O que será que vem pela frente?

Tem nem graça fazer uma retrospectiva de 2020, né?

Passei o carnaval na fronteira com a Venezuela a trabalho (e por escolha). Nós – eu e minha companheira de aventuras em Pacaraima – só ouvíamos tv no café-da-manhã do hotel, por falta de opção, e começou o papo do tal “novo coronavírus”. Lembro que comentamos uma com a outra “nossa, será que não está acontecendo mais nada no mundo?” e não demos maior atenção.

Corta pra 11 de março, eu e a Simone plenas no cinema em uma pré-estreia lotada (depois de um starbucks também lotado). Ah, a tranquilidade da ignorância… No fim de semana seguinte, eu e uma amiga reservávamos o último hotel de nossa viagem de férias para a África do Sul, que começaria em 5 de abril. Começaria, olha o tempo verbal, porque veio a pandemia e, com ela, o fim da normalidade e dos planos.

Tenho queixas e lamentações como qualquer pessoa (pelo menos qualquer pessoa sensata), mas também preciso reconhecer: em um nível pessoal, 2020 não foi ruim para mim.

Claro, planos foram por água abaixo, tive momentos de ansiedade, preocupação e até desespero, uma quantidade avassaladora de trabalho e chorei a morte de pessoas (famosas e anônimas). Tive minhas neuroses e paranoias. E quem não teve? Se você não teve, sinto informar que você não é normal.

No frigir dos ovos, porém, foi o seguinte: não perdi o emprego, não perdi ninguém da minha família próxima, não perdi a saúde física nem mental. Essa sucessão de “nãos”, ante o que aconteceu com tanta gente, me faz acrescentar mais um “não”: não posso reclamar.

Quero dizer, posso. Todos podemos. Claro que podemos, foi um ano dos infernos.

Mas… não posso reclamar, sabe? Não de verdade.

Li muitos livros (85), vi muitos filmes (100), vi exposições (antes da pandemia) e muitas peças (National Theatre, eu te amo), guardei dinheiro (mais do que eu planejava, já que não viajei), aprendi um tanto de coisas (sobre cinema, sobre sorvete, sobre café, sobre a vida, o universo e tudo mais).

Enfrentei desafios e saí do outro lado. Encomendei minhas primeiras lentes multifocais (ainda me sinto uma câmera tentando ajustar o foco automático) e serviram na armação que escolhi e comprei antes, imprudentemente. Comprei roupas que não sei quando vou usar e um chromecast que uso quase todos os dias. Descobri que não preciso de academia de ginástica e nunca me senti tão forte fisicamente.

Tive perdas, sim, mas podia ter sido pior, muito pior.

Planos para 2021? Não trabalhamos. Sei que não vou turistar (e sabe-se lá quando poderei), sei que vou ler muito e ver muitos filmes. Sei que vou melhorar na ioga, um tiquinho por dia. Quero retomar o lettering, o desenho e a aquarela, e já estou nesse rumo – nada como um pouco de arte por dia para manter a sanidade. Preciso colocar barreiras entre a rotina profissional e o restante da minha vida, e estou aprendendo.

Um dia de cada vez, um passo a cada dia, rumo a 2022.

Coisas Boas de Dezembro

A melhor coisa de dezembro foi que 2020 terminou – tudo bem que parece que estamos vivendo o segundo tempo de 2020, mas vamos em frente.

Livro favorito: foi um mês de ótimas leituras e fiz algumas resenhas no instagram. Dos livros 5 estrelas, destaco 2001 – Uma Odisseia no Espaço porque é espantosamente melhor que o filme! Do filme eu só curto mesmo o HAL. O livro de Clarke não é pretensioso como a direção de Kubrick, tem uma boa base científica, fornece explicações e faz tudo isso sem ser tedioso.

Filme favorito: vou ficar com O Discurso do Rei pela excelente atuação de Colin Firfh e pelo panorama histórico.

Série favorita: estou adorando o retorno de Grey’s Anatomy.

Bônus: 2020 acabou, quer bônus melhor que esse? Eu e as pessoas que amo estamos saudáveis, não tive perda de renda como tantas outras pessoas, tenho conseguido driblar o stress e a ansiedade de forma satisfatória. Tenho do que reclamar, claro (quem não tem, está morando debaixo de uma pedra), mas podia ser pior, tem sido pior pra inúmeras famílias, e por não ser esse o caso por aqui já fico contente.

