O Escafandro e a Borboleta

“Decidi parar de ter pena de mim mesmo. Além do meu olho, há duas coisas que não estão paralisadas: minha imaginação e minha memória.”
(Jean-Dominique Bauby)

Ficha Técnica

  • Título original: Le Scaphandre et le Papillon
  • País de origem: França/EUA
  • Ano: 2007
  • Gênero: Drama
  • Duração: 112 minutos
  • Direção: Julian Schnabel
  • Roteiro: Ronald Harwood, baseado em livro homônimo de Jean-Dominique Bauby.
  • Elenco: Mathieu Amalric (Jean-Dominique Bauby), Emmanuelle Seigner (Céline Desmoulins), Marie-Josée Croze (Henriette Durand), Anne Consigny (Claude), Patrick Chesnais (Dr. Lepage).
  • Sinopse: Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric), editor da Revista Elle, sofre um derrame cerebral e, quando acorda do coma, o único movimento que lhe resta no corpo é o do olho esquerdo. Bauby aprende a comunicar-se piscando e recria seu mundo a partir do que lhe resta: a imaginação e a memória.

Comentários

O Escafandro e a Borboleta À primeira vista, O Escafandro e a Borboleta lembra um grande sucesso de 2004, Mar Adentro.  Ambos baseiam-se em histórias reais de homens com mentes lúcidas, inteligentes e ativas presas a corpos inúteis.

As diferença entre esses dois vitimados pelo destino, porém, são muitas. Ramón Sampedro (Mar Adentro) passou a maior parte de sua vida preso a uma cama, ao contrário de Jean-Dominique Bauby. Por outro lado, Ramon era capaz de falar, enquanto Bauby só tinha seu olho esquerdo para comunicar-se com o mundo. Ramón luta pelo direito de morrer, enquanto Jean-Dominique decide agarrar-se à vida. Ambos escreveram livros: o de Ramón (Cartas do Inferno) narra seu sofrimento dentro de uma casca; já para Jean-Do, a feitura de O Escafandro e a Borboleta é o meio que ele encontra para sentir-se vivo.

As perspectivas diversas de Ramón e Jean-Dominique refletiram-se em filmes completamente diferentes. Mar Adentro é pesadíssimo. Lembro-me de ter chorado rios durante a exibição. Praticamente todas as cenas são construídas em torno do desespero de Ramón, mesmo quando ele não está presente. Achava que O Escafandro e a Borboleta seguiria pelo mesmo caminho, mas fui surpreendida.

Sim, O Escafandro e a Borboleta entristece. Claro que a visão de um homem totalmente paralisado parte o coração. As cenas em que Jean-Do encontra familiares e amigos são particularmente comoventes. Incrivelmente, no entanto, é possível rir em alguns momentos – por exemplo, quando Jean-Do  torce para que a enfermeira curve as costas só mais um pouquinho, a fim de dar-lhe uma melhor visão do seu decote. Os pensamentos de Jean-Do são partilhados com o público e revelam um sujeito bem-humorado, dono de um raciocínio mordaz e debochado e de uma tenacidade que se recusa a ceder diante da autopiedade.

À parte a excelente história, o que se destaca realmente  é a perspectiva escolhida pelo diretor Julian Schnabel para contá-la. Durante meia hora, o espectador é forçado a ver o mundo como Bauby, por meio de seu olho esquerdo, numa experiência angustiante. Você quer ver outra imagem, quer um novo ângulo e mais nitidez, mas precisa contentar-se com a visão limitada de Jean-Do. Não há trilha sonora, também – aliás, durante o filme são vários os momentos de completa ausência de música, alternados com um repertório de muito bom-gosto (a abertura, por exemplo, é ao som da clássica La Mer, de Charles Trenet).

Como sempre, fui ao cinema sem ler nada sobre o filme. Passei todo o tempo desejando a recuperação de Jean-Do, a superação da locked-in syndrome (ou “síndrome do encarceramento”, nome do raro estado que o acometeu após o derrame). Torci para que ele se libertasse do escafandro que encarcerava seu espírito, torci para que as metafóricas borboletas se tornassem reais.

Ele se recupera? Veja o filme para descobrir. De todo modo, o que importa é a perseverança heróica de Jean-Do e sua determinação de permanecer em contato com o mundo, mesmo restando-lhe apenas o olho esquerdo.

