Qual é a experiência que importa?

Cena 1: seu namorado passa na sua casa, de carro. Vocês vão sair pra jantar. No trajeto até o restaurante (digamos, uns quinze minutos), ele mal olha para você. As atenções do moço estão todas voltadas para a ligação no celular (bem, você espera que tenha sobrado um pouquinho de atenção para o trânsito). Enquanto isso, você vai contando os postes da rua para se distrair.

Cena 2: você e sua amiga marcam um almoço para colocar o papo em dia. Vocês mal fazem o pedido e sua amiga recebe uma mensagem. Ela responde e, finalmente, você começa a contar as novidades. Um minuto e meio depois, o celular da amiga toca novamente. Ela lê a mensagem, e responde. Vira para você e diz “pode continuar”. Ah, que bom que você pode continuar. Você tenta e… o celular da amiga toca de novo. Outra mensagem, que ela responde. O papo – com o celular – deve estar bem interessante. Você desiste de entabular qualquer conversa. Melhor não atrapalhar.

Cena 3: você e dois amigos resolvem se encontrar para um happy hour. Eles sabem que você sai mais tarde do trabalho e vai se atrasar uns vinte minutos. Quando você chega, um dos amigos está com cara de bunda, enquanto o outro está pendurado num tablet. Há vinte minutos. Ignorando solenemente o amigo que está na frente dele. E nem vê que você chegou, claro.

Cena 4: você resolveu almoçar sozinha num dos seus restaurantes favoritos. Na mesa ao lado, estão quatro pessoas, provavelmente quatro amigos (você supõe, ao menos, que não sejam inimigos). Um está teclando furiosamente (provavelmente postando fotos no instagram), outro está aos berros numa ligação e os outros dois são os únicos realmente tentando interagir – mas não conseguem manter o fio da meada por causa do companheiro gritando ao celular. Aliás, ninguém no restaurante consegue.

Se você nunca passou por uma dessas situações (ou por alguma outra bem parecida), você é um sortudo. Ou um privilegiado, porque todos os seus amigos e conhecidos sabem se comportar. Hum… mais provavelmente, é você o amigo desagradável.

Veja, eu entendo essa conectividade permanente e, confesso, sou fã número 1 dela. Tenho computador, tablet, smartphone (que até faz ligações, embora eu deteste usar esse recurso), pacote de dados, wifi. São poucos os momentos em que não há uma tela conectada no meu nariz. Isso, bem entendido, quando estou sozinha. Quando almoço sozinha, o twitter é uma companhia agradável. Em casa, vendo televisão, uma das telinhas também está constantemente em uso.

Quando, porém, saio com outras pessoas, as telas somem. Só deixo o celular em cima da mesa se estiver esperando uma ligação, quase sempre de algum amigo que ainda não chegou. Nem olho eventuais mensagens que cheguem e, se tiver mesmo que atender o telefone, peço desculpas e procuro resolver em menos de um minuto. De preferência, nem atendo – sempre posso retornar a chamada mais tarde. E, certamente, não serei eu a fazer uma ligação e alienar as pessoas que estão comigo.

Amo meu celular, a internet, a possibilidade de estar sempre conectada e a chance de conversar com novos e velhos amigos a qualquer momento. Só que, por princípio, a pessoa que está na minha frente é sempre mais importante que qualquer outra. Eu não saí contigo para que você tenha que contar as mesas do restaurante pra se distrair, nem tenha que recorrer ao seu próprio celular se quiser algum tipo de interação social. Eu saí com você para estar com você. As outras pessoas, por mais interessantes ou legais que sejam, não estão comigo. Não sou médica ou veterinária, portanto não posso salvar a vida delas ou dos eventuais bichinhos de estimação (sim, dou salvo-conduto aos profissionais de saúde, e só a eles). Qualquer assunto que brote no meu celular pode esperar.

Deixar você plantado ouvindo o vento enquanto eu me ocupo de outras coisas é sinal de absoluto desrespeito. É descaso profundo. É como se eu dissesse “eu sou importante demais para focar meus olhos e ouvidos em você, tenho mais o que fazer – e estou aqui, fisicamente, por uma deferência à sua pessoa, mas meu espírito e minha atenção estão em outro lugar; contente-se com isso”.

Aí, você pode me dizer: “ah, mas isso é o progresso, nós estamos sempre conectados, conseguimos fazer várias coisas ao mesmo tempo e, olha só, eu posso perfeitamente estar batendo papo no twitter ou me pendurar num telefonema e te dar atenção ao mesmo tempo”.

Não, cara-pálida. A conectividade, a modernidade, a contemporaneidade, o raioqueopartadade não são desculpas para a sua falta de consideração.

