Era Uma Vez Um Corredor

Era Uma Vez Um Corredor - capa Quenton Cassidy é um estudante universitário mas, antes de qualquer coisa, é um corredor. Sua especialidade são as provas de uma milha e seu objetivo é fechá-las em menos de 4 minutos – um objetivo que exige sacrifícios, “quilômetros de sacrifício”, ou “o sacrifício dos quilômetros”. Tem, ainda, um outro sonho, quase indizível: ser um atleta olímpico. Era Uma Vez Um Corredor dá uma boa ideia da dureza que é a vida de um atleta de elite: o desgaste físico, o tremendo condicionamento psicológico, as constantes renúncias, a vida social quase inexistente, a dificuldade de conciliar os pesados treinos com um relacionamento amoroso.

Como pano de fundo, os Estados Unidos dos anos 70, tumultuado por questões como a Guerra do Vietnã e a discriminação no campus da Southeastern University, lar de Cassidy. Lá pelas tantas, o corredor é envolvido pelo turbilhão e resta-lhe apenas um porto seguro: Bruce Denton, medalhista olímpico e seu mentor.

Resumido assim, você poderia ficar com a impressão de que este é um livro sombrio. Não é. Na verdade, ele rende boas risadas graças ao humor negro do narrador e do próprio Cassidy, que adora uma ironia e ri das próprias desventuras – mesmo que seja um sorriso amarelo de vez em quando. Era Uma Vez Um Corredor é a história de alguém que persegue seu sonho, mesmo sem saber direito onde vai dar ou se valerá a pena; alguém que trabalha sempre no máximo, que não desiste, que é quase obcecado. Dá para entender por que o livro inspirou gerações de atletas desde a sua primeira publicação. É, também, uma inspiração para qualquer um que tenta desafiar os próprios limites, atleta ou não.

A história do seu autor também é inspiradora: John L. Parker Jr. foi, ele mesmo, um corredor universitário e conviveu com atletas olímpicos, embora o Cassidy seja apenas ligeiramente inspirado nele (o melhor tempo de Parker na corrida de uma milha foi 4:06). Escreveu o romance em 1978 e nenhuma editora quis publicá-lo; Parker vendia os livros no porta-malas do seu carro nos eventos de corrida. Apenas nos anos 90 foi republicado, e em 2009 foi relançado, já com a aclamação da crítica. Em 2007, Parker lançou a sequência Again to Carthage.

Desde sempre há boatos sobre um filme baseado no livro – sem dúvida, seria uma excelente ideia. No youtube, você pode ver um trailer falso que bem poderia ser verdadeiro:

Era Uma Vez Um Corredor é tão bem conduzido que você se pega torcendo ardentemente por Cassidy, como se ele fosse um amigo querido e você estivesse na arquibancada vendo-o competir.

Trechos

Queriam já estar na corrida. Queriam ter terminado. A disputa em si era suportável,pois era para isso que tinham treinado. A espera, no entanto, era uma experiência infernal. (p. 96)

Apesar do esforço árduo, raramente falavam em termos de dor ao comentarem o desconforto de treinos ou corridas. Sabiam que aquilo que dava à dor a sua dimensão verdadeiramente terrível era certa falta de familiaridade. e essas eram sensações que eles conheciam muito bem. (p. 147)

Ainda que as grandes distâncias proporcionem as bases da formação de um corredor, os intervalados tornam as competições mais cruéis. Quenton Cassidy gostava deles. Outros preferiam farpas de bambu sob as unhas. (p. 196)

Começaram. Os dois ou três primeiros [tiros de quatrocentos metros] sempre pareciam, de algum modo, especialmente ruins. Na verdade, era uma falsa impressão. Eles se sentiam lentos porque o corpo estava sob o choque de uma súbita exigência de velocidade constante. Depois de subirem a níveis comparáveis aos de um beija-flor, os batimentos cardíacos mantinham-se nesse ritmo por algum tempo. As pernas ficavam prematuramente pesadas, e o sistema nervoso central enviava a mensagem de que esse sacrifício não poderia ser suportado. Mas o sistema nervoso central acaba precisando se submeter, é claro, pois o corredor a essa altura sabe melhor que suas próprias sinapses o que se espera que o corpo possa ou não fazer. O corredor lida quase diariamente com essas limitações físicas absolutas, que o não corredor enfrenta apenas em situações extremas. Ao fugir de um assassino armado ou de um animal feroz, uma pessoa comum logo encontrará os assustadores limites que até o mais completo terror não pode superar. O corredor conhece esses limites tão bem quanto cada detalhe da calçada de sua vizinhança. (p. 198)

