Filme: 438 Dias

Filme da vez: “438 Dias”, produção sueca de 2019.

438 é o número de dias durante os quais dois jornalistas suecos ficaram presos na Etiópia sob a acusação de terrorismo. O filme é baseado em uma história real.

Em 2011, Martin Schibbye e Johan Persson decidiram investigar os efeitos da exploração do petróleo sobre a população de Ogaden, na Etiópia. Para chegar lá, cruzaram a fronteira com a Somália com a ajuda de um grupo que, depois, descobriram ser considerados terroristas no país vizinho. Foram presos pelo exército etíope e acusados de terrorismo.

Para piorar, descobrem que um figurão da política sueca tem envolvimento com a indústria petroleira que atua em Ogaden. Assim, não confiam que a diplomacia ou a política da Suécia agirão a contento para tirá-los dessa situação. Para alguns, acreditam, é melhor que fiquem presos em um país distante, talvez para sempre.

A Navalha de Hanlon diz que a gente não deve atribuir à malícia o que pode ser explicado pela burrice. Nem digo burrice, mas ingenuidade: como esses jornalistas resolveram que seria uma boa ideia entrar ilegalmente em um país, mais ainda um que não preza exatamente por instituições democráticas e não é conhecido pelo respeito aos direitos humanos? Como não pesquisaram antes sobre as pessoas a quem pediram ajuda para fazer o ingresso clandestino? Creio que isso seja fruto da confiança que cidadãos de certos países desenvolvidos têm nas suas próprias instituições e na ilusão que nutrem de que o restante do mundo funciona do mesmo modo (não é de espantar, sob essa ótica, a quantidade de turistas estrangeiros que é furtada assim que pisa no Rio de Janeiro).

O filme é dinâmico, tenso e parece bastante realista. O ponto de vista é o dos jornalistas, o que, claro, pode levar a um certo viés. A discussão central é a da liberdade de expressão e da imprensa livre, temas que seguem atuais e relevantes.

A distribuição do filme no Brasil é da distribuída pela @a2filmesoficial e já está disponível nas plataformas digitais.

Estrelinhas no caderno: 4 estrelas

Sob as Escadas de Paris

Filme da vez: “Sob as Escadas de Paris”.

Saudade de uma cabine, né, minha filha? Mas não, ainda não tenho coragem de ir ao cinema. A @a2filmesoficial tem feito cabines virtuais e eu não podia resistir ao convite para ver o novo filme da Catherine Frot, que me ganhou em “Quem me ama, me segue” (um dos últimos filmes que vi no cinema pré-pandemia).

A história começa previsível: uma idosa sozinha tem sua rotina perturbada por uma criança sozinha, tenta se livrar dela, mas acaba se afeiçoando. O que não é tão comum é o background dos protagonistas: a idosa (Christine) é moradora de rua, o menino (Suli) é refugiado e não fala francês.

O filme passeia pela Paris turística, mas se detém na cidade invisível sob escadas e viadutos, repletas de pessoas que tentam sobreviver e manter a humanidade em condições desumanas. Pessoas invisíveis, que ora são escorraçadas, ora encontram alento na bondade que ainda sobrevive.

A trajetória de Christine e Suli me deixou com o coração na mão e lágrimas nos olhos.

Se você já está indo ao cinema, anote a dica: o filme estréia dia 14/10. Se, como eu, ainda não está, em breve estará em um serviço de streaming perto de você.

Estrelinhas no caderno: 5 estrelas

O Exorcista (livro e filme)

“O Exorcista”, de William Peter Blatty. Leitura de setembro/outubro do #quemteviuquemteleu.

No início, uma escavação arqueológica no Iraque desenterra a figura de um demônio misterioso. Corta para os Estados Unidos, onde Regan, uma menina que acaba de fazer 12 anos, começa a apresentar sintomas incomuns. Após descartar enfermidades psiquiátricas, a mãe, ateia, recorre ao Padre Karras, da congregação na mesma rua, certa de que sua filha precisa de um exorcismo. Karras, por sua vez, tem problemas pessoais e questiona a própria fé.

