Cartagena das Índias

Fui a Cartagena em junho de 2016, numa viagem combinada com Bogotá. Cartagena é quinta maior cidade da Colômbia, mas nem parece, já que os turistas ficam “confinados” à região da cidade amuralhada – e isso não é ruim. A cidade é mais famosa por suas praias – e isso, sim, é ruim. As praias de Cartagena não são grande coisa e nem parece que você está no Caribe. O Nordeste brasileiro tem dezenas de praias infinitamente mais bonitas. Isso me decepcionou um pouco, mas encontrei outros atrativos na cidade e, de modo geral, recomendo a visita.

O que vale mesmo a pena em Cartagena são a arquitetura peculiar e a história da cidade, que foi sede do governo espanhol nas Américas durante o período colonial. Em 1984, o centro histórico (também chamado de cidade antiga ou cidade amuralhada/fortificada/murada) foi declarado patrimônio mundial pela Unesco.

Anoitecer em Cartagena.
Ruas charmosas e balcões floridos compõem Cartagena.

No frigir dos ovos, Cartagena me lembrou demais Salvador, com suas qualidades e defeitos.

Vamos aos detalhes.

Hospedagem

Não queria pagar o preço que os hotéis da cidade amuralhada cobram, então fiquei a uns dez minutos de caminhada, no bairro de Getsemaní. Acabou sendo uma ótima escolha para evitar o barulho da parte mais turística da cidade.

Fiquei no Zana, supostamente um hotel “boutique”. Na prática, era pouco mais que uma pousada e decepcionou. O quarto era minúsculo (para duas pessoas seria claustrofóbico, já que sequer tinha janela), a anunciada piscina é pouco mais que uma banheira grande e o chuveiro estava queimado, permanecendo assim todos os dias em que lá estive. O conserto estava marcado para dois dias depois da minha partida. Tudo bem que Cartagena é muito quente, mas mesmo assim não acho nada agradável tomar banho gelado logo ao acordar.

Por outro lado, o café da manhã era gostoso (servido em porções individuais, como costuma ser na América do Sul, não ao estilo continental) e a dona do hotel era muito prestativa, dando várias informações e reservando um táxi para a minha partida, no meio da madrugada (Só não foi prestativa para consertar o chuveiro, né.) O ar condicionado do quarto era excelente e a cama era ótima. Roupas de cama muito boas (mas toalhas muito ruins).

Café da manhã no Zana Hotel. (com fisális!) Café da manhã no Zana Hotel.

Tecnicamente, pode-se dizer (e o hotel diz) que Getsemaní está dentro da cidade amuralhada, porque há duas muralhas: uma interna (contramuralha), que a cidade antiga e a região turística por excelência, e outra externa, da qual sobram apenas poucos trechos. Getsemaní está entre as duas. É um bairro considerado boêmio, embora apenas algumas ruas o sejam (eu estava nessa área). O bairro é grande e a maioria dele é suja, pobre e pouco amigável. Getsemaní era a região onde viviam os pobres e miseráveis na era colonial, enquanto na cidade antiga vivia a elite.

Arte de rua no bairro Getsemaní.
Arte de rua no bairro Getsemaní.

Dito tudo isso, eu ficaria lá de novo, com as expectativas devidamente reduzidas. O Zana estava em reforma exatamente durante a minha estada, então talvez tenha melhorado. Ah, quase me esqueço: peça um quarto nos fundos se quiser mais silêncio.

Portal de las Reinas
Numa calçada na cidade antiga, as fotos das Misses Colômbia.

Onde comer

A gastronomia de Cartagena é para todos os gostos e todos os bolsos. O atendimento é sofrível na maioria dos lugares (eis uma das razões pelas quais a cidade me lembrou Salvador), mas há honrosas exceções.

Logo na primeira caminhada, descobri o Stefano’s Bistrô (Calle 31, em frente ao Parque Centenario que, por sua vez, fica em frente à Torre del Reloj, marco da entrada para a cidade antiga). Um achado! Preço justo, atendimento impecável, comida excelente, wifi e, maravilha das maravilhas, ar condicionado no talo. Comi camarões excelentes com arroz de coco e patacones. Patacones são plátanos (um tipo de banana comum por lá, muito semelhante à banana-da-terra, próprio para fritar) fritos e arroz de coco é… arroz feito com coco. É típico de Cartagena e uma das formas mais deliciosas de comer arroz. Em outra visita, comi tres leches, sobremesa típica dos nossos hermanos sulamericanos (não é exclusividade da Colômbia). Estava ótimo. O café preto, excelente.

