Urso de Ouro para Tropa de Elite

Parabéns ao diretor José Padilha, ao ator Wagner Mourae a toda a equipe de Tropa de Elite, um dos melhores filmes já feitos no Brasil. O Urso de Ouro no Festival de Berlim é o reconhecimento do seu incrível trabalho.

Aliás, a crítica alemã ao filme foi muito mais sensata que a norte-americana. Alguns jornais discordaram, outros concordaram com a visão do filme, mas todos afirmaram que Tropa de Elite não tem nada de fascista. Os críticos chegaram a comentar: “e de fascismo, nós, alemães, entendemos” (leia na matéria Tropa de Elite gera mais ódios que amores em Berlim). Realmente, eis um povo que não precisa ler os livros de História para entender o conceito político – ele mesmo escreveu a História.

A Variety é uma fanfarrona

Capitão Nascimento e colegas do BOPE O filme Tropa de Elite[bb] estreou no Festival de Berlim na última segunda-feira sob aplausos mornos. Até aí, nenhuma novidade. Não se esperava uma recepção calorosa da platéia alemã e, sem dúvida, a dobradinha legenda em alemão + tradução simultânea não ajudou.

A Variety, famosa revista norte-americana de entretenimento, aproveitou a ocasião para fazer uma resenha sobre o filme. Eis alguns trechos (a matéria completa está no site da Variety, em inglês):

O filme celebra policiais psicopatas e ridiculariza qualquer tentativa de ativismo social, ou mesmo de emoção. Acusações de facismo por críticos do filme não são meramente reações tolas de liberais, mas a inafastável constatação de um fato.

[Capitão Nascimento] explica como funciona o sistema: policiais convencionais são fáceis de levar, assistentes sociais são ingênuos e inúteis e garotos ricos que fumam maconha são tão maus quanto os traficantes. Enquanto policiais sobem a favela para tomar o arrego, membros no BOPE sobem para matar sem perguntar. Afinal, é o que essa escória merece, não é mesmo?

As interpretações são apropriadamente intensas mas, como o filme, carecem de nuances. A câmera de Lula Carvalho nunca pára de sacudir (…) Uma filmagem mais calma teria criado um resultado mais suave, embora Tropa de Elite não seja exatamente candidato ao prêmio de sutileza.

Espanta-me que o crítico Jay Weissberg exija sutileza ou suavidade num filme baseado na realidade cotidiana de uma cidade em estado de guerra civil. Talvez Weissberg esteja encharcado da água-com-açúcar típica dos filmes italianos que o conduziram ao posto de crítico da Variety. Talvez precise de um pouco do cinema norte-americano inspirado nas guerras desenvolvidas pelos Estados Unidos para ter alguma noção do que se passa nos morros cariocas.

Por outro lado, não me admira que Weissberg atribua um caráter fascista a Tropa de Elite. Claro, indiretamente, o filme brasileiro é uma lição para as classes privilegiadas norte-americanas (como foi para as nossas), largamente consumidora de maconha e cocaína. A classe artística dos Estados Unidos, então, povoa as páginas policiais e de fofocas de revistas e jornais mundo afora, graças ao seu amor por drogas ilícitas.

Para um jornalista confortavemente instalado numa sala distante, em uma cidade situada a milhares de quilômetros das favelas cariocas deve ser mesmo difícil entender a relação entre consumo e tráfico. Ninguém deve ter dito a ele que os “garotos ricos” que ele menciona com condescendência são o combustível de uma enorme indústria criminosa.

Suponho que ninguém explicou a Weissberg que o “ativismo social”, as passeatas pela paz e as ONGs demagógicas são controlados e fomentados pelas mesmas pessoas que, no fim de semana, fumam um baseado e perpetuam o ciclo de violência. Isso para não mencionar os milhões de reais que descem pelos ralos das ONGs todos os anos, sem qualquer prestação de contas, e que seriam muito melhor empregados no aparelhamento das polícias.

Em alguns trecho da crítica, até parece que o repórter viu outro filme. Ou, quem sabe, tenha saído da sala de exibição nos momentos em que as atitudes do Capitão Nascimento são criticadas por seus pares, ou em cenas de intensa comoção, como o discurso contra a polícia protagonizado por estudantes do curso de Direito. Em momento algum o filme faz apologia da tortura empregada pelo protagonista ou elogia seu comportamento brutal. Esses elogios partiram espontaneamente de uma sociedade cansada de impunidade e enojada diante de tanta violência e corrupção.

Talvez Weissberg devesse fazer um estágio cobrindo os morros cariocas. Ou, possivelmente, devesse ler um pouco do que acontece no Brasil e estudar mais a fundo o problema das drogas e do tráfico. Assim, quem sabe ele compreenderia melhor a história contada por Tropa de Elite, que de fascista não tem nada. Estudar História, aliás, faria bem aos que insistem no uso desse termo histórico. O fascismo pregava a absorção total do indivíduo pelo Estado, a abolição de qualquer liberdade ou direito civil; os policiais que lutam contra o tráfico arriscam suas vidas para, justamente, dar um pouco de segurança aos indivíduos que formam a sociedade civil; lutam uma guerra para evitar que traficantes se tornem o Estado nas favelas e, conseqüentemente, no asfalto. É o tráfico, não a polícia, que visa ao controle da sociedade.

O senhor é um moleque, senhor Weissberg. Pede pra sair. Ou, como traduziram no Festival de Berlim: “You’re a punk, ask to quit”.

P.S.: nada justifica os comentários ofensivos deixados por uma turba de brasileiros ignorantes no site da revista. Brasileiros já são detestados internet afora por agirem como gafanhotos, vandalizando o caminho por onde passam, lançando mão de insultos como se isso lhes conferissem alguma credibilidade. Quer discordar da crítica de Weissberg? Faça-o com elegância.