Agora começa a contagem regressiva para a vacina…

O método da Marie Kondo é bacana?

De vez em quando, alguém que sabe do meu interesse por minimalismo me pergunta se li A Mágica da Arrumação, de Marie Kondo. Bom, eu li logo depois do lançamento, anos atrás, e até cheguei a escrever um post pro blog, mas o rascunho se perdeu e acabei deixando pra lá.

A Mágica da Arrumação foi um baita sucesso e introduziu o método konmarie, um trocadilho com o nome da autora. Na prática, o método konmarie consiste em destralhar a casa inteira no menor tempo possível, descartando tudo que não é usado ou não traz alegria (a pergunta a fazer diante de cada objeto tornou-se famosa em inglês: does it spark joy?).

Outro ponto central do método é organizar as coisas por categoria e não por cômodos. Quer dizer, você não deveria deixar uma tesoura na cozinha e outra no escritório, parte da maquiagem no quarto e parte no banheiro etc., mas reunir em um só espaço os objetos que pertencem à mesma categoria, para evitar excessos e duplicatas desnecessárias.

O livro dá outras dicas menores, como arrumar a bolsa com frequência e dobrar as camisas de forma que todas possam ser vistas ao mesmo tempo quando se abre a gaveta.

E o que eu acho disso tudo?

Todo método é bom se ajuda você a se organizar, a destralhar, a viver uma vida mais simples e tranquila. Então, se você quiser testar o método konmarie, compre o livro e ponha em prática (o livro é fininho e você consegue ler em uma tarde).

Dito isso, eu não costumo recomendar as ideias da Marie Kondo, não, por vários motivos.

O que mais me desagrada é a rapidez com que a autora espera que alguém destralhe toda a casa. Isso pode gerar um efeito rebote, uma sensação de vazio que pode levar a um ataque de compras compulsivo. Isso é sério. Muita gente não suporta ver espaços vazios em casa, por isso junta tantos enfeitinhos, caixinhas, livros, cabides etc. Imagina uma pessoa assim aderindo ao método konmarie e destralhando a casa toda de uma vez: a probabilidade de que essa pessoa se sinta agoniada e torne a preencher os espaços vazios logo que possível é muito grande. Pode ser, também, que ela não torne a preencher os vazios (pelo menos não tão rápido), mas guarde uma sensação de perda e de arrependimento por anos, afetando futuras decisões de consumo, de organização e de destralhamento.

Não me agrada essa abordagem radical, de verdade. Acho que ela funciona bem em programas de tv (que nunca mostram como está a casa da pessoa cinco ou dez anos depois), mas o minimalismo não é, ou não deveria ser, uma “dieta da moda”, e sim uma mudança de estilo de vida. E toda mudança de estilo de vida leva tempo para se consolidar.

Outra coisa que me cai mal é o lema “isso me traz alegria?” para decidir o que deve ser descartado e o que deve ficar. Esse método pode levar a pessoa a um beco sem saída, em que tudo, ou quase tudo, “traz alegria” e, por isso, nada é destralhado. É curioso como a Marie Kondo inicia seu método com uma abordagem super prática (“jogue tudo fora”, ou quase isso) para depois sucumbir a uma reação emocional sobre as coisas.

Coisas devem nos servir, não o contrário. É altamente improdutivo desenvolver conexões emocionais com objetos e é justamente esse tipo de comportamento que leva à acumulação (patológica em alguns casos). Não tenho que pensar se um objeto me traz alegria, e sim se ele me é útil, se combina com meu estilo de vida e se me proporciona ganhos superiores a eventuais frustrações (como a obrigação de manter o objeto limpo/funcionando e de gastar um espaço da minha casa com ele).

“Mas e os objetos com valor sentimental?” Ora, é super normal ter um punhado de objetos com valor sentimental e poucas pessoas conseguem se livrar totalmente deles. Aí, o segredo é separar um pequeno espaço (uma gaveta, uma caixa, algo assim) para guardá-los, fazendo uma curadoria para realmente só manter o que traz boas e fortes lembranças. O resto pode ser fotografado antes de ser descartado, ou pode simplesmente ir pro lixo quando a gente percebe que o que importa são as memórias, não as coisas.

