e sem emprego, decidiram abrir um negócio próprio. Eles dizem “nós escrevemos um manifesto, mas nunca escrevemos um plano de negócios”.

A empresa decolou (seus produtos são feitos de material reciclado e a preocupação com um meio-ambiente sustentável é a tônica), mas o Manifesto Holstee fez muito mais sucesso do que poderiam prever. Em resumo, o texto afirma que vida é simples, a vida é curta; estamos aqui para fazer o que amamos, para criar, para inspirar e compartilhar nossas paixões. Vale a pena ser lido todos os dias para não perdermos o foco no que realmente importa.

O Manifesto Holstee já ganhou diversas versões, inclusive em vídeo (esse tem legendas em português). Muita gente também tem se inspirado no formato para criar seu próprio Manifesto. Que tal aproveitar esse início de 2012 e criar o seu, como o site Creating Clever propõe?

Você pode aproveitar o modelo oferecido pelo site como ponto de partida (se bem que não recomendo uma parte dedicada a “I will not” – destacar afirmativas positivas é sempre bem melhor que escrever na negativa), inspirar-se na galeria de manifestos compartilhados ou criar o seu do zero. Depois, leve a uma gráfica para imprimir em papel de boa qualidade e pendure-o em local visível para lembrar-se dos seus propósitos em 2012.

Aliás, você já parou para pensar no que quer pra sua vida esse ano?

Meu Top 5 de Músicas Bregas

Inspirado pelos comentários recentes sobre Michel Teló (vamos combinar que já apareceu coisa muito pior que ele), o Janio fez uma coletânea de músicas bregas dos anos 70 e 80. Já eu, inspirada pelo meu amigo, fiz minha própria seleção, meu Top 5 de músicas bregas dos anos 80 e 90. Duvido que você não cante junto com a maioria desses vídeos!

1. O Amor e o Poder (“Como uma deusaaaaaa…”)

A primeira música brega que grudou na minha memória – e na de muita gente que nasceu no fim dos anos 70 e acompanhou a novela Mandala. O clipe é brega, a dancinha é brega, mas a Rosana fazia um sucesso monumental e era considerada uma “cantora romântica”. Afinal, qual é a linha que separa o romântico do brega?

 2. Volta Pra Mim (“Amanheci sozinho… na cama, um vaziiio…”)

Adooooro Roupa Nova até hoje, mas admito que de vez em quando (sim, só de vez em quando) eles são bregas até a medula. Essa música marcou meus 8 anos. Eu costumava cantar a plenos pulmões no quintal de casa, enquanto brincava no balanço.

3. Desculpe, Mas Eu Vou Chorar (“As luzes da cidade acesas, clareando a foto sobre a mesa…”)

Grandes Leandro e Leonardo! O sr. e a sra. Monte estavam retidos em algum lugar de Salvador devido a uma chuvarada típica de verão e eu estava no apartamento, vendo algum programa de auditório, quando começou essa música. Decorei a letra quase imediatamente.

4. Evidências (“Eu sei que te amo!”)

Essa a gente praticamente gritava o refrão no ônibus escolar, tentando imitar o timbre do Chitãozinho e Xororó, pra desespero do motorista.

5. Se Você Quer (“Mas eu sempre fui assim, um boêmio um sonhador, pela vida apaixonado.”)

O sr. Monte ia me pegar na escola em 1992 e duas músicas sempre tocavam durante o trajeto de volta: Listen to yout heart (Roxette) e esse dueto da Fafã de Belém com o Roberto Carlos. Alguém aí lembra de um sujeito que ia num programa de auditório (Domingão do Faustão?) e fazia as duas metades do dueto, inclusive com roupas, cabelo e maquiagem?

Faixa-Bônus: O Grande Amor da Minha Vida (“O tempo passou e eu sofri calado…”)

A Nova Brasil FM insistia em tocar essa música do Gian e Giovani insistia em tocar enquanto eu ia pra faculdade. Nunca esqueci o finzinho da música:

Eu ia dizer que estava apaixonado
Recebi o convite do seu casamento
Com letras douradas num papel bonito
Chorei de emoção quando acabei de ler
Num cantinho rabiscado do verso
Ela disse meu amor eu confesso
To casando mais o grande amor da minha vida é você

Aposto que você também tem sua seleção pessoal de músicas bregas. Compartilhe!

As Esganadas

As Esganadas - capa

Em seu quarto romance, Jô Soares retoma sua fórmula: um crime (ou melhor, uma série de crimes), um pano de fundo histórico (dessa vez, o momento escolhido é o Estado Novo, especificamente 1938), personagens reais desfilando ao lado dos fictícios e muitas risadas.

As Esganadas não segue a ordem natural dos livros de suspense, em que o leitor passa a história tentando descobrir quem é o assassino. Jô revela rapidamente o nome e a motivação do psicopata que odeia gordas, mas isso não tira a graça do livro. Ao contrário, o divertido é observar o delegado Mello Noronha às voltas com o mistério, auxiliado pelo português Tobias Esteves (pesonagem à la Sherlock Holmes), pela jornalista Diana de Souza e pelo fiel escudeiro Valdir Calixto.

