Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

Ficha técnica

Eternal Sunshine of the Spotless Mind. EUA, 2004. Drama. 108 minutos. Direção: Michel Londry. Com Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst e Mark Ruffalo.

Homem introvertido se apaixona à primeira vista por uma vendedora de livros, mas o romance sofre reviravoltas. Roteiro de Charlie Kaufman, o mesmo de Adaptação.

Mais informações: Adoro Cinema

Comentários

5 estrelas

Detestei esse filme à primeira vista. Achei o trailer bobo demais. Para completar, não suporto o Jim Carrey, suas caras e bocas – só mesmo em O Máscara para ficar legal. Assim, firmei posição desde o primeiro momento: “esse filme, eu não vejo nem arrastada”. Só que uma amiga viu e falou muito bem do filme. Tão bem que comecei a rever meus conceitos: “ok, se não tiver mais nada interessante no cinema, talvez eu veja esse filminho”.

Aí, fui ao cinema na esperança de assistir Efeito Borboleta. Não dava mais pra pegar a sessão. Decidi ver Querido Estranho. Não estava em cartaz naquele shopping. Nem Farhenheit 11 de Setembro. O que sobrou? Adivinha…

Pois é. Fui, mas contrariada. A birra não durou nem quinze minutos.

De bobo, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças não tem nada. O Jim Carrey não chega a prejudicar. A Kate Winslet está ótima (pena que vem se rendendo aos padrões hollywoodianos de magreza). E a história dá o que pensar. Muito.

Quantas vezes você já não desejou que determinada coisa nunca tivesse acontecido? Quantas vezes não quis apagar da mente lembranças dolorosas? Rejeições, traumas, amores frustrados?

Acontece que somos a resultante dessas lembranças. Eu não seria a mesma, se não tivesse passado pelas experiências que vivi. Por piores que possam ter sido, são elas as responsáveis pelo que sou hoje. Deram-me força, experiência, maturidade, crescimento em certos aspectos.

Além disso, as coisas sempre vêm em pacotes completos. Um relacionamento, por exemplo, não é feito só de más recordações. Muito pelo contrário. Tive ótimos momentos com pessoas que, posteriormente, trouxeram-me dor e raiva. Quando a gente diz “seria melhor nem tê-lo(a) conhecido”, está desejando ser privada de muitas situações agradáveis.

Não escolheria deixar de viver horas, dias, meses e anos maravilhosos porque, tempos depois, trouxeram-me dor. Para cada lembrança triste, posso encontrar pelo menos uma de felicidade. Que causa certa tristeza também, admito – aquela pontada que deriva da saudade e da nostalgia. Isso ainda é infinitamente melhor que uma folha em branco.

Não escolheria ignorar aprendizados porque o sofrimento fez parte deles. Cedo ou tarde, teria que aprender certas lições, de qualquer forma.

Por outro lado, não gostaria de repetir experiências. As lembranças têm o seu lugar no passado. Não podemos viver delas, nem pretender recapitulá-las. Hemingway dizia que “não se deve voltar aos campos de batalha”. O filme, poeticamente, ignora esse conceito. Isso é até compreensível, dentro da ficção – para aqueles tiveram suas lembranças apagadas, as situações repetidas seriam, de fato, inteiramente novas.

No fim, tudo se resume a uma velha frase, dita por muitas pessoas, com diversas palavras, mas sempre trazendo o mesmo conteúdo: é melhor viver cada instante intensamente, assumindo as conseqüências boas e ruins, do que simplesmente passar pela vida.

Assista ao filme. Ele dá margem a muitas reflexões.

Cazuza – O Tempo Não Pára

Ficha técnica

Brasil, 2004. Drama. 100 min. Direção: Sandra Werneck e Walter Carvalho. Com Daniel de Oliveira, Marieta Severo e Reginaldo Faria.

O filme acompanha a vida de Cazuza (1958-1990), desde o início de sua carreira, quando ele cantava em inglês no Circo Voador, e seu relacionamento com os pais e os amigos.

Mais informações: Adoro Cinema.

Comentários

4 estrelas

Nunca fui tiete do Cazuza ou do Barão Vermelho, mas sempre curti as músicas, tenho um CD (coletânea), gosto quando toca alguma coisa na rádio. Lembro-me bem das últimas imagens do Cazuza, fraco, debilitado. Lembro o tanto que o desamparo dele me comoveu e, ao mesmo tempo, assustou. Em 1990, eu tinha onze anos, pouca coisa mais velha que a AIDS, da qual pouco se falava, ainda. Dizia-se que era uma doença cruel, mortal e que castigava os gays e os drogados. Sim, eram esses os termos. Não em casa, mas o que eu ouvia na rua passava sempre por aí. A AIDS era um castigo, uma maldição.

Com onze anos, ainda não compreendia a carga de preconceito por trás disso, mas entendia a face da morte apresentada pela AIDS e a dor que ela provocava. Gravou-se na minha memória a imagem do Cazuza como símbolo dessa dor toda. Fui ver o filme já esperando pela dose de sofrimento que, inevitavelmente, ele teria de mostrar. Uma história sem final feliz.

No entanto, Cazuza – O Tempo Não Pára não é um tributo à morte, mas uma ode à vida. O filme apresenta um garoto elétrico, um tanto rebelde, mas também um ser humano doce e sincero. Acima de tudo, fiel a si próprio. Alguém que viveu intensamente, loucamente, sim. Que teve defeitos, virtudes, amigos, amores, aventuras. Compôs grandes canções, fez sucesso, tornou-se o líder de uma das grandes bandas dos anos 80. Cresceu, mas permaneceu menino. Desesperou, mas contou com família e amigos para apoiá-lo. Sofreu, mas teve garra e não desistiu. Vida breve, mas aproveitada, sem dúvida.