Se você entende inglês, recomendo a leitura do post Does it spark joy? para mais reflexões sobre esse ponto.

Por fim, a dica de manter todas as coisas da mesma categoria no mesmo lugar é perfeita quando se está no meio do processo de destralhamento e organização, mas pode ser bem improdutiva no dia-a-dia. Durante a fase de destralhe, serve para evitar duplicatas e redundâncias inúteis. No dia-a-dia, porém, pode ser interessante manter uma caneta e um bloco na mesa de cabeceira e outro kit desses no escritório (caso você use ambos em diferentes momentos do dia), pode ser prático deixar o batom de uso mais frequente no banheiro e não no quarto (lembrando que maquiagem em geral deve ser guardada em local seco, o banheiro é úmido demais e ela acaba estragando mais rápido). O minimalismo serve, antes de mais nada, para simplificar a vida e eventuais “regras” devem ser adequadas à realidade de cada pessoa.

Acho bacana que A Mágica da Arrumação tenha se tornado um best seller em 2014 e colocado em evidência temas como organização e minimalismo numa época em que apenas um punhado de blogs falava do assunto (hoje o tema anda na moda). O livro é fininho, de leitura fácil e pode ser um bom começo para quem está pensando em livrar-se dos excessos consumistas. Mas é importante saber que o método konmarie não é o único, não é o ideal pra todo mundo e não é completo.

México – Ciudad de México, Puebla e Playa del Carmen

Sem dúvida, essa foi a melhor viagem do ano e uma das melhores ever. Em parte porque há coisas incríveis pra ver no México, em parte porque, aparentemente, estou aprendendo a planejar melhor minhas viagens, embora ainda cometa alguns erros.

Dicas Gerais

O México é um país enorme e tão variado quanto o Brasil. A menos que você passe no mínimo um mês lá, conforme-se com o fato de que não conseguirá ver todas as coisas interessantes que nossos hermanos da América do Norte têm a mostrar.

As distâncias costumam ser grandes. Quando são pequenas, vale a pena usar os ônibus da ADO, que são muito confortáveis e baratos.

Aliás, de modo geral, o México é um país barato. A exceção fica por conta de Cancun e adjacências, onde tudo é cotado em dólares.

Que moeda levar para o México? Dólares. Onde fazer câmbio? No aeroporto da Cidade do México, por incrença que parível. Aeroportos costumam ter péssimas cotações – o da Cidade do México é a exceção à regra.

Circula pela internet a dica de fazer câmbio no banco IXE do aeroporto. Pois bem, rodei tudo, não achei, ninguém conhecia e, por fim, um garçom me disse que tinha sido comprado pelo Banorte e que não havia mais loja no aeroporto, apenas um caixa eletrônico. Troquei meus dólares no Ci Bank, a 18,25 pesos mexicanos por dólar. Na Cidade do México (vamos abreviá-la para CDMX, ok?, eles usam assim por lá) e em Puebla, a cotação girava em torno de 18. Em Playa del Carmen, caía para 17,50.

Em novembro de 2016, 1 real valia mais ou menos 5 pesos.

Trump foi eleito presidente três dias antes de eu sair do México e o peso mexicano desvalorizou bastante nesse período. Vi o dólar por 18,20 pesos no meu último dia em Playa del Carmen, e por 18,40 no aeroporto de CDMX. Parece um bom momento para programar sua viagem pra lá.

Quando ir? Fui em baixa temporada e na época em que há mais risco de furacões (outubro/novembro), mas trata-se de um risco pequeno, na verdade. Escolhi essa época para pagar menos, pegar menos calor e pouca chuva em Playa del Carmen. Durante o verão, o calor é de matar e há mais chuvas. Na CDMX e em Puebla, o clima é mais constante durante todo o ano, fresco (em razão da altitude) e com poucas chuvas – quase nenhuma na CDMX. A alta temporada em Cancun e Playa del Carmen começa em dezembro e vai até março (inverno no hemisfério norte e invasão de norte-americanos e europeus). Eu recomendo a época em que fui, mas você deve dar uma pesquisada no climatempo e sites análogos antes de decidir.