Camarões, arroz de coco, patacones e guacamole, Stefano's Bistrô. Stefano's Bistrô

Um lugar badaladinho por lá é a Casa de la Cerveza, sobre a muralha externa. O espaço é enorme e quase todo ao ar livre. A brisa ajuda a aliviar o calor. As cervejas (na verdade, chopes) são muito boas, mas peça o copo pequeno pra não esquentar. A comida é razoável, o preço é caro e o atendimento é passável. Lugar bacana para encerrar o dia com petiscos e bebidas, mas não para jantar.

Casa de la Cerveza, sobre a muralha externa.
A Cartagena contemporânea ao fundo.

Outra dica fora da cidade antiga é a Laguna Azul, na entrada do Centro Comercial Getsemaní. O lugar é pouco mais que um boteco e a má vontade com turistas é flagrante (acabei ajudando uns holandeses que não falavam espanhol e eram solenemente ignorados). As mesmas pessoas que preparam a comida atendem as (poucas) mesas. O lugar tem horários de funcionamento aleatórios. Dito tudo isso, serve o melhor ceviche que já comi na vida, e por um preço excelente. Não é um lugar turístico (o que explica a má vontade), foi uma dica da dona da pousada e olha, que dica! Comi lá três ou quatro vezes. Dica: o boteco não tem banheiro, mas dentro do centro comercial há banheiros muito limpos (paga-se 700 pesos colombianos, uns 80 centavos de real).

Ceviche no Laguna Azul.
Ceviche no Laguna Azul.

A maioria dos bons restaurantes está dentro da cidade antiga.

Na cidade amuralhada, recomendo o El Baron Café, com chopes da BBC, excelente cervejaria artesanal colombiana. Comi uma entrada de champignon com crisp de presunto que não estava boa. O atendimento é bacana e o preço é puxado, mas vale pelo lugar muito agradável (tem wifi).

Falando em cervejas, por lá se vende uma chamada Club Colômbia, bem melhor que as brahmas daqui. A roja (vermelha) é bastante amarga, a rubia (loira) é mais leve (e a rubia long neck é mais leve que a mesma cerveja em lata).

Provavelmente o lugar que mais visitei em Cartagena foi a Gelateria Tramonti, com sorvetes artesanais (há outras sorveterias ditas artesanais pela cidade, mas essa é a única que recomendo). Preço justo por um sorvete de qualidade e matador no calor eterno da cidade. Todos os sabores são ótimos, mas recomendo especialmente o de breva (figo) por ser inusitado.

Há uma franquia da Crepes & Waffles (rede  de fast food onipresente em Bogotá) na cidade antiga. Opção para um lanche rápido e barato. Sem wifi.

Finalmente, o restaurante caro da vez. Em toda viagem tento fazer ao menos uma refeição mais elaborada, e o escolhido da vez foi o restaurante El Santísimo. Optei por um “pacote” de 145.000 pesos colombianos (algo em torno de 150 reais) que inclui entrada, prato principal e sobremesa, além de duas horas de bebidas. Nem todas as bebidas do cardápio estão disponíveis nesse menu especial, mas havia um bom Álamo Chardonnay, que foi a minha escolha. A entrada foi um carpaccio de polvo, o plato fuerte foi Salmon Vikingo (salmão assado com molho de mostarda, cebola caramelizada, aspargos e batatas rústicas) e a sobremesa foi La Lujuria (todas têm nomes de pecados capitais), um crepe de café com sorvete de creme e licor de menta. Tudo delicioso. O menu ainda incluiu água à vontade, café (excelente, como se espera na Colômbia) e licor (Bailey’s com gelo foi minha escolha). O restaurante é grande, com um visual elegante (não chega a ser sofisticado), e o atendimento foi primoroso, levando-me até a tomar mais vinho que o planejado. Recomendo muitíssimo.

Salmon Vikingo, Restaurante El Santísimo. Restaurante El Santísimo.

Não recomendo:

  • o badalado Café del Mar – caro e com atendimento sofrível, o que caiu muito bem, porque me levantei e fui embora. Fica sobre a muralha e é o “point” para assistir ao belo pôr-do-sol da cidade. Assista ao pôr-do-sol por ali, aproveite a música que o bar coloca para completar o momento, e vá embora.
  • La Cocina de Pepita, no Getsemaní. Super famoso, barato, comida supostamente boa, mas sempre lotado. Fiquei 20 minutos esperando mesa, vagaram duas ao mesmo tempo e o garçom queria me colocar numa minúscula, quase na porta e que estava vaga desde o início (fui embora, claro).

Queria ter ido ao Mar de las Antillas, no Getsemaní, que me foi muito bem recomendado, mas não tinha mesas disponíveis na área climatizada e não quis esperar.

Pôr-do-sol sobre a muralha externa, ao lado do Café del Mar.
Pôr-do-sol sobre a muralha externa, ao lado do Café del Mar.