As aventuras desse quarteto rendem ótimos momentos. Além do humor de tipo (afinal, há um personagem português!), Jô Soares abusa da ironia e do humor sutil, que numa leitura rápida até passa batido. De quebra, faz uma crítica ao preconceito da sociedade

Alguns dos personagens históricos são Aleister Crowley, Filinto Müller, Fernando Pessoa, Maria Clara Machado e, claro, Getúlio Vargas. É inevitável aprender ou recordar algo de História. Como sempre, possuir um pouco de cultura geral ajuda bastante a curtir os livros do Jô. Em certos momentos, ele até exagera nas explicações históricas, quebrando o ritmo da leitura, mas sempre é possível aproveitar esses trechos para aprender algo.

Não espere, no entanto, um livro denso. As Esganadas é leve (sem trocadilho), agradável (apesar dos crimes meio nojentos) e perfeito para as férias.  É muito mais engraçado que Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (o mais fraco de todos) e mais dinâmico que O homem que matou Getúlio Vargas, sendo meu segundo livro favorito do Jô – só perde para o imbatível O Xangô de Baker Street.

 Trechos

A funerária Estige passara de pai para filho desde a Guerra do Paraguai. Seu bisavô enriquecera devido a um contrato feito com o governo, sem licitação, intermediado pela namorada de um funcionário ligado ao gabinete do Ministério da Guerra. Tal contrato cedia exclusividade para o funeral dos soldados não identificados mortos no conflito. O escândalo da negociata fora abafado quando a imprensa descobriu que havia um número maior de enterros do que de combatentes mortos. (p. 18)

 

– O senhor é evangélico? – pergunta o curioso Calixto.

– Não, sou agnóstico.

– Agnóstico? O que é agnóstico?

– É um ateu cagão – define Mello Noronha, à sua maneira. (p. 47)

 

Existe um preconceito velado contra a obesidade. Na verdade, dificilmente os homens o sentem. Podem ser gordos inteligentes ou ricos ou oferecerem tantos outros atrativos. Quem sofre o problema com maior intensidade são as mulheres. As mulheres gordas. O leitor pode se escandalizar com o uso da palavra gorda. Os eufemismos mais comuns são: cheinha, forte, grande e, o mais ousado, gordinha.

Geralmente, acham que a gorda (odeio a palavra obesa) não tem força de vontade. Nem caráter. Nem vergonha na cara. A gorda é um pária; o excesso de peso, um divisor de águas. O próprio adjetivo é um palavrão. Ninguém se importa com o sofrimento ou com a humilhação da gorda.

Acham que ela é gorda porque quer. Observem o olhar triste das moças gordas varrendo as vitrines da moda. Os figurinos são para as magras. Alguns vendedores ainda informam sem se alterar: “Aqui é só pra pessoas normais, madame”. E a gorda se afasta engolindo o ultraje. Restam-lhe as lojas especializadas ou as costureirinhas de bairro. Para mim, anormal é o tratamento do vendedor.

A obesidade é democrática, não faz diferença de classe. Há gordas ricas e gordas pobres. Todas sentem a mesma reprovação silenciosa da sociedade. Existem gordas belas, mas, se a beleza é notada, há sempre um apêndice ao comentário: “O rosto é lindo. Pena que seja gorda”. (p. 95-96)

 

– Ser gordo ou se achar gordo são duas coisas diferentes – afirma Tobias Esteves. – Minha alcunha em Lisboa, junto aos colegas da delegacia, era Gordo; no entanto, não me acho gordo.

– O senhor não é gordo, é só um pouco baixo pro seu peso – declara o diplomático Calixto. (p. 107)

 

– É verdade, doutor Noronha – anima-se Calixto. – Terceiro lugar, numa Copa do Mundo, lá na Europa. Não é nada, não é nada…

– Não é nada – arremata Tobias Esteves, com sua lógica arrasadora. (p. 126)

 

A obra inicia com um prelúdio de cento e trinta e seis compassos representando o fluxo eterno do rio. Dura cerca de quatro minutos. Em sua autobiografia, Wagner menciona que a ideia surgiu quando estava sonolento num quarto de hotel, na Itália. Não esclarece se o prelúdio despertou-o ou fê-lo dormir de vez. (p. 187-188)

 

– Imenso prazer em revê-la e, se o marido me permite o elogio, linda e elegante como sempre.

– Nem tanto. Preciso perder dois quilos.

Tobias Esteves pontifica sobre o assunto:

– Senhora dona Yolanda, se me permite, sua declaração tem uma característica universal. Toda mulher do mundo acha que precisa perder dois quilos. O que disse já foi repetido em todas as demais línguas faladas no dito mundo civilizado. Sabe como a mulher chega a esta conclusão? Observando-se nas fotos. No espelho, ninguém se vê como realmente é. Diante do espelho, acontece uma correção inconsciente do corpo, e ela apresenta o melhor ângulo de si mesma. Numa fotografia, as pessoas aparecem chapadas no papel. Ninguém faz de si uma imagem real. Nos achamos um pouco melhores do que somos. Por isso é tão comum ouvir-se a frase: “estou horrorosa nesta foto!”. Geralmente, não é verdade. De modo que posso garantir à senhora, dona Yolanda, que a sua beleza é irreprochável.