Fato é que escolhi a época da minha viagem em função do Día de Muertos (que coincide com nosso dia de finados, 2 de novembro), que é celebrado de maneira ímpar no México.

Quanto tempo ficar no México? Depende do viajante e do itinerário. Eu elegi três cidades: CDMX, Puebla e Playa del Carmen. Cheguei na CDMX no dia 28 de outubro, fui para Puebla em 1º de novembro e segui para Playa del Carmen em 7 de novembro, onde fiquei até o dia 11. Recomendo um roteiro ligeiramente diferente: 3 dias inteiros em CDMX, 5 dias em Puebla e 5 dias em Playa del Carmen.

Emiti a passagem São Paulo – CDMX – São Paulo. A volta foi complicada, porque tive de ir de Playa a Cancun (uma hora e dez minutos de ônibus), de Cancun a CDMX (duas horas e meia de vôo) e da CDMX a SP (nove horas de vôo). Somando as esperas no aeroporto e o fuso horário de quatro horas, isso significou sair do hotel de Playa às nove da manhã de sexta e chegar em casa às sete e meia da manhã de sábado. É, foi puxado. Valem lembrar que, se você só quer aproveitar o caribe mexicano, há vôos diretos do Brasil a Cancun (mas o México é muito mais que suas praias).

A propósito, o avião da TAM era uma lata de sardinha e mal era possível encaixar a mala de bordo no bagageiro. De Puebla a Cancun, voei Aero México, vôo dividido em dois trechos, ambos num jatinho minúsculo da Embraer (50 pessoas!, sem espaço pra mala de bordo!, o nariz do avião é mais baixo que eu!), mas o espaço entre poltronas era ótimo. De Cancun a CDMX, também pela Aero México, peguei um dos melhores aviões da vida, com ótimo espaço entre poltronas e para bagagem de bordo. Ou seja, Aero México vareia.

Internet: no México, não é muito comum encontrar wifi, mesmo em restaurantes. Comprei um chip da Telcel (a empresa mais fácil de encontrar). Gastei 79 pesos no chip, 100 pesos no plano de internet e 1 hora na loja (nem tinha fila, mas a funcionária não sabia fazer nada, o sistema estava lento etc. – senti-me em casa). O pacote escolhido foi o de 23 dias (por que diabos não 22 ou 24?), com 600 MB de dados para o período (whatsapp e facebook à vontade). Mais que suficiente. A conexão é mais ou menos (melhor que nada). Funciona em todo o país. A Claro pertence ao mesmo grupo – se você tiver o chip da Claro, acho que vale a pena levar pra ver se consegue habilitar a Telcel sem pagar novo chip.

Falando em telefone, lá vai uma curiosidade: os mexicanos atendem o telefone falando “Bueno. Soa bastante rude, como quem diz “Bom, e aí, tá ligando por quê?”, mas há uma explicação: quando as linhas telefônicas começaram a ser instaladas, o sinal costumava ser muito ruim, prejudicando a qualidade da ligação. Quando o sinal estava bom, o interlocutor comunicava o fato dizendo “bueno”, indicando que a linha funcionava e a conversa podia ter seguimento. Vem daí o “bueno”, portanto não o considere uma ofensa.

Da mesma forma, é bom saber que em espanhol usa-se muito o verbo no imperativo e isso não é considerado ríspido (diferentemente do que acontece em português). Quando você chegar ao hotel, é provável que o recepcionista fale “Passa, passa”. Uma colega do curso de espanhol comentou que na primeira vez em que ouviu isso pensou “ora, eu não sou cachorro pra esse fulano me mandar passar”, mas a expressão quer dizer apenas “Entre” e é cortês, acredite.

Quanto gastei? O trecho São Paulo – CDMX – São Paulo custou 40.000 pontos multiplos, mais 364 reais de taxas de embarque. Os demais gastos serão apontados nos textos sobre cada cidade.

O que fazer no México? Senta que lá vem a história…

A viagem toda, em três capítulos:

  • Cidade do México: lições de história pré-hispânica.
  • Puebla: gastronomia em destaque. (em breve)
  • Playa del Carmen: belezas naturais. (em breve)