Cana-de-açúcar já é a segunda fonte de energia do Brasil

Plantação de Cana-de-Açúcar Deu ontem na Folha Online: Cana-de-açúcar se torna segunda fonte de energia no Brasil. Segundo os dados de 2007, a cana-de-açúcar já responde por 16% da matriz energética brasileira, atrás apenas do petróleo e seus derivados, com 36,7%. A energia hidráulica caiu para o terceiro lugar, com 14% de importância.

Em meio a toda a polêmica que se criou em torno da produção de biocombustíveis, é um alento e uma esperança ouvir uma boa notícia como esta.

Polêmica, diga-se, mal-intencionada na maioria dos casos. Lula falou bem ao declarar, em outras palavras, que ninguém fazia/faz tanto fuzuê quando o assunto é aumento de preços do petróleo, mesmo sendo de conhecimento geral o impacto enorme que ele causa sobre toda a cadeia produtiva; no entanto, é só a produção de biocombustível se tornar interessante – e concorrente – que lá vêm as críticas. (De vez em quando, bem de vez em quando, o Lula manda bem.)

Boa parte das críticas derivam da comparação da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar com a produção do mesmo combustível a partir do milho, querendo atribuir à primeira os problemas inerentes à segunda – e isso é comparar alhos com bugalhos. Quem faz tal associação, ou ignora completamente o assunto ou está, realmente, cheio de más intenções.

Em linhas gerais:

Corn FlakesA produção de cana-de-açúcar não concorre com a de alimentos. No caso do milho, essa concorrência é direta (os norte-americanos, que têm se dedicado ao cultivo do milho para etanol, utilizam o mesmo grão em larga escala na sua alimentação) e indireta (por lá, o milho serve de ração para o gado).

O álcool de cana é muito mais barato que o de milho. O galão de gasolina custa 27% mais que a quantidade equivalente de etanol de cana (já considerado que o consumo deste é 30% maior); comparada ao etanol de milho, a gasolina custa 18% a menos.

O etanol de cana é muito menos poluente que o de milho. A gasolina libera 20,4 libras de gases causadores do efeito estufa a cada galão queimado; o álcool de milho libera 16,2 libras; o álcool de cana libera apenas 9 libras – 56% a menos que a gasolina usada no Brasil, que traz 25% de álcool e, portanto, já polui menos que a norte-americana. A depender da gasolina, a redução na poluição chega a 90%.

– O etanol de milho consome, na sua produção, tanto combustível fóssil que quase não compensa o que economiza de carbono na queima, em relação à gasolina. Já o etanol de cana produz 8 vezes mais energia consumindo a mesma quantidade de combustível fóssil.

Pode-se reduzir a zero o consumo de combustível fóssil para a produção do álcool de cana: basta usar seu próprio bagaço na geração da energia necessária para a produção do etanol. Várias usinas brasileiras fazem isso, dispensando o consumo de petróleo e derivados e de eletricidade.

Claro que, nessa equação, há outros dados a considerar. O Brasil tem 4 grandes desafios para a produção de um biocombustível realmente limpo:

Limitar a expansão das plantações de cana-de-açúcar sobre terras dedicadas à agricultura de alimentos e à pecuária. Hoje, cerca de apenas 2% da terra arável do país é ocupada com cana-de-açúcar. Esse percentual pode aumentar, desde que racionalmente. Há terras ociosas aos montes no país, além de espaço para o incentivo à mecanização da agricultura e à pecuária intensiva, gerando maior produção por hectare.

Impedir o avanço da cana sobre a floresta amazônica. Atualmente, as maiores agressões à Amazônia vêm de madeireiros e plantadores de soja. Para que venham dos canaviais, basta que a cana se torne mais lucrativa que a madeira e a soja – e aí, ao custo da floresta amazônica, será difícil convencer o mundo de que o álcool de cana vale a pena.

Eliminar o trabalho penoso, degradante e, às vezes, em regime de escravidão a que estão sujeitos, hoje, boa parte dos cortadores de cana. A mecanização é um caminho necessário. Sim, trará desemprego, mas o trabalho em condições subumanas não se justifica em nenhum cenário.

Erradicar a prática das queimadas, usadas para facilitar o corte da cana e responsáveis por uma alta liberação de gases causadores do efeito estufa.

O jogo consiste em dominar a ganância e trabalhar a favor da produção sustentável – algo em que o Brasil não costuma ser bem-sucedido. Não dá para esperar que esse equilíbrio entre lucros e danos seja atingido pela simples conscientização dos produtores. A palavra-chave é fiscalização, acompanhada de rigorosa punição aos infratores – as leis já existem, basta aplicá-las. Infelizmente, o governo brasileiro é mal-aparelhado, ineficiente e pouco preocupado em fazer valer a lei.

O problema é que, se o custo do álcool de cana for alto, traduzindo-se na exploração humana e no desmatamento, não há carbono zero na saída que convença o mundo de que o preço na entrada vale a pena.

Os dados que comparam o etanol de cana ao de milho e à gasolina
foram retirados da National Geographic Brasil de outubro de 2007.

Créditos das imagens: jesuino e woodsy.

A Terra segue bela

Apesar do descaso e das agressões, a Terra insiste em sua exuberância. Fiz as fotos abaixo no último fim-de-semana. Aproveitando o feriado prolongado, fui ao Pakaas Palafitas Lodge, em Rondônia, na fronteira com a Bolívia. Queria conhecer um pedacinho da Floresta Amazônica, tão esquecida e desvalorizada por nós, brasileiros.

