Livro: Órbita de Inverno

Livro da vez: Órbita de Inverno, de Everina Maxwell.

Kiem, um dos vários príncipes da família real de Iskat, é obrigado a se casar com Jainan, um diplomata de Thea, após a morte de Taam, primeiro marido de Jainan. O arranjo é fundamental para a manutenção do tratado entre os dois planetas e para a estabilidade de várias outras alianças planetárias. Contudo, mesmo após a união a paz e a segurança desse sistema é posta em risco.

Quase abandonei o livro nos primeiros 20%. A ambientação é fraca, bem fraca. A ficção científica é mero pano de fundo, um pano tão fino que é praticamente uma gaze e seria melhor nem existir. Além disso, a tradução me incomodou muito (coisa rara, não costumo me irritar com traduções). Então, segui os conselhos da @soterradaporlivros: peguei o texto original e passei a ler sem levar a história a sério. Aí a coisa funcionou.

Órbita de Inverno é um romance, no fim das contas, no sentido estrito. Ficção científica passou longe. A construção do universo ficcional é pobre. O que importa mesmo é o relacionamento entre Kiem e Jainan e os benefícios que esse casamento forçado pode trazer não só para o sistema planetário, mas principalmente para os dois, amadurecendo-os e ajudando-os a superar traumas. De quebra, temos Bel, assistente de Kiem e a melhor personagem do livro (além de funcionar como alívio cômico).

A trama tem o ritmo e o descompromisso de uma fanfic. Aliás, lendo os agradecimentos finais a gente descobre que o livro nasceu no AO3, maior/melhor reduto de fanfics das interwebs. Se for lida com essa leveza, a história compensa e coloca um sorriso na cara do leitor em vários momentos (e é bem mais divertido que Justiça Ancilar, livro pretensioso com que Órbita de Inverno volta e meia é comparado).

Indico para quem procura uma leitura ligeira, de férias/praia.

Estrelinhas no caderno: 3 estrelas

Livro: Movimento 78

Livro da vez: Movimento 78, de Flávio Izhaki.

No fim do século XXI, há dois candidatos à presidência do mundo: uma inteligência artificial chamada Beethoven e o humano Kubo. As pesquisas apontam que a IA é franca favorita. No último debate antes das eleições, Kubo tenta convencer a audiência de que é melhor ser governado por humanos imperfeitos do que por máquinas frias.

Como em Bolo Preto, que resenhei outro dia, a narrativa é fragmentada, mas aqui funciona porque há um fio condutor claro, um propósito. Entre uma pergunta e outra do debate eleitoral, o livro apresenta o passado de Kubo, suas heranças familiares e flashes de como a humanidade chegou ao ponto de cogitar entregar seu futuro a robôs (claramente O Exterminador do Futuro não existe na realidade desse livro).

Movimento 78 é a melhor ficção científica nacional que já li. A escrita é cuidadosa, a língua portuguesa é respeitada (coisa rara em autores contemporâneos nacionais), os personagens são bem construídos e eu me vi interessada não só no destino político da Terra, mas nas histórias pessoais. Boa ficção científica é isso: foco nos personagens e nas suas motivações, não bordões engraçadinhos ou descrições mirabolantes.

Minha única queixa é o pequeno número de páginas. Eu gostaria de mais tempo na companhia de Kubo e sua família.

Indico para quem está à procura de boa literatura nacional contemporânea, gostando ou não de ficção científica.

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas

Livro: Bolo Preto

Livro da vez: Bolo Preto, de Charmaine Wilkerson.

Após a morte de Eleanor Bennett, seus filhos Byron e Benny descobrem que a mãe era um verdadeiro mistério. Por meio de uma gravação que ela fez pouco antes de morrer, entram em contato com as suas raízes caribenhas e são surpreendidos por reviravoltas. Ao mesmo tempo, tentam curar suas feridas e resgatar uma relação há anos esgarçada.

A história é boa, mas a narrativa é fragmentada demais. Além de pular entre passado e presente e de um ponto de vista a outro, é construída por meio de capítulos curtíssimos. Quando eu começava a me interessar, lá vinha outro capítulo (minúsculo), em outro tempo, com foco em outro personagem e abordando outro tema. Essa fragmentariedade pode até dar algum dinamismo à narrativa, mas não funcionou para mim. Deu a impressão de que a autora não sabia que história queria contar.

Os personagens principais são fortes (embora Byron seja um chato), gostei de aprender algo da cultura do Caribe (a autora esclarece que locações e fatos são inventados, mas baseados no que aprendeu sobre a Jamaica) e, embora algumas viradas sejam previsíveis, outras são interessantes e a última é muito boa.

Indico para quem deseja um primeiro contato com questões de identidade, etnia, gênero e diferenças culturais. O livro está sendo transformado em série e creio que funcionará melhor na telinha.

Estrelinhas no caderno: 3 estrelas

Livro: Lolita

Livro da vez: Lolita, de Vladimir Nabokov.

Todo mundo conhece a sinopse desse clássico: homem de meia idade seduz menina de doze anos. Eu sabia bem pouco além disso e por anos hesitei por causa do tema. Bobagem. Lolita é um romance excelente, envolvente, com personagens intensos e que em momento algum glorifica a pedofilia.

Ao contrário: Humbert Humbert é um ser abjeto, sabe disso e não tenta suavizar sua monstruosidade ao narrar os anos que passou com Lolita. Um leitor inexperiente talvez acredite no comportamento lascivo que ele atribui à sua “ninfeta” , mas narradores em primeira pessoa não são confiáveis por definição (Machado de Assis que o diga) e, além disso, o próprio Humbert se encarrega de demonizar a si próprio, em meio a comentários irônicos e autodepreciativos.

Como pano de fundo, o autor apresenta as paisagens e a sociedade norte-americana dos anos 40. Humbert vê ambos com olhos de estrangeiro, ora elogiando, ora tecendo críticas. Criador e criatura têm em comum o fato de serem expatriados.

Algumas passagens são chocantes, mas assim é a boa ficção: provocativa, chocante, incômoda. A escrita às vezes se torna rebuscada – Humbert Humbert é um erudito, afinal de contas – e determinados trechos poderiam ser abreviados, mas em momento algum o livro é enfadonho. A força dos personagens e o drama da narrativa não permitem.

Indico para leitores maduros porque, embora seja uma leitura fascinante, evidentemente não é leve.

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas