Khan se foi.

Khan em Jornada nas Estrelas: Série Clássica.
Ricardo Montalbán em Jornada nas Estrelas: Série Clássica.

Fiquei sabendo ontem à noite, pelo Cesar Cardoso (mais precisamente, pelo twitter dele): Khan Noonien Singh, o melhor vilão de Star Trek, presente tanto na série clássica quanto em um dos grandes filmes da franquia, não está mais entre nós. Ricardo Montalbán, seu intérprete, morreu ontem , aos 88 anos. A causa da morte não foi divulgada, mas dá pra imaginar que os benefícios eugênicos do personagem não passaram para o ator, e ponto.

Khan é um desses vilões que você não consegue odiar inteiramente. Ele tem uma história, tem razões pra ser “mau”, tem um contexto bem amarrado.

Khan havia sido um dos líderes durante as Guerras Eugênicas no final do século XX. É encontrado pela tripulação do Capitão James Tiberius Kirk em 2.267, numa nave à deriva, mantido em estado criogênico ao lado de 84 seguidores. Quando sua derrota era iminente, a fuga nessa nave (a Botany Bay) foi sua rota de sobrevivência.

Kirk reencontra Khaaaaaaaaaan.
Kirk reencontra Khaaaaaaaaaan.

A tripulação de Kirk revive Khan; em “agradecimento”, ele tenta capturar a Enterprise, desejoso de tornar-se líder da humanidade uma vez mais. O plano fracassa, claro. Khan e seu séquito, então, são enviados para Ceti Alpha V, planeta habitável, mas inóspito, onde poderão viver em liberdade e criar uma nova civilização.

Só que as coisas não saem exatamente como o planejado. Após 15 anos, Khan e Kirk se reencontram. Khan está enfurecido: anos atrás, o planeta vizinho, Ceti Alpha VI, explodira, afetando gravemente a órbita e as condições de Ceti Alpha V e selando a morte da maior parte dos seus seguidores. Durante anos, Khan planejou sua vigança contra James Kirk – finalmente, o momento havia chegado.

Montalbán em Jornada nas Estrelas: A Ira de Khan.
Montalbán em Jornada nas Estrelas: A Ira de Khan.

Khan é inteligente, carismático, charmoso, forte física e emocionalmente. É produto da engenharia genética e de um cenário apocalíptico. Deslocado, luta pela sobrevivência. Não é infantil como Trelane ou Q, não é uma coletividade sem alma como os borgs, nem é raso como a maioria dos inimigos klingos e romulanos. Khan tem conteúdo e é isso que o torna o maior vilão que Jornada nas Estrelas já teve.

Por algum erro no continuum, Ricardo Montálban é mais conhecido como o Sr. Roarke, anfitrião da Ilha da Fantasia ao lado de Tattoo. Para os trekkers, o episódio A Semente do Espaço (um dos pontos altos da série clássica) e o fantástico filme A Ira de Khan representam com mais fidelidade o talento desse grande ator. Vida Longa e Próspera às reprises.

Imagens (pela ordem): Wikipedia; Prodigeek; Wikipedia. Fair use.

Um Brinde ao Vanderlei

Vanderlei Cordeiro de Lima, exemplo de ombridade.
Vanderlei Cordeiro de Lima, exemplo de ombridade.

Vanderlei Cordeiro de Lima, 39 anos, aposentou-se no último dia 31, após correr a São Silvestre de 2008.

“Quem é esse cara?”, você pergunta.

Vanderlei é ex-bóia-fria, fundista, medalhista olímpico e herói. Nas Olímpiadas de Atenas, em 2004, corria em direção a uma inédita medalha de ouro na maratona. No 36º quilômetro, um maluco invadiu a prova e agarrou Vanderlei. O sujeitinho era um padre irlandês e, na cabeça torta dele, estava fazendo um protesto religioso, cuja consequência foi a perda do ouro de Vanderlei.

Foi por sorte que o atleta não se contundiu. Ele se assustou, perdeu o ritmo e a vantagem, mas conquistou a medalha de bronze – o melhor resultado da história do Brasil na prova.

O que me faz erguer o brinde nem é a medalha de bronze, mas a ombridade de Vanderlei: ele viu o ouro olímpico escorrer de suas mãos e, mesmo assim, suas entrevistas após o acontecido foram engrandecedoras. Claro que o maratonista ficou indignado com o doido varrido, mas carregou o bronze com orgulho e satisfação. O ex-bóia-fria deu uma lição de humildade em muita gente culta que, achando-se a última coca-cola do deserto, fica ofendidinha quando perde um prêmio e ainda tem a deselegância de desmerecer o vencedor (sim, estou falando da Fernanda Montenegro).