Os elementos são ótimos, mas a execução é fraca. Metáforas vazias, digressões monótonas, personagens mal desenvolvidos, situações potencialmente interessantes que acabam mal aproveitadas. A escavação é mais ignorada no livro que no próprio filme, e eu esperava um maior desenvolvimento, já que tempo não seria um problema no livro. Padre Merrin fica só no potencial mesmo. Dá a impressão de que o autor não teve paciência para aperfeiçoar a própria ideia, queria apenas terminar logo a narrativa.

Sem dúvida é um caso de o-filme-é-melhor-que-o-livro. Vi a versão do diretor no cinema e recomendo o filme pra quem curte histórias de terror.

Estrelinhas no caderno: 2 estrelas para o livro, 4 estrelas para o filme (versão do diretor).

Coisas Boas de Setembro

Se agosto passou voando, setembro se arrastou. Foi um mês marcado por trabalho e stress, e o comecinho de outubro não está muito melhor.

Por outro lado, foi um mês em que consegui ler muito: dez livros no total, marca que raramente atinjo (a última vez foi em janeiro, e antes disso não lembro de ter conseguido em nenhum momento desde a adolescência). A responsável foi a @soterradaporlivros, que comemorou o próprio aniversário e o de Star Trek com a maratona #JornadaLendoSciFi e me indicou uns livros ótimos para as categorias criadas por ela para a maratona.

Um outro evento contribuiu para o volume de leitura. Em meados de agosto, o youtube resolveu que não mandaria mais emails avisando de novos vídeos. Sou inscrita em diversos canais, de aulas de francês a lettering, passando por cultura pop, café e vinho. Geralmente, tomava o balde de café matutino em companhia dos vídeos, o que me tomava entre meia e uma hora por dia. Como não recebo mais os avisos por email, acabei perdendo o hábito, e esse tempo foi direcionado para a leitura. Resultado: reclamei muito quando o youtube parou de enviar as notificações por email, mas agora estou até achando bom.

Livro favorito: vou destacar A Curva do Sonho, de Ursula K. Le Guin, e All Systems Red, de Martha Wells. O primeiro é um clássico da ficção científica e uma verdadeira “viagem”: George Orr é um cara que tem “sonhos efetivos”, ou seja, que transformam a realidade; ninguém acredita e ele acaba encaminhado a um psiquiatra para tratamento, mas o psiquiatra mais atrapalha que ajuda. O segundo livro (ainda sem tradução no Brasil) é na verdade uma novela cuja protagonista é uma unidade de segurança biomecânica autointitulada “murderbot” que hackeou o próprio sistema e passa as horas vagas vendo seriados – pode não parecer, mas é uma personagem muito carismática.

Filme favorito: entrei numas de ver filmes antigos depois de um agosto cheio de filmes recentes e entediantes. Nada de Novo no Front (1930) merece destaque: o filme acompanha adolescentes alemães que largam a escola para lutar na Primeira Guerra Mundial em busca de honra e aventura. O que encontram, claro, é fome e morte – além da consciência de que o “inimigo” é alguém como eles próprios. É baseado no livro de mesmo nome de Erich Maria Remarque. O falecimento da juíza da Suprema Corte norte-americana Ruth Bader Ginsburg me motivou a assistir On the basis of sex (disponível na amazon prime video), que conta o início da sua carreira e é interessantíssimo.

Série favorita: nada de novo nesse front – estou revendo (pela terceira vez) Gilmore Girls.

Bônus: você conhece o Coursera? É uma plataforma de cursos online, vários deles grátis e com excelente conteúdo. Para quem entende inglês, é um prato cheio, já que todas as aulas têm legenda e transcrição nesse idioma. Se não é o seu caso, ainda assim vale a pena dar uma olhada, porque há bastante conteúdo em português e em outros idiomas. Já fiz alguns cursos na plataforma e em setembro comecei e terminei o curso Human Rights for Open Societies, que recomendo.