O treino de Denton normalmente exigia períodos de recuperação bastante curtos, e Cassidy ficara espantado com a maneira como ele reagia às pequenas pílulas de descanso. O fator-chave era a recuperação: quanto mais rápida fosse, mais rápido o atleta poderia correr. “Uma corrida”, Denton costumava dizer, “é cem por cento suar, e nada de bufar. Então, por que treinar descanso?” (p. 200)

Ele poderia ser o atleta mais bem-condicionado do mundo, mas, se a mente não estivesse preparada para aceitar a onda entorpecedora no começo da segunda volta, ele nem sequer terminaria a prova, muito menos a venceria. (p. 222)

Depois abriu os zíperes ao longo das pernas e apalpou ambos os tendões de aquiles de cima a baixo. Todos os nódulos e calombos tinham desaparecidos. “Trilhas suaves”, pensou, “o maldito Dentou e suas maravilhosas trilhas suaves.” Havia atravessado o inverso em perfeitas condições, só dois resfriados e nenhuma lesão de verdade. Era um homem sem um álibi. (p. 227)

Ficha

  • Título original: Once a Runner
  • Autor: John L. Parker Jr.
  • Editora: Intrínseca
  • Páginas: 246
  • Cotação: 5  estrelas
  • Encontre Era Uma Vez Um Corredor.

Neuromancer

Neuromancer - capa

No início da adolescência, apaixonei-me por ficção científica. Tive a sorte de ter uma biblioteca excelente a poucos passos de casa e devorei o que havia de Júlio Verne e Isaac Asimov. Passaram-se vários anos e, por razões que a própria razão desconhece, afastei-me do gênero. Não foi falta de interesse ou de tempo. Fato é que, por causa do Desafio Literário, revisitei a ficção científica em abril e descobri que meu amor por ela não diminuiu.

Neuromancer estava na fila de “ler um dia” há quase vinte anos, quando o descobri no catálogo da Editora Aleph (que abraçava o gênero com força nos anos 90). Há uns dois anos, achei uma edição num sebo e a trouxe pra casa. Entrou na lista do desafio e, embora tenha lido no prazo, não fiz a resenha a tempo. Como resenhar um livro desses? Não é fácil, não.

O mundo apresentado em Neuromancer é vertiginoso. O leitor é tragado para um futuro-não-muito-distante pessimista, bem diferente da tradicional ficção científica que trata de civilizações que evoluíram a ponto de resolverem todos os nossos problemas. A realidade de Neuromancer é distópica ou, mais especificamente, cyberpunk – termo cunhado posteriormente para designar as histórias que retratavam mundos avançados tecnologicamente, mas não moralmente.

Case, o protagonista de Neuromancer, é um marginal, um pária. Um hacker disposto a vender seus serviços a quem paga mais, independentemente de riscos e sem qualquer dilema de consciência. À beira da morte, é contratado para uma nova empreitada, com a promessa de ser curado caso tenha sucesso. Trata-se, no entanto, de uma ação de altíssimo risco. Para completar sua missão, Case terá de se embrenhar profundamente no cyberespaço (termo cunhado por Gibson e de tamanho impacto que acabou se tornando sinônimo de internet), arriscando sua sanidade ao entrar na matrix à procura de um constructo (a memória de alguém já morto) detentor de conhecimentos importantíssimos para os contratantes de Case. Para tanto, ele conta com a ajuda de Molly, seu elo com os contratantes e, em certos momentos, com a realidade (a imagem na capa do livro é uma representação da Molly). O desfecho da história é impressionante (e fãs de Star Trek encontrarão ali um motivo extra para gostar do livro).

William Gibson cobra do leitor um compromisso com a realidade inventada por ele. Gibson não se dá ao trabalho de explicar cada pedaço desse mundo. Felizmente, ele superestima a inteligência do leitor, obrigando-o a “comprar” seu mundo como se fosse algo normal, cotidiano. Isso torna o livro enxuto e dinâmico. Imagine que um escritor que criasse romances baseados no nosso mundo atual se preocupasse em descrever exatamente como funciona um telefone celular, ou a internet: seria profundamente entediante. Gibson cria elementos que até mereceriam detalhamento – por não terem correspondentes no mundo real – mas isso tornaria o livro profundamente monótono.

Neuromancer inspirou profundamente o filme Matrix – há quem diga, aliás, que Matrix é um plágio descarado. Prefiro ficar com a definição de Alex Antunes no prefácio da minha edição:

Digamos que Neuromancer e Matrix (principalmente a partir da sua segunda parte) se parecem com a versão adulta e a juvenil de uma mesma história. Ou que Matrix é o esboço da adaptação de Neuromancer para o cinema, que vem sendo prometida há anos e sempre adiada. (p. 7)

Seja como for, Matrix revolucionou a indústria de efeitos especiais e, por via indireta, essa revolução vai pra conta de William Gibson. Além disso, Neuromancer forneceu material para a criação de jogos de computador, RPGs e outras tantas histórias contadas ao redor do cyberpunk. Sem exageros, Gibson criou um novo universo, tão amplo quanto a imaginação permite, e ainda assim conetado à nossa realidade tecnológica.

