#52 Livros – 2014

Anos anteriores: 2013

Essa página será atualizada semanalmente, se tudo der certo. 😉

Se, por acaso, eu vier a resenhar algum desses livros, coloco o link aqui. Se desejar informações sobre qualquer dos livros, é só perguntar ou visitar meu perfil no Goodreads.

  1. A Adaga de Médici – Cameron West
  2. Walden – Henry David Thoreau
  3. Anotações sobre um escândalo – Zoë Heller
  4. Fahrenheit 451 – Ray Bradbury
  5. A Espada na Pedra – T. H. White
  6. As Crônicas de Gelo e Fogo – Volume 3 – George R. R. Martin
  7. As Crônicas de Gelo e Fogo – Volume 2 – George R. R. Martin
  8. As Cem Melhores Crônicas Brasileiras – Joaquim Ferreira dos Santos (organizador)
  9. Um Dia na Vida do Século XXI – Arthur C. Clarke
  10. Frankenstein – Mary Shelley
  11. Julie e Julia – Julie Powell

Qual é a experiência que importa?

Cena 1: seu namorado passa na sua casa, de carro. Vocês vão sair pra jantar. No trajeto até o restaurante (digamos, uns quinze minutos), ele mal olha para você. As atenções do moço estão todas voltadas para a ligação no celular (bem, você espera que tenha sobrado um pouquinho de atenção para o trânsito). Enquanto isso, você vai contando os postes da rua para se distrair.

Cena 2: você e sua amiga marcam um almoço para colocar o papo em dia. Vocês mal fazem o pedido e sua amiga recebe uma mensagem. Ela responde e, finalmente, você começa a contar as novidades. Um minuto e meio depois, o celular da amiga toca novamente. Ela lê a mensagem, e responde. Vira para você e diz “pode continuar”. Ah, que bom que você pode continuar. Você tenta e… o celular da amiga toca de novo. Outra mensagem, que ela responde. O papo – com o celular – deve estar bem interessante. Você desiste de entabular qualquer conversa. Melhor não atrapalhar.

Cena 3: você e dois amigos resolvem se encontrar para um happy hour. Eles sabem que você sai mais tarde do trabalho e vai se atrasar uns vinte minutos. Quando você chega, um dos amigos está com cara de bunda, enquanto o outro está pendurado num tablet. Há vinte minutos. Ignorando solenemente o amigo que está na frente dele. E nem vê que você chegou, claro.

Cena 4: você resolveu almoçar sozinha num dos seus restaurantes favoritos. Na mesa ao lado, estão quatro pessoas, provavelmente quatro amigos (você supõe, ao menos, que não sejam inimigos). Um está teclando furiosamente (provavelmente postando fotos no instagram), outro está aos berros numa ligação e os outros dois são os únicos realmente tentando interagir – mas não conseguem manter o fio da meada por causa do companheiro gritando ao celular. Aliás, ninguém no restaurante consegue.

Se você nunca passou por uma dessas situações (ou por alguma outra bem parecida), você é um sortudo. Ou um privilegiado, porque todos os seus amigos e conhecidos sabem se comportar. Hum… mais provavelmente, é você o amigo desagradável.

Veja, eu entendo essa conectividade permanente e, confesso, sou fã número 1 dela. Tenho computador, tablet, smartphone (que até faz ligações, embora eu deteste usar esse recurso), pacote de dados, wifi. São poucos os momentos em que não há uma tela conectada no meu nariz. Isso, bem entendido, quando estou sozinha. Quando almoço sozinha, o twitter é uma companhia agradável. Em casa, vendo televisão, uma das telinhas também está constantemente em uso.

Quando, porém, saio com outras pessoas, as telas somem. Só deixo o celular em cima da mesa se estiver esperando uma ligação, quase sempre de algum amigo que ainda não chegou. Nem olho eventuais mensagens que cheguem e, se tiver mesmo que atender o telefone, peço desculpas e procuro resolver em menos de um minuto. De preferência, nem atendo – sempre posso retornar a chamada mais tarde. E, certamente, não serei eu a fazer uma ligação e alienar as pessoas que estão comigo.

Amo meu celular, a internet, a possibilidade de estar sempre conectada e a chance de conversar com novos e velhos amigos a qualquer momento. Só que, por princípio, a pessoa que está na minha frente é sempre mais importante que qualquer outra. Eu não saí contigo para que você tenha que contar as mesas do restaurante pra se distrair, nem tenha que recorrer ao seu próprio celular se quiser algum tipo de interação social. Eu saí com você para estar com você. As outras pessoas, por mais interessantes ou legais que sejam, não estão comigo. Não sou médica ou veterinária, portanto não posso salvar a vida delas ou dos eventuais bichinhos de estimação (sim, dou salvo-conduto aos profissionais de saúde, e só a eles). Qualquer assunto que brote no meu celular pode esperar.

Deixar você plantado ouvindo o vento enquanto eu me ocupo de outras coisas é sinal de absoluto desrespeito. É descaso profundo. É como se eu dissesse “eu sou importante demais para focar meus olhos e ouvidos em você, tenho mais o que fazer – e estou aqui, fisicamente, por uma deferência à sua pessoa, mas meu espírito e minha atenção estão em outro lugar; contente-se com isso”.