Rio Pakaas Arco-Íris Rio Pakaas ao entardecer Pôr-do-sol na Amazônia
Clique nas imagens para ampliá-las.

Durante a semana, subo as outras imagens (há muitas mais) para o Flickr e faço um texto mais detalhado. Publiquei logo estas como uma homenagem ao Dia da Terra, comemorado hoje, 22 de abril.

Um passo à frente, dois atrás

Praia de Kuta, BaliParece que é nesse ritmo que caminha qualquer discussão sobre o meio ambiente.

A Convenção-Quadro de Mudanças Climáticas da ONU em Bali fez água. Nenhum acordo real foi firmado. O máximo que se conseguiu foi uma promessa: “ok, nós acordamos que temos de fazer um acordo em até dois anos”. Grande coisa, ahm? Se já estavam reunidos os representantes das grandes potências econômicas, por que não fechar logo um acordo que garanta que o mundo não vai cair no abismo após 2012?

2012 será um ano-chave para o meio ambiente. Os compromissos firmados no Protocolo de Quioto, a fim de reduzir as emissões de gás carbônico, encerram-se em 2012. Até lá, é imperativo que as potências mundiais reunam-se em torno de um novo protocolo, ainda mais rígido que o primeiro, para que sejam evitadas as conseqüências crescentes do efeito estufa. Esse acordo parece ser tão impossível quanto necessário.

Existem os passos à frente. A política ambiental norte-americana deve tornar-se menos egoísta quando (se?) o governo voltar a ser dos democratas, após o mandanto de George W. Bush. A Austrália finalmente ratificou o Protocolo de Kyoto, no começo de dezembro, deixando os Estados Unidos isolados, carregando o fardo de serem o único país desenvolvido a não ratificar o Protocolo.

No Brasil, a coisa vai e volta. O desmatamento, que tinha caído, voltou a crescer com a valorização da soja no mercado internacional – áreas de mata nativa são destruída para dar passagem ao grão, o “ouro verde”. A política ambiental do governo Lula é pífia, os dados são truncados, a argumentação tende à falácia. O governo brasileiro parece invejar a China tanto no seu crescimento econômico quanto na catástrofe ambiental que vem atrelada a ele.

Assim, 2007, que começou cheio de promessas no tocante à consciência ecológica, que rendeu o Prêmio Nobel da Paz a Al Gore pelo documentário Uma Verdade Inconveniente e que prometia uma virada no modo de encarar a questão ambiental, termina melancolicamente.

Sobre o tema

Blog Retrospectiva 2007

Hoje, o Desafio 21 da Nospheratt é recuperar meus 12 melhores textos do ano (na minha opinião, claro), com uma breve justificativa. Os melhores momentos do “Dia de Folga” em 2007 passam por tecnologia, livros, blogosfera, cinema, ecologia, acessibilidade e internet.

Janeiro

Uma estação desequilibrada e um governo alienado – chamei a atenção para os grandes desequilíbrios ambientais ocorridos em várias partes do globo há um ano.

Fevereiro

O que são feeds? – uma chamada para o texto explicativo sobre feeds, que foi publicado como página e, por isso, não entra na cronologia normal do blog. Recebi emails de gente que sempre quis saber o que é feed e nunca entendeu o technobbable, gente que achou o texto útil e começou a usar feeds a partir dele. Gratificante, sem dúvida.

Março

Borat (ou O Pior Filme de Todos os Tempos) – apresentei minha opinião claramente e recebi algumas críticas nos comentários (umas bem construídas, outras dispensáveis). O debate foi interessante – vale a pena ler a maior parte dos comentários – e marcou uma virada no DdF: voltei a opinar mais, algo que tinha deixado meio de lado.

Abril

Twitter – será que a moda pega por aqui? – comecei a usar o twitter em março, quando ninguém pensava que viraria moda entre os blogueiros brasileiros. Sim, errei na análise, mas gosto do texto mesmo assim. 😉

Maio

5 livros para ler ainda este ano – feito para uma promoção do Darren Rowse, rendeu vários trackbacks e deu-me a oportunidade de falar de livros que adoro.

Junho

Seu blog é acessível? – artigo de utilidade pública, ressaltando pontos importantes para melhorar a acessibilidade de um blog para deficientes visuais.

Julho

Blogs versus Mídia Tradicional: a guerra começou? – motivado pela polêmica campanha do Estadão contra os blogs. E não, não acredito nessa tal “guerra” que representantes de ambos os lados tentaram forjar. Aposto na complementaridade dos veículos.

Agosto

Faça Você Mesmo – compilação de dicas e links para solucionar as dúvidas que quem dá os primeiros passos no WordPress.

Setembro

O BlogCamp foi… – esse entra na lista por motivos sentimentais, admito. Foi o primeiro BlogCamp, foi nacional (sim, rolou em São Paulo, por votação) e foi a chance de transformar em carne e osso gente que eu só conhecia por pixels. Deu início a uma nova fase bloguística.

Outubro

Tropa de Elite – outubro teve o maior índice de assuntos com alguma provocação social ou política. O filme foi o assunto do mês e rendeu reflexões importantíssimas para o amadurecimento da sociedade brasileira.

Novembro

Podcast – já ouviu falar? – da mesma forma que no texto sobre feeds, procurei explicar os podcasts de uma maneira simples, voltada para quem não é geek. Calhou de ser um assunto bem debatido dias depois, no BlogCamp PR.

Dezembro

iPhone em revenda TIM – o mês está só no começo, com apenas dois artigos (três, com este). Por enquanto, fica o do iPhone, com destaque para o problema da ausência de homologação pela Anatel.

Que venha 2008!