Cotação: 5 estrelas

Curiosidades

O Escafandro e a Borboleta concorreu em quatro categorias ao Oscar 2008: melhor diretor, melhor fotografia, melhor edição e melhor roteiro adaptado. Não levou nada, mas ganhou o Globo de Ouro 2008 por melhor diretor e por melhor filme estrangeiro.

No Festival de Cannes de 2007, ganhou o prêmio de melhor diretor e o Grande Prêmio Técnico, pelo trabalho de Janusz Kaminski. Kaminski é responsável, entre outras obras, pela fotografia de todos os filmes de Steven Spielberg[bb] desde A Lista de Schindler[bb].

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A síndrome “locked-in” é a completa paralisia de praticamente todos os músculos do corpo, exceto dos que controlam o movimento dos olhos. O paciente permanece alerta, mas confinado a um corpo inerte. Há diversas ocorrências no Google sobre o tema.

Serviço

23 thoughts on “O Escafandro e a Borboleta

  1. Não vi o filme….mas você escreve tão bem sobre,e cada vez melhor,que dá vontade de ver…

  2. Eu ia escrever um post, mas você disse tudo. Também adorei o filme, o segundo melhor de 2008 (meu primeiro da lista é Once – Apenas uma vez).

  3. Nossa, esses filmes costumam me angustiar tanto, que as vezes, prefiro nem vê-los.
    Olha só, você foi indicada pelo meu blog ao prêmio Dardo – “Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro mostra cada dia em seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc…, que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras.” se aceitar, é claro!

  4. Caraca Lu, leu meus pensamentos!
    Eu fui no cinema esses dias e fiquei encafifada com o poster desse filme. Se eu tivesse me lembrado assim que cheguei em casa, teria procurado alguma resenha sobre ele, mas a cabeça de vento, sabe como é, né?
    =D

    Indiquei seu blog num post de indicações que eu fiz no meu blog, tá?
    Bjocas

  5. Lendo essa resenha eu me pergunto porque colocam trilha sonora em filmes. Às vezes faz sentido, mas geralmente o filme perde a linha dramática de forma definitiva.

  6. Bender, há quem diga que trilha sonora boa é aquela que sequer é percebida pelo espectador. Eu sou apreciadora de trilhas de filmes, faço questão de prestar atenção nelas, mas concordo: às vezes, elas realmente atrapalham a história.

  7. agora, depois desse seu comentáio, é claro que vou assistir esse filme.Obrigada!!

  8. Eu tive o prazer de assisti-lo e realmente esse filme mexe com a nossa auto estima, a grandeza de jean-do quando consegue se comunicar com o mundo apenas por um olho faz com que valorizemos cada parte perfeita do nosso corpo. indico a todos. obrigada!

  9. Já ouvi falar muito desse filme, e nunca assisti. Com certeza agora vou ver ele, bela avaliação você faz dos filmes. Se quiser baixar algum filme, passe no meu blog.

  10. assiti Mar Adentro e me emocionei muito com o filme , por isso qd soube do escafandro e a borboleta a minha curiosidade foi tanta que virou questão de honra assisti-lo, mas por incrivel que pareça detestei o filme ( uma pena) pois a historia poderia render mais, o filme é muito cansativo, monotono, acreditem…dormi….
    Pra mim que esperava tanto foi frustrante assistir e me decepcionar tanto.
    Querem ver um bom filme???? vejam Mar Adentro.

  11. ainda sobre o filme longe de mim querer que o diretor fizesse da vida de jean um dramalhao mexicano, mas o filme peca pelo excesso de ,digamos, assepcia.

  12. ola, vi que vc falou mto bem do filme e agora mais do que nunca eu vu assistir ..trabalho numa locadora … esse filme tem uma ótima saida,e todos os clientes gostam…
    ah tenho uma perguntinha …. vc sabe o que significa “escafrando” , pq no dicionário, está como : Roupa impermeável e hermeticamente fechada, dotada de um aparelho respiratório, própria para longos mergulhos.
    mas acho que isso nada tem a ver com o filme …
    obrigada 😉

  13. É um filme capaz de nos fazer acordar para a vida.
    Simplesmente maravilhoso e, recomendaria a todas as pessoas…

  14. gostaria muito de saber o porque de O Escafandro e a Borboleta, qual o significado do filme com estas palavras. Sera que é porque ele estava preso na cama e a borboleta significa liberdade que ele nao poderia ter?

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