– Muito obrigada, seu Tobias, mas a verdade é que eu preciso perder dois quilos. (p. 218)

Ficha

  • Título: As Esganadas
  • Organizador: Jô Soares
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 262
  • Cotação: 4 estrelas
  • Encontre As Esganadas.
Este texto faz parte do Desafio Literário 2011, cujo tema em dezembro são lançamentos de 2011. Conheça o Desafio Literário.

Neuromancer

Neuromancer - capa

No início da adolescência, apaixonei-me por ficção científica. Tive a sorte de ter uma biblioteca excelente a poucos passos de casa e devorei o que havia de Júlio Verne e Isaac Asimov. Passaram-se vários anos e, por razões que a própria razão desconhece, afastei-me do gênero. Não foi falta de interesse ou de tempo. Fato é que, por causa do Desafio Literário, revisitei a ficção científica em abril e descobri que meu amor por ela não diminuiu.

Neuromancer estava na fila de “ler um dia” há quase vinte anos, quando o descobri no catálogo da Editora Aleph (que abraçava o gênero com força nos anos 90). Há uns dois anos, achei uma edição num sebo e a trouxe pra casa. Entrou na lista do desafio e, embora tenha lido no prazo, não fiz a resenha a tempo. Como resenhar um livro desses? Não é fácil, não.

O mundo apresentado em Neuromancer é vertiginoso. O leitor é tragado para um futuro-não-muito-distante pessimista, bem diferente da tradicional ficção científica que trata de civilizações que evoluíram a ponto de resolverem todos os nossos problemas. A realidade de Neuromancer é distópica ou, mais especificamente, cyberpunk – termo cunhado posteriormente para designar as histórias que retratavam mundos avançados tecnologicamente, mas não moralmente.

Case, o protagonista de Neuromancer, é um marginal, um pária. Um hacker disposto a vender seus serviços a quem paga mais, independentemente de riscos e sem qualquer dilema de consciência. À beira da morte, é contratado para uma nova empreitada, com a promessa de ser curado caso tenha sucesso. Trata-se, no entanto, de uma ação de altíssimo risco. Para completar sua missão, Case terá de se embrenhar profundamente no cyberespaço (termo cunhado por Gibson e de tamanho impacto que acabou se tornando sinônimo de internet), arriscando sua sanidade ao entrar na matrix à procura de um constructo (a memória de alguém já morto) detentor de conhecimentos importantíssimos para os contratantes de Case. Para tanto, ele conta com a ajuda de Molly, seu elo com os contratantes e, em certos momentos, com a realidade (a imagem na capa do livro é uma representação da Molly). O desfecho da história é impressionante (e fãs de Star Trek encontrarão ali um motivo extra para gostar do livro).

William Gibson cobra do leitor um compromisso com a realidade inventada por ele. Gibson não se dá ao trabalho de explicar cada pedaço desse mundo. Felizmente, ele superestima a inteligência do leitor, obrigando-o a “comprar” seu mundo como se fosse algo normal, cotidiano. Isso torna o livro enxuto e dinâmico. Imagine que um escritor que criasse romances baseados no nosso mundo atual se preocupasse em descrever exatamente como funciona um telefone celular, ou a internet: seria profundamente entediante. Gibson cria elementos que até mereceriam detalhamento – por não terem correspondentes no mundo real – mas isso tornaria o livro profundamente monótono.

Neuromancer inspirou profundamente o filme Matrix – há quem diga, aliás, que Matrix é um plágio descarado. Prefiro ficar com a definição de Alex Antunes no prefácio da minha edição:

Digamos que Neuromancer e Matrix (principalmente a partir da sua segunda parte) se parecem com a versão adulta e a juvenil de uma mesma história. Ou que Matrix é o esboço da adaptação de Neuromancer para o cinema, que vem sendo prometida há anos e sempre adiada. (p. 7)

Seja como for, Matrix revolucionou a indústria de efeitos especiais e, por via indireta, essa revolução vai pra conta de William Gibson. Além disso, Neuromancer forneceu material para a criação de jogos de computador, RPGs e outras tantas histórias contadas ao redor do cyberpunk. Sem exageros, Gibson criou um novo universo, tão amplo quanto a imaginação permite, e ainda assim conetado à nossa realidade tecnológica.

Por ser uma história formidável e por ter essa enorme influência na cultura pop, não é exagero dizer que Neuromancer é um clássico.

Ficha

  • Título original: Neuromancer
  • Autor: William Gibson
  • Editora: Aleph
  • Páginas: 303
  • Cotação: 5  estrelas
  • Encontre Neuromancer.