Lembra que, quando falei pela primeira vez da FeLV, disse que a Mel era assintomática. Pois bem: não é mais.
No fim de março, viajei por quatro dias. Mel e Cacau estavam felizes e arteiras como sempre. Quando voltei, achei a Mel um pouco quieta, mas dentro do esperado – ela normalmente fica menos ativa e mais grudenta logo que volto de viagem, por causa da saudade.
Na manhã seguinte, ela vomitou. Um vômito incomum, sem ração (sinal que não comia há muitas horas) e amarelo (o que me remeteu à bile). Quando voltei do trabalho, achei outro vômito, e ainda a vi vomitar mais uma vez – e parecia que ela sentia dor ao vomitar. A branquela hiperativa estava abatida, isolada, amuada dentro de uma caixinha de transporte. Não queria saber de comer.
Levei-a à veterinária imaginando algum problema estomacal ou sei-lá-o-quê. Certamente, não estava preparada para o que ouvi: linfoma intestinal. O diagnóstico feito a partir do exame clínico foi confirmado horas depois por uma ultrassonografia. Linfonodos do intestino, mesentério, estômago e aorta estavam aumentados (alguns muito aumentados).
Não lembro muita coisa do que ouvi nessa consulta, tanto que a veterinária teve de repetir algumas orientações mais tarde, por email. Eu perguntava e perguntava, tentando entender. Sangue foi colhido e o hemograma veio quase normal, com poucas alterações nos glóbulos brancos, o que autorizava a quimioterapia, que foi marcada para a segunda-feira seguinte (o diagnóstico veio na sexta, dia primeiro de abril – e bem que eu queria que fosse mesmo mentira). O tumor não é operável, pela extensão. O único tratamento é quimioterápico.
Enquanto isso, passei a dar um antivomitivo a cada 12 horas. E a alimentação? Mel não queria saber de comer nada, mas precisava. Já tinha perdido cerca de 10% do seu peso. O jeito era forçar. Além do risco de desnutrição, gatos não podem ficar mais de um ou dois dias sem comer, ou correm o risco de desenvolver lipidose hepática, um distúrbio fatal. Comprei A/D (uma pasta altamente palatável, nutritiva e hipercalórica), enchia uma seringa de 10 ml. e empurrava goela abaixo da Mel.
Eram de 5 a 7 seringas por dia. Menos que isso, seria insuficiente; mais que isso era inviável, porque eu não podia simplesmente dar uma seringa atrás da outra: se eu não esperasse pelo menos uma hora e meia entre cada “refeição”, Mel vomitava (apesar do antivomitivo). O jeito era fugir durante o expediente, dormir de madrugada e acordar cedo para alimentá-la o máximo possível. Você pode imaginar que, embora o A/D seja gostoso, o processo é estressante. Quem é que gosta de ser forçado a comer? Mel arranhava, lutava, fugia.
Com a introdução da quimioterapia, um novo remédio foi adicionado à lista diária: 3 ml. de corticóide, uma vez ao dia.
Lá pelo quarto dia de A/D, veio a diarréia. Não dava tempo nem de pensar em chegar à caixa de areia. Esse é um efeito colateral comum da pasta, por ser muito gordurosa, mas eu não podia retirá-la porque a Mel ainda não comia sozinha. Inclua aí na lista um remédio a cada 12 horas para cortar a diarréia. E quem disse que cortou? Diminuiu, quase sempre dava pra chegar à caixa de areia, mas o ânus da Mel estava, como se diz por aí, “em carne viva”. Dava pra ver que sangrava, doía, fazendo-a andar de pernas abertas. Além disso, ela estava suja e já nem tentava se limpar. E eu tinha que continuar dando o A/D…

As coisas começaram a melhorar 8 dias depois do diagnóstico. Mel parecia interessada na ração seca, cheirava um pouquinho… mas não comia. Por outro lado, via-se que estava mais alerta (o que implicava uma luta ainda maior para que comesse o A/D na seringa e tomasse a batelada de remédios – 5 por dia). Suspendi o A/D e torci para que ela comesse a ração seca… doze horas depois, Mel começou a comer sozinha. Ufa, ufa, ufa! Após mais de uma semana de angústia, finalmente eu conseguia ter esperanças.
Depois disso, a branquela ainda perdeu peso – chegou a 3.480 gramas, uma perda de 18% em relação ao seu peso normal. Veio a anemia. Mesmo assim, ela estava melhor: comia, interagia, voltou a brincar, a amassar pão na minha barriga, a lamber a irmã… A diarréia sumiu e um banho resolveu a sujeira, fazendo-a voltar a limpar-se normalmente.
Para contornar a anemia, passei a dar ração de filhotes (por ser mais substanciosa e, teoricamente, mais palatável – mas a Mel e a Cacau discordam) misturada à ração habitual e (mais) um comprimido, um suplemento vitamínico que, além de nutrir, abre o apetite. O hemograma feito depois de 15 dias revelou que o tratamento está funcionando: a anemia diminuiu e, ótima notícia, ela recuperou 200 gramas! Parece pouco, mas o mais importante é que reverteu-se a perda de peso que já tinha roubado 770 gramas da magrela.

Na próxima segunda-feira (30 de maio), Mel receberá a terceira dose de quimioterapia, de um total de seis, uma por mês. É apenas uma pílula e, até agora, não houve nenhum efeito colateral (provavelmente, ela ainda perderá os bigodes e as sobrancelhas). O prognóstico é bom: ela tem 70% de chances de ficar livre do linfoma. Provavelmente, no entanto, precisará da quimioterapia pelo resto da vida (a intervalos mais espaçados), porque uma das características da FeLV é justamente provocar esse tipo de linfoma (e outros dois: toráxico e medular). Um segundo tumor seria muito mais severo, então o protocolo mais recente recomenda quimioterapia preventiva.
Aprendi a dar comprimidos (ela ainda toma antivomitivo e suplemento vitamínico uma vez por dia, além do corticóide líquido – em remédios líquidos eu sou PhD há anos), a preparar uma seringa de A/D e dá-la inteirinha, a ter paciência com a diarréia (e a usar um protetor de colchão impermeável), a desenvolver técnicas de pegar um gato de surpresa para medicar. Ainda estou aprendendo a não ficar tão ansiosa. Tive algumas semanas de cão, e a Mel também, mas o pior já passou. Hoje, ela nem sabe que está doente, e você também não saberia se a visse. É o melhor que posso desejar: que minhas gatas vivam felizes, mesmo que não sejam saudáveis.
Dentro do espírito do Desafio, a pergunta de hoje é: como lido com as críticas que recebo nos blogs?