P.S. 2: siga o link para ler minha resenha sobre Tropa de Elite.

Morre Ingmar Bergman

Ingmar BergmanO cinema perdeu hoje, 30 de julho de 2007, um de seus maiores expoentes: Ingmar Bergman morreu aos 89 anos, em seu país, a Suécia. Não vou me preocupar em traçar a biografia dele – você pode saber mais sobre o diretor na Folha de São Paulo.

Bergman faz parte de um estilo cinematográfico que está praticamente extinto: filmes de arte, contemplativos, com longos silêncios forçando à introspecção, carregados de referências filosóficas e psicanalíticas. Em tempos de superproduções hollywoodianas, com seus megafilmes arrasa-quarteirão, lotados de estrelas e efeitos especiais, quem tem tempo e paciência para a assistir a duas horas de filosofia em forma de filme?

Os cineastas populares atuais que chegam mais perto do cinema de arte são Woody Allen e Pedro Almodóvar. Nem sempre pela contemplação, mas pelos múltiplos sentidos que se pode enxergar na maioria de suas produções. Como são queridinhos da mídia (e é chique dizer que se gosta deles), conseguem altas bilheterias, mas nem tanto quanto o cinema-pipoca.

Dos mais de 50 filmes de Bergman, assisti a Gritos e Sussurros (Viskningar Och Rop) e O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet).

O jogo de xadrez com a Morte O Sétimo Selo (1957), filmado em preto e branco, se passa na Idade Média, numa região dizimada pela peste. Sua cena emblemática é o jogo de xadrez entre a Morte e o protagonista (um cavaleiro das Cruzadas), que tenta dar significado à vida.

Gritos e Sussurros (1972) traz uma fotografia marcante (que, inclusive, levou o Oscar em 1974) e carrega nos tons fortes, como o vermelho (Almodóvar também usa e abusa de cores vivas). O forte impacto visual é contraposto ao silêncio das personagens.

Se você gosta mesmo de cinema, vale a pena procurar uma locadora que conte com filmes de arte. Inicialmente, pode ser difícil adaptar-se à linguagem que ultrapassa as fronteiras de Hollywood, mas com o tempo perceberá como é gratificante e informativo ampliar o leque – além de divertido, é claro.

Michelangelo AntonioniAtualização: como se não bastasse, horas depois morreu Michelangelo Antonioni, outro monstro do cinema, como lembrou o Dudu Tomaselli. De Antonioni, vi L’Avventura (1960) e Blow-Up (1966). L’Avventura não me envolveu, ao contrário de Depois Daquele Beijo (título que Blow-Up recebeu no Brasil).

Blow-Up captura a atenção da primeira à última cena. Ousado e transgressor para os anos 60, o filme merece ser visto e revisto, já que novos significados são apreendidos pelo espectador a cada exibição. Blow-Up é ainda mais interessante para o cinéfilo que aprecia fotografia – não só pelas suas belas tomadas, mas especialmente porque o protagonista é um fotógrafo e em torno de uma imagem fotografada por ele se desenrola a trama (“blow-up” é a ampliação de um detalhe de uma fotografia). Sem exagero, um dos filmes mais interessantes que já vi, obra obrigatória para os fãs da sétima arte.Cena de Blow-Up (Depois Daquele Beijo)

A cena ao lado, logo do início do filme, foi copiada em alguma produção recente… só não me lembro em qual!

Filmes Preferidos

Não é novidade que sou cinéfila. De vez em quando, alguém me pergunta qual é meu filme preferido, ou pede uma listinha. Para mim, é tarefa complicada, já que gosto de vários gêneros – como colocar numa mesma lista Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida e Volver, por exemplo?

Por outro lado, alguns fimes marcam demais, e a gente se pega sempre revendo, recomendando e citando. Eu poderia pensar em uns 20 (incluindo os dois acima) mas, atendo-me ao propósito da categoria Top 5, aqui vai uma listinha abreviada:

1. Closer – Perto Demais. Encabeça qualquer listinha de cinema que eu faça. É daqueles filmes para manter na coleção e rever de vez em quando, especialmente se você começa a acreditar que o mundo é cor-de-rosa e papai noel existe. É de um cinismo contundente e de uma clareza inegável.

2. Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Contrabalança, de certa forma, a secura de Closer, mas não chega a ser piegas. Um dos poucos filmes em que o Jim Carrey não incomoda. O roteiro é do sempre instigante Charlie Kaufman e provoca uma reflexão sobre nossas próprias memórias – se você pudesse, desejaria apagá-las para sempre?

3. O Auto da Compadecida. Melhor filme nacional de todos os tempos. Elenco primoroso, diálogos deliciosos e cenas inesquecíveis. Alguns filmes tentaram imitá-lo, mas só O Auto da Compadecida não tem cheiro, não deforma e não solta as tiras. Qual o segredo? “Não sei, só sei que foi assim…”

4. Grease – Nos Tempos da Brilhantina. Fã de musicais como sou, tinha que citar um para representar o gênero e Grease é imbatível. Se eu acordar às quatro da manhã e a tv estiver ligada, passando as aventuras de Danny e Sandy, pode apostar que ficarei acordada até o fim, cantando cada música junto com os personagens.

5. Alta Fidelidade. A história dos amores frustrados de Rob Fleming funciona bem em qualquer linguagem: livro (a sua forma original), filme e peça teatral. De quebra, traz uma trilha sonora imperdível para os roqueiros de plantão. O protagonista era viciado em fazer listas “Top 5” como esta.

Quais filmes estão na sua listinha?