Meios de transporte

A área turística é pequena e faz-se tudo a pé. Não vale a pena alugar carro ou andar de táxi pela cidade antiga – as ruas são apertadas e os pedestres têm preferência. Usei táxi apenas do aeroporto pro hotel e do hotel pro aeroporto.

Torre del Reloj. Bastante iluminada nesse dia por causa de um show na frente dela.
Torre del Reloj, a entrada para a cidade antiga. Mais iluminada que o normal nesse dia por causa de um evento.

Ao chegar no aeroporto de Cartagena, dirija-se ao guichê e diga para onde quer ir. Você saberá quanto terá que pagar ao taxista. Tenha dinheiro trocado, ou ele dirá que não tem troco e a corrida ficará um pouco mais cara.

Do aeroporto ao Getsemaní paguei 13.000 pesos colombianos; dará mais ou menos o mesmo até a cidade antiga. Na volta, foram 15.000, o que se justifica porque eram quatro da manhã. A dona do hotel contratou o táxi antecipadamente para que eu não corresse o risco de não encontrar nenhum.

Quanto tempo ficar

Quatro noites são suficientes. Eu fiquei seis e foi tempo demais, especialmente porque não curto praia.

Cartagena à noite.
Cartagena à noite.

O que fazer

Meus dias em Cartagena se passaram entre museus e caminhadas pela cidade antiga. É muito fácil perder-se e achar-se pelas ruas estreitas, e muito gostoso caminhar a esmo, admirando a arquitetura. Como o calor é intenso, deixava essas caminhadas para o fim da tarde (a noite é agitadíssima por lá e as lojas ficam abertas até pelo menos dez da noite – a maioria vai além desse horário).

Claustro de la Merced. O busto guarda as cinzas de Gabriel García Marquez desde maio de 2016.
Claustro de la Merced. O busto guarda as cinzas de Gabriel García Marquez desde maio de 2016.

Além disso, há as praias, claro, mas, como eu disse lá em cima, me decepcionaram.

Lá vai a lista de passeios que fiz.

Free Walking Tour

Busco free walking tours em toda cidade pra onde viajo desde que os descobri. Nada mais são que um passeio a pé (que varia entre uma hora e meia a três horas, dependendo da cidade) com um guia local e “gratuito” – o pagamento pelo trabalho fica a critério do turista. É aceitável qualquer coisa entre 5 e 10 dólares (independentemente da moeda local). Caminhar é a melhor forma de conhecer qualquer cidade, e com um guia local a experiência é muito rica.

Ricardo Carmona.
Uma das várias esculturas de Ricardo Carmona.

O passeio pela cidade antiga dura quase duas horas, durante as quais aprende-se sobre a formação da cidade que veio a se tornar o maior entreposto de escravos das Américas. Sendo uma cidade riquíssima, atraiu inúmeros piratas franceses e ingleses, e para afastá-los foram construídas a muralha externa e a interna (contramuralha). Depois da construção das muralhas, os ataques passaram a ser em mar aberto, a fim de tentar capturar os navios que transportavam pedras preciosas, ouro e escravos. Há inúmeros naufrágios na região, com destaque para o Galeão San José, afundado em 1708, hoje um sítio arqueológico e patrimonial. Estima-se que esse galeão abriga um tesouro de milhões e milhões de dólares.

O guia falou sobre as aldravas que adornam as portas das construções na cidade antiga, cada decoração simbolizando uma determinada elite (religiosa, militar, marinha mercante). Também contou sobre a Índia Catalina, que aprendeu os costumes espanhóis e tornou-se uma espécie de “pocahontas” e falou de Pedro Claver, jesuíta, o único religioso que cuidava dos negros feridos, canonizado por Leão XIII. Contou, ainda, dos autos de fé da época da Inquisição, e deu uma miríade de outras informações.

Botero na cidade antiga.
Botero na cidade antiga.

O site com horários e ponto de encontro é freetourcartagena.com.co. Recomendo e, se possível, faça logo no primeiro dia, para aprender logo a se localizar na cidade antiga.

Praia

Cartagena é uma cidade portuária, logo as praias ao redor da cidade são feias. É necessário afastar-se um pouco para chegar a praias razoáveis. Digo “razoáveis” porque, como deixei claro no início, elas são bem fraquinhas.

O passeio mais comum – e barato – é para Playa Blanca, uma praia pública à qual se chega de barco (45.000 pesos) ou ônibus (30.000 pesos). Problema: vendedores ambulantes assediam os turistas o tempo todo, é impossível ter um minuto de paz.