O Daniel de Oliveira dá um banho de interpretação e, ao lado da excelente Marieta Severo, diverte e emociona o público. Dá bem para imaginar toda a preocupação que o Cazuza deu à mãe, mesmo assim sempre doce, amorosa, presente. Orgulhosa do filho que tinha, nunca envergonhada.

Vergonhoso foi um comentário cínico ouvido à saída da sessão (não por mim, mas por uma companheira de filme): “Se tivesse usado camisinha, isso não tinha acontecido”. Tem gente que não merece essa classificação, mesmo.

Eu me segurei para não abrir o berreiro nas cenas finais. Ainda assim, algumas lágrimas teimosas caíram.

O filme conta com um elenco de primeira, muito carismático, e um ritmo ágil, incapaz de entediar. Tem cenas feitas para chocar, o que é ótimo. Só desta forma, sem meias palavras, pode-se diminuir a hipocrisia e o preconceito. Se as pessoas devem ser julgadas, que o sejam pelo seu caráter, pela bondade ou maldade que exalam, não por suas preferências sexuais.

Mais um aspecto interessante é a tumultuada relação entre o incontrolável Cazuza e o perfeccionista Frejat, com direito a alguns momentos muito engraçados.

O Outro Lado da Rua

Ficha técnica

Brasil, 2004. Drama. 97 min. Direção: Marcos Bernstein. Com Fernanda Montenegro, Raul Cortez e Laura Cardoso.

Mulher solitária de 65 anos vigia prédios vizinhos de Copacabana com seu binóculo e acredita ter visto um homem aplicar uma injeção letal na mulher. Por conta própria, ela resolve segui-lo e eles acabam se envolvendo.

Mais informações: Adoro Cinema.

Comentários

3 estrelas

Tinha uma idéia completamente diferente do filme. Pelo trailer, esperava algo como um policial, ou um filme de suspense. No fundo, é quase um filme de amor. Um romance que aproveita para questionar a forma como vemos o mundo. Tudo é realmente como vemos? Extrapolando um pouco: nossos valores são os “melhores”? De quebra, discute a velhice.

A propósito, tenho um certo pânico de envelhecer. Mas, se for pra ficar como a Fernanda Montenegro (capaz, lúcida e bonita aos 75 anos), até que não reclamaria, não.

Os pontos altos  de O Outro Lado da Rua são as grandes interpretações de Fernanda Montenegro e Raul Cortez e os excelentes diálogos. Queria colocar um deles aqui, mas demorei demais para escrever e agora só me lembro de fragmentos.

Diários de Motocicleta

Ficha técnica

The Motorcycle Diaries. Peru/Chile/Inglaterra/Argentina/Brasil, 2004. Drama. 124 min. Direção: Walter Salles. Com Gael García Bernal, Rodrigo de la Serna e Mía Maestro.

O filme acompanha a viagem pela América do Sul do estudante de medicina Ernesto Guevara e do bioquímico Alberto Granado, que, em 1952, cruzaram o continente com uma moto. Do mesmo diretor de Central do Brasil e Abril Despedaçado.

Mais informações: Adoro Cinema.

Comentários

3 estrelas

Estava com o pé atrás quanto ao filme. Receava deparar-me com uma produção de índole doutrinadora, catequizadora. Felizmente, não é esse o foco principal da história.

A primeira metade de Diários de Motocicleta é plena de momentos cômicos. Impossível não rir diante das situações inusitadas em que se metem os protagonistas, várias delas causadas pela motocicleta, ironicamente batizada de “La Poderosa”. Na segunda metade, o roteiro recebe cores mais carregadas, mais trágicas e comoventes. A realidade de pobreza e abandono da América Latina é destacada. Ernesto Guevara começa a questionar uma série de coisas e leva consigo, nesse questionamento, o espectador.

É interessante comparar o Ernesto do início do filme com o de seu encerramento. O moleque ingênuo, honesto demais e absolutamente crente no mundo cresce muito nos seis meses durante os quais se desenrola a história. Adquire malícia, graças ao seu companheiro de viagem e às situações em que se vê metido. Principalmente, desenvolve um olhar crítico aguçado, que o faz dar novo rumo à sua vida. Essa é a parte da história que poderia ser chamada de “catequética”, porque tem o claro intuito de levar o espectador também à reflexão. Mais do que um discurso sobre política ou regime, no entanto, o que se vê é um questionamento sobre condições sociais e valores humanos, numa busca pelo rompimento de barreiras que não têm nenhuma outra razão de existir, a não ser a meramente “psicológica”.

Ponto alto: a belíssima fotografia (não, não vou comentar sobre o Gael, não o achei isso tudo).

Ponto fraco: poderia durar uns quinze minutos a menos.

Diários de Motocicleta ganhou o Oscar de Melhor Canção Original em 2005, pela lindíssima Al Otro Lado del Río, do uruguaio Jorge Drexler, primeira canção em espanhol a ser indicada ao prêmio (vale a pena procurar a trilha sonora do filme). A produção da festa, no entanto, não permitiu que ele cantasse a música na premiação, conferindo sua interpretação a Antonio Banderas. Drexler não se fez de rogado: ao receber a estatueta, cantou um trecho de sua música e terminou com um “Obrigado”.

Em tempo: não saia antes dos créditos finais, quando são exibidas fotos da viagem.