Entenda: a pessoa que está na sua frente abriu mão de algo para estar ali. Ela podia estar fazendo qualquer outra coisa. Ela podia, inclusive, estar fazendo nada. Pelo simples fato de estar ali, ela merece que você também esteja, e não só de corpo presente.

Se você não é capaz de entender isso, lamento muito pelas pessoas com quem se relaciona – se é que sobrou alguma.

(Texto inspirado por essa crítica. Há algo
errado quando o que importa é a experiência de
um produto, não quem está na sua frente.)

Classificados

Procura-se alguém em quem se possa confiar. Alguém que saiba compartilhar dores e alegrias. Alguém que tenha problemas, mas não se afogue neles. Alguém que mantenha a cabeça erguida, o olhar no futuro, os pés no presente e a mão estendida, para caminhar junto a mim.

Procura-se alguém que não confunda amor com subserviência, que não abuse dos amigos, que não se apegue às tristezas.

Procura-se alguém que viva cada dia como se fosse o último.

Procura-se alguém que dê valor às coisas simples e aprecie as sofisticadas.

Procura-se alguém que não prenda, não amarre, não ameace, não faça chantagens.

Procura-se alguém que peça ajuda francamente, quando precisar, e que também saiba ajudar.

Procura-se alguém que deseje crescer comigo.

Procura-se alguém que fale de mil coisas ao mesmo tempo: da última fofoca às mais novas teorias da física quântica.

Procura-se alguém que ache graça em rever um episódio de seriado pela enésima vez, bebericando vinho, e que depois tire um cochilo gostoso ao meu lado.

Procura-se alguém que ouça de vez em quando. Que respeite meus limites e não os force uma vez por semana. Que tenha gosto pela vida, mesmo quando a vida é desgostosa, porque sabe que, no fim das contas, todo desgosto passará.

Procura-se alguém para dividir brigadeiro de panela, milkshake de confeitaria e o croissant gigante da delicatessen.

Procura-se alguém para sair por aí, sem rumo e sem vergonha.

Procura-se alguém para amar, que se deixe amar e que saiba amar.

Tratar aqui.

(Escrito em 15.9.2011, em meio a uma fossa que já passou. Tudo tem vantagens, e a fossa tem duas para mim: emagrece e provoca escritos. 😉 )

Acabou.

Se eu te dissesse, meu bem, pelo que passei nos últimos dias…
Você tem o mundo na ponta dos dedos. Eu tinha você.
Agora, me diz, o que você faria?
Ponha-se no meu lugar.
Vista minha pele.
E me responda: como se levantaria novamente?
Despida, desnuda, aberta, em febre, sozinha, carente, descrente, ferida.
Para onde você iria?
Desculpe, mas não posso te refugiar.
Não sobrou nada. Estou vazia.
Não tenho mais o que dar.
Preciso daquilo que você me tomou.
Colo, apoio, carinho, amor.
Sinto muito, mas acabou.

(Escrito em 11 de agosto de 2011. Escolhido propositadamente para fechar as postagens de 2011, porque não vi a hora desse ano acabar. 2012 tem que ser melhor!)

O Fim de Cada Amor

Coração na AreiaDa primeira vez que um grande amor termina, você tem absoluta certeza de que vai morrer. Tudo que entende é que a sua vida acabou ali, no segundo em que ele deu as costas. Não há mais futuro. Supondo-se vagamente que não morra, uma coisa é inegável: você nunca mais será amada novamente.

Da segunda vez que um grande amor termina – o quê?, como assim, “segunda vez”? Pois é. Acontece que você estava errada. Você continuou a viver e, veja só que coisa, foi amada novamente – e correspondeu! Pois então: da segunda vez em que termina um grande amor, você jura que será a última – isto é, na hipótese de sobreviver (mas o fato é que, dada a primeira experiência, você começa a achar que também não será dessa vez que morrerá). Encarnando Scarlett O’Hara, você seca as lágrimas, olha para o céu, ergue os punhos e brada: “Nunca mais amarei novamente!”.

Da terceira vez que um grande amor termina, você sofre como se fosse a primeira. Encolhe-se na cama, encharca o travesseiro e soluça até dormir, finalmente. Pergunta-se o que fez de errado e imagina mil conversas e alternativas que teriam evitado o fim desse amor que parecia eterno. Só que, a essa altura, você sabe que vai passar. Sim, novas cicatrizes surgirão. O medo de outro tombo aumentará, inevitavelmente. Mas você sabe que a vida continua e que, um dia, estará pronta para amar de novo.

Então, torcerá para que seja a última vez.

(Escrito em 9.9.2011.)

Imagem: joegus74, royalty free.