Aí, você pode me dizer: “ah, mas isso é o progresso, nós estamos sempre conectados, conseguimos fazer várias coisas ao mesmo tempo e, olha só, eu posso perfeitamente estar batendo papo no twitter ou me pendurar num telefonema e te dar atenção ao mesmo tempo”.

Não, cara-pálida. A conectividade, a modernidade, a contemporaneidade, o raioqueopartadade não são desculpas para a sua falta de consideração.

Entenda: a pessoa que está na sua frente abriu mão de algo para estar ali. Ela podia estar fazendo qualquer outra coisa. Ela podia, inclusive, estar fazendo nada. Pelo simples fato de estar ali, ela merece que você também esteja, e não só de corpo presente.

Se você não é capaz de entender isso, lamento muito pelas pessoas com quem se relaciona – se é que sobrou alguma.

(Texto inspirado por essa crítica. Há algo
errado quando o que importa é a experiência de
um produto, não quem está na sua frente.)

Existe amor em Águas Claras.

Ontem, 21 de abril de 2013, em comemoração aos 53 anos de Brasília, o âncora Estevão Damásio, da CBN Brasília, propôs um programa leve e divertido com a participação de figuras do cenário cultural do Distrito Federal: o ator Bruno Torres (que está no filme Somos Tão Jovens, com estréia em 3 de maio), Digão e Canisso, da banda Raimundos, e o gaitista Engels Espíritos. Claro que o programa não foi tão tranquilo assim, e não foi por falta de tentativas do Estevão (dica: se você quiser um ambiente leve, não convide o Engels Espíritos).

Lá pelas tantas, chamou-me a atenção a forma como Águas Claras foi citada – provavelmente pelo Espíritos, mas o áudio pode ter me traído. O artista disse que “fica assustado” toda vez que vai à região. Seguiram-se habituais reclamações sobre a urbanização desenfreada do DF, a “falta de horizonte” e outros clichês. E, claro, acrescentou-se o usual “sem querer ofender quem mora lá”.

Eu moro em Águas Claras. E não, não me sinto ofendida pelas constantes observações negativas que ouço sobre esta pequena grande cidade, da mesma forma que não me ofendo quando ouço comentários preconceituoso sobre Brasília feitos por quem nunca pisou no DF. Sinto-me é espantada ao constatar que pessoas que vivem há meros vinte quilômetros de Águas Claras ainda repetem críticas que denotam tanto desconhecimento.

É incrível, por exemplo, ouvir que alguém “fica assustado” em Águas Claras. Até entendo a sensação, se o comentário vier de alguém acostumado a viver no campo e que nunca viajou por outros cantos, outras cidades, outras paisagens. Tantas e tantas cidades brasileiras têm a mesma conformação de Águas Claras: prédios altos, próximos, pessoas pelas ruas, comércio em todo canto. Claro, não se vê isso em Brasília, ou melhor, no Plano Piloto, com seus amplíssimos espaços, cheios de árvores e ausentes de pedestres. Aliás, no mesmo programa, os participantes comentaram que uma caminhada em Brasília “cansa o psicológico antes de cansar o físico” e que pra encontrar um amigo é preciso marcar um ponto no meio do caminho. Sim, isso é verdade no Plano Piloto.

Águas Claras é diferente. As pessoas se vêem mais, se falam mais. Nos prédios, a gente conhece os vizinhos. Aliás, por menos do que pagaria no Plano Piloto e adjacências para morar em uma quitinete (seja alugando ou comprando), usufruo de um apartamento agradável e ventilado, num prédio que me oferece piscina, academia de ginástica e outras facilidades, além de me isolar do som dos vizinhos porque as paredes são grossas o suficiente – mas que, ao mesmo tempo, propõe espaços amigáveis de convivência com esses mesmos vizinhos.

Sem atravessar a rua, tenho farmácia e padaria. Se atravessar, encontro bares, restaurantes, supermercados, escolas e todo tipo de comércio (esticando um pouco mais – mas sem exagero – tem até um shopping center com bons cinemas, praça de alimentação e um punhado de lojas). Andar a pé em Águas Claras não “cansa o psicológico”, porque há gente pelas ruas e vou me distraindo pelo caminho. Posso parar pra ver uma vitrine ou outra. Há uma sensação de comércio de bairro que se traduz em sorrisos – o cliente conhece o balconista e vice versa, não é aquela coisa ríspida e grosseira de nem olhar na cara.

É claro que Águas Claras tem problemas – e que cidade não tem? Aqui, entre outros, temos um trânsito estressante nos horários de pico (mas também temos o metrô – eu opto por usar o transporte público e deixo o carro em casa quase todos os dias). Temos, também, uma triste falta de árvores e de espaços públicos de convivência (o Parque Águas Claras é logo ali, mas seria ótimo ter pequenas praças em toda a parte). Algumas quadras sofrem com constantes quedas de energia elétrica.

O Plano Piloto também tem problemas – e qualidades. A Asa Sul, por exemplo, é encantadora, apesar das grandes distâncias e da falta de “bom-dia” no elevador.

Meu ponto é: não se assuste com Águas Claras. Somos uma cidade comum, feita de gente, de veículos, de defeitos e de qualidades. Não há o que temer. Abra a mente e o espírito, venha dar uma volta por aqui. Vamos tomar um milkshake ali do lado e eu lhe mostro o que há de bom ao redor da Arniqueiras e da Castanheiras.

Deixe de lado o preconceito. Existe amor em Águas Claras.