Vanderlei não ganhou medalha na última São Silvestre, mas subiu ao pódio como herói e foi homenageado. Seu caráter já tinha lhe valido a Medalha Pierre de Coubertin, honraria concedida a pouquíssimos atletas (cinco até hoje, dois em reconhecimento póstumo) e que simboliza o verdadeiro espírito olímpico.

Faz muito bem começar o ano pensando em alguém tão batalhador e honrado quanto Vanderlei Cordeiro de Lima. É um alívio, frente a tantos canalhas que lotam diariamente as manchetes, e um exemplo a ser seguido.

Um brinde ao Vanderlei, e feliz 2009 para todos nós!

Imagem: Ricardo Stuckert/PR, para Agência Brasil. Wikipédia. CC 2.5.

Morre Ingmar Bergman

Ingmar BergmanO cinema perdeu hoje, 30 de julho de 2007, um de seus maiores expoentes: Ingmar Bergman morreu aos 89 anos, em seu país, a Suécia. Não vou me preocupar em traçar a biografia dele – você pode saber mais sobre o diretor na Folha de São Paulo.

Bergman faz parte de um estilo cinematográfico que está praticamente extinto: filmes de arte, contemplativos, com longos silêncios forçando à introspecção, carregados de referências filosóficas e psicanalíticas. Em tempos de superproduções hollywoodianas, com seus megafilmes arrasa-quarteirão, lotados de estrelas e efeitos especiais, quem tem tempo e paciência para a assistir a duas horas de filosofia em forma de filme?

Os cineastas populares atuais que chegam mais perto do cinema de arte são Woody Allen e Pedro Almodóvar. Nem sempre pela contemplação, mas pelos múltiplos sentidos que se pode enxergar na maioria de suas produções. Como são queridinhos da mídia (e é chique dizer que se gosta deles), conseguem altas bilheterias, mas nem tanto quanto o cinema-pipoca.

Dos mais de 50 filmes de Bergman, assisti a Gritos e Sussurros (Viskningar Och Rop) e O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet).

O jogo de xadrez com a Morte O Sétimo Selo (1957), filmado em preto e branco, se passa na Idade Média, numa região dizimada pela peste. Sua cena emblemática é o jogo de xadrez entre a Morte e o protagonista (um cavaleiro das Cruzadas), que tenta dar significado à vida.

Gritos e Sussurros (1972) traz uma fotografia marcante (que, inclusive, levou o Oscar em 1974) e carrega nos tons fortes, como o vermelho (Almodóvar também usa e abusa de cores vivas). O forte impacto visual é contraposto ao silêncio das personagens.

Se você gosta mesmo de cinema, vale a pena procurar uma locadora que conte com filmes de arte. Inicialmente, pode ser difícil adaptar-se à linguagem que ultrapassa as fronteiras de Hollywood, mas com o tempo perceberá como é gratificante e informativo ampliar o leque – além de divertido, é claro.

Michelangelo AntonioniAtualização: como se não bastasse, horas depois morreu Michelangelo Antonioni, outro monstro do cinema, como lembrou o Dudu Tomaselli. De Antonioni, vi L’Avventura (1960) e Blow-Up (1966). L’Avventura não me envolveu, ao contrário de Depois Daquele Beijo (título que Blow-Up recebeu no Brasil).

Blow-Up captura a atenção da primeira à última cena. Ousado e transgressor para os anos 60, o filme merece ser visto e revisto, já que novos significados são apreendidos pelo espectador a cada exibição. Blow-Up é ainda mais interessante para o cinéfilo que aprecia fotografia – não só pelas suas belas tomadas, mas especialmente porque o protagonista é um fotógrafo e em torno de uma imagem fotografada por ele se desenrola a trama (“blow-up” é a ampliação de um detalhe de uma fotografia). Sem exagero, um dos filmes mais interessantes que já vi, obra obrigatória para os fãs da sétima arte.Cena de Blow-Up (Depois Daquele Beijo)

A cena ao lado, logo do início do filme, foi copiada em alguma produção recente… só não me lembro em qual!

Mais da Mesma

A última idéia de gênio da Cicarelli é dar uma de joão-sem-braço. Diz que não entrou com ação contra o youtube, que isso é coisa do namorado dela, exclusivamente. Dona Cica dignou-se a vir a público, mais exatamente ao Jornal da Globo exibido no fim da noite de 09 de janeiro, para contar essa história. A repórter pressionou: “Mas essa não teria sido uma decisão tomada pelo casal, você e seu namorado?”. E Cica sustentou: “Não, de jeito nenhum. Se fosse idéia minha também, eu não esconderia meu nome, porque pelo menos poderia ganhar a indenização”.

Bem, essa é a mesma lorota contada pela MTV em seu blog, no meio da tarde. O Cardoso já foi atrás de desmentir e o fez citando o site Consultor Jurídico. Vale a pena ler o texto do Consultor na íntegra, pois há excelente voto divergente (ou seja, em sentido contrário à decisão tacanha do desembargador Ênio), de uma lucidez que nos faz perceber que nem tudo está perdido no judiciário brasileiro:

A análise de qualquer direito fundamental que não considere este novo veículo de comunicação [a internet] será inadequada como forma de traduzir o também novo sentimento jurídico acerca de qualquer tipo de censura ligado às empresas nacionais que mantêm páginas na internet, esta maravilhosa rede de computadores que encurtou todas as distâncias, que fez o tempo passar tão velozmente a ponto de o furo de reportagem da manhã estar envelhecida no começo da tarde, e em que o mundo, com os seus fatos importantes e de interesse geral da sociedade, aparece a um clique na tela do computador pessoal de cada cidadão.

Ignorar esta realidade poderá conduzir, não raro, a uma decisão judicial absolutamente inócua, quase surreal, porque enquanto o mundo todo já viu as imagens e leu as notícias (inclusive guardando-as em seu computador pessoal os que as colecionam), e que continuam espalhadas em incontáveis outros sites pelo mundo a fora, acessíveis a qualquer brasileiro, censura-se um provedor brasileiro de manter na sua página eletrônica o que todo mundo já viu e que o mundo inteiro continua mostrando.

Nesse contexto novo, não se pode cogitar de direito à privacidade ou à intimidade quando os autores, apesar de conscientes de serem figuras públicas, em especial a modelo Daniela Cicarelli (e quem a acompanha evidentemente não ignora o fato), se dispõem a protagonizar cenas de sensualidade explícita em local público e badalado como é a praia em que estavam, uma das que compõem o que se poderia chamar de riviera espanhola, situada na Costa da Andaluzia, no município de Cádiz.

Pessoas públicas, cuja popularidade atrai normalmente turistas e profissionais da imprensa em geral, particularmente os conhecidíssimos “paparazzi” da Europa, não podem se dar ao desfrute de aparecer em lugares públicos expondo abertamente suas sensualidades sem ter a consciência plena de que estão sendo olhados, gravados e fotografados, até porque ninguém ignora, como não ignoravam os autores, que hoje qualquer celular grava um filme de vários minutos com razoável qualidade.

O voto continua na página seguinte. O desembargador que o proferiu foi Maia da Cunha. A blogosfera concentrou-se na mazela (o que é natural) e nem reparou nessa voz contrária. Eu mesma só li o voto divergente por acaso, porque cliquei na tal página do Consultor e rolei o texto quase sem querer. Só não digo que o voto divergente foi brilhante porque a questão seria óbvia e pacífica, não fosse a mentalidade estreita do relator do processo. É assim mesmo: o metal polido parece verdadeiro ouro em comparação à feiúra de restos enferrujados. De todo modo, é bom percebermos que há gente competente, lúcida e de visão contemporânea na Justiça brasileira.

Por outro lado, o que acontece no jornalismo? O Jornal da Globo costumava ser o melhor noticiário da emissora. Veiculado num horário menos nobre e, na prática, mais elitista, tinha o hábito de aprofundar matérias e não subestimava a capacidade do telespectador – ao contrário do Jornal Nacional, cujo editor-chefe considera o telespectador tão inteligente quanto o Homer Simpson. Realmente, não sei como anda a linha editorial do Jornal da Globo (não vejo televisão aberta regularmente há tempos), mas deve ter decaído, ou as informações prestadas por Cicarelli teriam sido checadas. Uma simples busca no Google desmentiria a modelo. O Jornal, no entanto, optou por divulgar declarações mentirosas como se verdadeiras fossem. Surpreendente. Ou talvez não.

Segredo de justiçaVai ver que as assessorias de imprensa da Cicarelli e da MTV (espero que estejam na mão da mesma pessoa – é melhor do que acreditar que dois assessores distintos julgaram que a opinião pública é idiota) tenham pensado que o papinho iria “colar” só porque o processo corre em segredo de justiça, como revela rápida pesquisa no site do Tribunal de Justiça de São Paulo (clique na imagem ao lado para ampliar). Esqueceram-se de que a pesquisa por nome da parte e algumas consultas ao Google impediriam o anonimato.

Aliás, pra alguém que estava tão à vontade na praia espanhola, a modelo e pretensa apresentadora anda bem tímida agora.