Por ser uma história formidável e por ter essa enorme influência na cultura pop, não é exagero dizer que Neuromancer é um clássico.

Ficha

  • Título original: Neuromancer
  • Autor: William Gibson
  • Editora: Aleph
  • Páginas: 303
  • Cotação: 5  estrelas
  • Encontre Neuromancer.

O Retorno do Capitão Kirk

O Retorno do Capitão Kirk - capaFrancamente, não sou a pessoa mais indicada pra resenhar esse livro. Acho o William Shatner fantástico, pra mim tudo que ele faz é incrível, assistia Boston Legal por causa dele e sou órfã do $h*! My dad says. Por outro lado, tenho que admitir que, embora a Série Clássica seja melhor que a Nova Geração, o Picard é melhor que o Kirk. Mas veja só a época: Kirk era um desbravador, um aventureiro, praticamente um pioneiro. Quando Picard comandou, os tempos eram outros – mais burocráticos, mais tranquilos, com menos planetas inexplorados repletos de mocinhas carentes e parcamente vestidas…

Mas divago.

O que gosto no Shatner é justamente o que apontam como seu defeito: seu jeito canastrão. E O Retorno do Capitão Kirk é canastrão desde o título original: Star Trek – The Return. Porque, afinal de contas, o que seria de todo o universo criado por Gene Roddenberry sem seu personagem principal, não é mesmo? Ele retorna, a série inteira retorna junto.

Não que a história não seja boa: ela é muito bem escrita e foi feita pra agradar em cheio aos trekkers. Mas veja, o livro só existe porque Bill Shatner ficou revoltado demais com a morte do seu personagem no filme Generations (e quem não ficou?) e é egocêntrico o suficiente pra tentar mudar o curso das coisas, nem que seja só no mundo dos livros de Star Trek (que não são considerados parte da mitologia da série). Não é um golpe digno do Capitão Kirk? Bill trapaceou dentro do jogo dos roteiristas, diretores e da Paramount. Kobayashi Maru!

Claro que ele contou com uma ajudinha… embora a capa do livro diga “Escrito por William Shatner”, na folha de rosto a gente descobre um “com Judith e Garfield Reeves-Stevens”. Esse casal é famoso pelos seus ótimos livros baseados em Jornada nas Estrelas e por seu intenso envolvimento com a franquia. Fiquei pensando qual foi a real contribuição do Shatner para o livro (além de dizer “Olha, escrevam sobre a volta do Capitão Kirk!”).

Mas tergiverso..

Kirk não morreu! - cena de Generations
Kirk não morreu!

Voltemos ao livro. Estão lá todos os elementos para uma boa história de Star Trek: membros da Série Clássica, a honrada tripulação da Nova Geração, tem até um passeio pela Estação Espacial 9… e os vilões, claro, os vilões! Romulanos e borgs, juntos e ao vivo! Basicamente, os dois melhores grupos de vilões de toda o universo trekker. Kirk, dado por morto e enterrado, é ressuscitado por eles para servir a fins escusos que podem ser resumidos no objetivo geral dos vilões de  Jornada: conquistar 24 territ- ops, quero dizer, destruir a Frota Estelar e a Federação.

No processo, o leitor se emociona (como não?), diverte-se e experimenta bons momentos de suspense. Em alguns pontos aparece um certo tédio e alguma irritação pelos constantes “cortes de cena” (algumas delas são bem desinteressantes). No geral, porém, a história não decepciona. Digo mais: um trekker vai não apenas curtir o livro, mas vai se deliciar com o desfecho pra lá de surpreendente! E aí fico pensando: como raios isso não pode ser canônico??? É bom demais pra ficar restrito a um livro.

Desculpe, eu sei que este artigo só faz sentido pra quem é muito fã de Jornada nas Estrelas, mas assim também é o livro. O Retorno do Capitão Kirk é praticamente um trabalho de arqueologia pelo longo universo de Star Trek, que hoje, 8 de setembro de 2011, completa gloriosos 45 anos, audaciosamente indo aonde nenhuma série jamais esteve. E este texto está mais pra cartão de aniversário que pra resenha literária.

Parabéns a todos os envolvidos! 🙂

Ficha

  • Título original: Star Trek – The Return
  • Autores: William Shatner, com Judith e Garfield Reeves-Stevens
  • Editora: Meia Sete
  • Páginas: 415
  • Cotação: 5 estrelas
  • Encontre O Retorno do Capitão Kirk.

Imagens: capa do livro e cena de Star Trek: Generations (divulgação).

1808

1808 - capa do livroHistória era minha matéria favorita na escola. De fato, até quis ser historiadora por um tempo (e depois, arqueóloga; depois, socióloga – mas essa já é outra história). Assim, é claro que não poderia deixar passar 1808, livro que despertou apenas elogios quando foi lançado. Quando vi que se enquadra como livro-reportagem (segundo o próprio autor, na página 24), percebi que era a chance perfeita de finalmente lê-lo, dentro do Desafio Literário; e digo que não só li, mas devorei suas páginas.

1808 é um livro fácil, despretensioso, ligeiro e interessantíssimo. Laurentino Gomes não construiu um texto propriamente linear, mas estruturado em capítulos curtos, cada qual dedicado a um tema: ora volta-se para a colônia, ora retorna ao Reino de Portugal sitiado pelos franceses, depois descreve Carlota Joaquina, ou D. João VI, ou outros nomes desconhecidos dos livros didáticos de história (como o Padre Perereca), para então tratar da queda de Napoleão, e assim por diante. O resultado é um livro cheio de personagens instigantes e fatos curiosos, todos bem situados na história, mas que nem por isso se tornam uma sucessão enfadonha de genealogias e datas. Seria formidável se os adolescentes pudessem estudar História do Brasil e Geral em livros desse tipo (apesar de adorar História, lembro bem da chateação que era a decoreba exigida por alguns professores), embora entenda que essa ideia é um tanto utópica.

Em linhas gerais, todos conhecem o tema: a família real portuguesa foi acuada pelo império napoleônico, fugiu para sua principal colônia e iniciou um período de prosperidade para o Brasil, simbolizado principalmente pela abertura dos portos (ainda que a única beneficiária, de início, tenha sido a Inglaterra). São os detalhes que importam: as crônicas de costumes, as observações dos estrangeiros que para cá vieram, os hábitos e vícios dos colonos e dos colonizadores. A corte real portuguesa era antiquada, praticamente medieval, carola e sem sofisticação(como, de resto, era o povo que governava); numerosa e tendo saído às pressas da Europa, precisava de tudo ao chegar à colônia. Os brasileiros eram vulgares, sem modos, sujos (com suas casas e ruas, mas muito dedicados ao asseio do próprio corpo), incivilizados e incultos. Tiveram inúmeras propriedades confiscadas para atender aos interesses da família real, o que poderia ter desencadeado uma revolta, mas já ali mostravam sua tendência a levar tudo na piada, fazendo graça de suas próprias desgraças. Se eram explorados pelo colonizador, também levavam vantagem aumentando preços e angariando títulos de nobreza, numa toma-lá-dá-cá que é bem conhecido ainda nos dias de hoje. Não ganharam refinamento de uma hora para a outra, mas um polimento superficial foi dado aos costumes e à cidade do Rio de Janeiro, com alargamento de vias, cuidados com lixo e esgoto e iluminação pública. Afinal, a sede de um império europeu não podia continuar tão desmazelada.

Particularmente chocante é o capítulo que trata da escravidão: os maus-tratos, a grande taxa de mortalidade e os castigos brutais sofridos pelos negros trazidos da África não são desconhecidos de quem estudou História, mas são apresentados em riqueza de cores e exemplos em 1808, dando forma aos relatos frios dos livros tradicionais e às placas em museus que ainda hoje guardam instrumentos de tortura.

É justo dizer que brasileiros e portugueses se viam com recíproca desconfiança, mas acabaram aliando-se, ajudando-se mutuamente e beneficiando-se dos treze anos em que a corte portuguesa esteve no Rio de Janeiro. Apesar dos desmandos, da parasitagem e da corrupção (ah, os problemas que até hoje perduram), apesar da volta atabalhoada a Portugal ter custado o erário brasileiro, apesar de toda a exploração, o estabelecimento do governo de D. João VI no Brasil promoveu uma unidade à colônia que talvez não fosse conquistada de outra forma. Como destaca Laurentino Gomes, aí começou a formação da identidade brasileira.

Para o bem e para o mal.

Ficha

  • Título original: 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil.
  • Autor: Laurentino Gomes
  • Editora: Planeta
  • Páginas: 414
  • Cotação: 5  estrelas
  • Encontre 1808.
Este texto faz parte do Desafio Literário 2011, cujo tema em maio é livro-reportagem. Conheça o Desafio Literário.