Sabendo disso, descartei o passeio e optei pela Isla del Ecanto, uma das praias privadas. Chega-se de lancha rápida e a viagem dura uma hora. Dica: vá na frente para se molhar menos e evitar o barulho do motor (mas na frente há mais impacto quando se chega ao mar aberto).

A Isla del Encanto é de propriedade de um hotel. Os turistas de Cartagena ficam com a “praia dos fundos”. A areia é branca e a água é uma delícia, quentinha, mas há pouco espaço para nadar, demarcado por bóias para evitar acidentes com embarcações. O passeio inclui um almoço simples, mas gostoso (pontos extras para o arroz de coco). O bar vende drinks ótimos a 22.000 pesos (mais 8% de impostos e 10% de serviço), o lugar em que vi drinks mais baratos na Colômbia. Os visitantes podem contar com camas deliciosas para espreguiçar em frente ao mar. Podem pagar por serviços de spa e mergulho com cilindro. Importante: cartões não são aceitos! Leve dinheiro (pesos colombianos – dólares também não são aceitos).

Isla del Encanto
Camas para relaxar com um bom mojito por perto.

A saída para Isla del Encanto é às nove da manhã e o retorno é às três da tarde. Os passeios saem do muelle (pier) à direita da Torre del Reloj (uns dez minutos de caminhada). É bom comprar com antecedência. Todos os passeios são vendidos em lojinhas no muelle e o preço entre uma e outra não varia muito.

Museus

Museo Histórico: pequeno, mas interessante. Foca na história da Inquisição em Cartagena, que não foi bolinho. Nos vários autos de fé ali realizados, ninguém foi absolvido e cinco foram condenados à morte por fogo. Na entrada do museu, oferecem-se áudio-guia e pessoa-guia, ambos desnecessários. Não lembro o valor do ingresso, mas foi barato.

Museo Naval del Caribe: museologia antiquada, com muito texto e poucos dioramas interessantes. Não guarda peças antigas. Seria bem sem graça, se não fosse por ter uma réplica de submarino no andar de cima, com luzes, sons, painéis, cadeiras, tudo em escala! Fiquei como criança lá dentro. Vale a visita pelo submarino. Ingresso: 8.000 pesos.

Submarino do Museu Naval do Caribe.
Réplica de submarino no Museu Naval do Caribe.

Museo de Arte Moderno: caro pelo pouco que oferece (8.000 pesos), mas eu tinha tempo e havia uma exposição bacana com desenhos que ilustravam passagens de Cem Anos de Solidão. Também havia obras bonitas de artistas colombianos, com destaque para as de Cecilia Porras e Enrique Grao.

Castillo de San Felipe de Barajas: nesse vale a pena contratar um guia, porque não há explicações escritas e alguns lugares só podem ser visitados com guia, particularmente os túneis onde dormiam os guardas do forte. Um desses túneis tem 120 metros de comprimento e 27 metros de profundidade. É muito bacana entrar nos túneis, mas nada recomendado a quem tenha claustrofobia. O castillo fica na muralha externa e tem sete baterias, cada qual construída numa época. A entrada é 25.000 pesos e a companhia do guia custa 10.000 pesos. É um passeio caro, mas achei que valeu a pena.

Castillo de San Felipe de Barajas
Castillo de San Felipe de Barajas.

Dicas Finais

Sendo uma cidade muito turística, Cartagena é obviamente mais cara que Bogotá, e o câmbio é pior. Se puder, troque seus dólares (não reais, nunca reais, que têm uma cotação muito ruim) em Bogotá, que até no aeroporto terá cotação melhor que em Cartagena. Quando fui, o câmbio no aeroporto de Bogotá era 1 dólar por 2.810 pesos. Em Cartagena, 1 por 2.800. Em Bogotá, oscilava entre 2.830 e 2.870.

Os preços nos cardápios dos restaurantes não incluem 8% de impostos. A taxa de serviço recomendada é de 10%.

Não sei se uber e outros aplicativos funcionam em Cartagena porque andei a pé o tempo todo. Em Bogotá, uber era proibido em 2016 e o motorista flagrado tinha o carro guinchado.

Artesanato é mais barato em Bogotá que em Cartagena (mas a diferença não é tão grande). Exceto as esmeraldas. Há uma infinidade de lojas que vendem brincos, colares, anéis etc. com esmeraldas, por um leque de preços igualmente infinitos. Comprei um par de brincos numa loja chamada Arteralda, que não tem cara de joalheria, tem preços bacanas e oferece certificado de autenticidade. Endereço: #32-12 Local 3. E sim, os endereços são bizarros na Colômbia, mas você pega logo o jeito. Basicamente, a lojinha fica entre os números 12 e 32 da Rua 3.

Fim de tarde em Cartagena.
Fim de tarde em Cartagena.

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